Enquanto o setor se consolida como alternativa imediata contra o desemprego e fonte de autonomia financeira, pesquisadores apontam riscos físicos e mentais ligados à gestão algorítmica.
A expansão das plataformas digitais no Brasil consolidou um cenário dual no mercado de trabalho. De um lado, aplicativos de serviços e entregas operam como uma ferramenta vital de inclusão produtiva, oferecendo barreiras de entrada baixas e liquidez imediata para milhões de brasileiros. Do outro, estudos acadêmicos recentes levantam alertas severos sobre a precarização das condições laborais e os impactos da gestão algorítmica na saúde física e mental desses profissionais.
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O debate central gira em torno da sustentabilidade desse modelo, que se equilibra entre a promessa de liberdade econômica e a realidade de uma rotina muitas vezes exaustiva e incerta.
A atratividade econômica e a inclusão
Para uma grande parcela da população, a economia de plataforma deixou de ser um complemento de renda para se tornar a principal fonte de sustento. Dados de associações do setor, como a Amobitec, e levantamentos de institutos de pesquisa econômica indicam que a flexibilidade é um dos maiores ativos para a atração de mão de obra. Diferente do mercado formal, que exige processos seletivos e experiência prévia, as plataformas permitem que o trabalhador comece a gerar renda em poucos dias.
Os defensores do modelo apontam que, em muitos casos, os ganhos de motoristas e entregadores superam o salário mínimo nacional e a remuneração média de outros setores informais. Além disso, o sistema funciona como um colchão de segurança em tempos de crise, oferecendo autonomia para que estudantes, mães e chefes de família conciliem o trabalho com outras demandas pessoais, promovendo inclusive a bancarização de indivíduos antes excluídos do sistema financeiro.
O custo invisível da gestão algorítmica
Apesar dos benefícios financeiros imediatos, uma pesquisa recente publicada na Revista Brasileira de Saúde Ocupacional (RBSO), da Fundacentro, lança luz sobre os custos humanos dessa modalidade. O artigo “Plataformas digitais, o retrato contemporâneo da exploração no trabalho e os desafios à saúde do trabalhador” analisa como a chamada “gestão algorítmica” amplia o controle sobre o trabalhador de formas sutis, porém intensas.
As autoras do estudo, Julice Salvagni, Marilia Veronese e Roseli Figaro, basearam-se em uma revisão integrativa da literatura entre 2017 e 2022. A conclusão é que, por trás dos discursos de empreendedorismo e inovação, existe uma “desorganização controlada”. As normas e prescrições da atividade são alteradas constantemente pelos algoritmos, instalando uma incerteza permanente que retira do trabalhador o potencial de gerir sua própria rotina de forma saudável.
O estudo aponta que essa dinâmica gera sentimentos de subordinação e perda de sentido do trabalho, fatores associados ao aumento de estresse, ansiedade e outros agravos à saúde psicossocial. A necessidade de estar disponível 24 horas para garantir bons ganhos acaba, segundo a pesquisa, transferindo todo o ônus das condições de saúde e segurança para o próprio indivíduo.
Autonomia real ou ilusória?
O ponto de maior divergência entre as visões de mercado e a academia reside no conceito de autonomia. Enquanto o setor produtivo destaca a liberdade de horário como uma conquista moderna e uma oportunidade de “parceria”, as pesquisadoras classificam essa relação como uma dissimulação de vínculos assimétricos.
O artigo da Fundacentro descreve o fenômeno como uma “nova colonialidade” presidida por empresas transnacionais que, ao se autodenominarem apenas empresas de tecnologia, se eximem de responsabilidades trabalhistas e previdenciárias. A gestão algorítmica cria um ambiente onde o trabalhador não compreende as regras do jogo e sofre com frequentes quebras de normas, o que introduz um meio ambiente laboral potencialmente doentio.
Desafios para o futuro do setor
Diante de diagnósticos tão distintos, o futuro do trabalho em plataformas digitais caminha para um momento decisivo de regulação e adaptação. As evidências apontam que o setor é economicamente essencial para absorver a massa de trabalhadores informais, mas carece de mecanismos que protejam essa força de trabalho do esgotamento e do adoecimento.
Tanto o mercado quanto a academia concordam que a compreensão profunda desse cenário é necessária. Enquanto o setor segue em expansão, cresce a demanda por políticas públicas que consigam balizar a liberdade econômica com a garantia de direitos, assegurando que a tecnologia sirva como ferramenta de emancipação, e não apenas de controle.
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