A Justiça do Trabalho consolidou-se como uma das esferas mais acionadas do Judiciário brasileiro, somando mais de 25,6 milhões de novas ações entre os anos de 2015 e 2025. Os dados são fruto da pesquisa Retrospectiva dos Processos Trabalhistas 2015-2025, desenvolvida pela Predictus, empresa especializada em inteligência de dados jurídicos. O levantamento oferece um raio-x profundo sobre o comportamento dos litígios no país, revelando o impacto direto de mudanças legislativas, crises econômicas e o fenômeno da concentração de processos em grandes corporações.
📲Quer receber notícias direto no celular? Entre no nosso grupo no WhatsApp.
De acordo com Hendrik Eichler, especialista em big data e fundador da Predictus, o estudo utilizou uma metodologia robusta que integra o processamento automatizado de bases proprietárias com informações do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), Receita Federal e IBGE. O suporte de agentes de inteligência artificial e a validação por curadoria humana garantiram que a análise refletisse com precisão as oscilações do mercado de trabalho e as tendências do contencioso nacional.
O impacto da reforma trabalhista e a série histórica
O histórico da última década revela um gráfico de oscilações acentuadas. O período analisado iniciou com volumes recordes de reclamações. Em 2015, foram registradas 2,85 milhões de ações, número que saltou para 3,06 milhões em 2016. Esse pico histórico coincidiu com a recessão econômica enfrentada pelo Brasil naqueles anos, período marcado por demissões em massa e conflitos frequentes sobre o pagamento de verbas rescisórias.
A grande mudança de cenário ocorreu em 2017. Até novembro daquele ano, o ritmo de novos processos permanecia elevado, com 2,95 milhões de casos. Contudo, a entrada em vigor da Lei nº 13.467/2017, a chamada Reforma Trabalhista, alterou drasticamente a dinâmica dos tribunais. Em 2018, o volume de novas ações recuou para 2,03 milhões, representando uma queda de 31,2% em apenas doze meses.
Eichler explica que essa redução foi a mais brusca de toda a série histórica. A introdução de mecanismos como os honorários de sucumbência e a responsabilidade pelo custo de perícias em caso de derrota impôs novos riscos ao reclamante. Na prática, o filtro legal desestimulou ações de baixo valor ou sem fundamentação sólida, resultando em uma diminuição imediata de quase 800 mil processos anuais.
Pandemia e a mínima histórica da litigiosidade
Após um breve ensaio de recuperação em 2019, quando o volume subiu para 2,34 milhões de ações, o sistema judiciário enfrentou o impacto da crise sanitária global. Em 2020, a Justiça do Trabalho registrou seu ponto mais baixo em dez anos, com 1,76 milhão de novos processos. Esse número representou uma retração de 25% frente ao ano anterior e ficou 42% abaixo do recorde de 2016.
Vários fatores contribuíram para essa calmaria atípica nos tribunais. Além da paralisação de diversas atividades econômicas, o período foi marcado pela adoção de medidas emergenciais do governo, como a suspensão de contratos e redução de jornadas, que postergaram conflitos. Somou-se a isso a dificuldade logística de acesso aos tribunais durante a migração para o modelo de trabalho remoto e a insegurança dos trabalhadores em iniciar disputas judiciais em um cenário de incerteza extrema.
Retomada gradual e o cenário da Justiça do Trabalho em 2025
A partir de 2022, os dados indicam uma retomada consistente e gradual do volume de processos. De 1,89 milhão de ações naquele ano, o número saltou para 2,10 milhões em 2023 e atingiu 2,40 milhões em 2024. Em 2025, o fechamento do levantamento apontou 2,47 milhões de novos casos, confirmando que o sistema continua operando em alta demanda, com uma média de 200 mil novos protocolos por mês.
Apesar da curva ascendente, o patamar atual de 2025 ainda se mantém cerca de 19% inferior ao pico registrado antes da reforma de 2017. Para os especialistas, o cenário sugere um reequilíbrio do sistema, que parece ter encontrado um novo ponto de estabilidade entre 2,3 e 2,6 milhões de ações anuais, distanciando-se dos recordes do passado, mas mantendo o Brasil em uma posição de destaque no cenário de litigiosidade mundial.
Concentração de processos em grandes empresas
Um dos pontos mais reveladores da pesquisa é a assimetria na distribuição das ações. Em 2025, um grupo restrito de apenas 100 grandes empresas foi responsável por 13,6% de todo o volume processual do país. Nessas corporações, a média é de 4.315 processos por empresa ao ano. Em contrapartida, a vasta maioria dos empregadores (cerca de 1,83 milhão de empresas) possui uma presença pontual na justiça, com média de apenas 1,5 processo anualmente.
Esse perfil de litigantes de massa concentra-se em setores como serviços financeiros, varejo, indústria, logística e infraestrutura. A alta rotatividade de pessoal e a complexidade de estruturas operacionais gigantescas facilitam o surgimento de conflitos recorrentes, que são administrados por departamentos jurídicos robustos.
Motivações dos conflitos e o papel da conciliação
Quanto ao objeto das disputas, os temas remuneratórios continuam dominando as pautas. Em 2025, as três principais causas de pedidos judiciais foram:
-
Horas extras (25,7%)
-
Verbas rescisórias (20,4%)
-
Adicional de insalubridade (20,2%)
O levantamento também destaca que a Justiça do Trabalho mantém uma forte vocação para o consenso. No último ano, 30,8% dos processos foram encerrados por meio de homologação de acordos. Quando somados aos casos extintos pelo cumprimento voluntário da sentença (20,5%), nota-se que mais da metade das ações encontra uma solução sem a necessidade de esgotar todos os recursos possíveis.
Hendrik Eichler pondera que esse alto índice de conciliação revela uma cultura que ainda privilegia a solução via Judiciário em vez da conformidade preventiva. Segundo o especialista, muitos desses conflitos poderiam ser evitados com melhores práticas de gestão de recursos humanos e cumprimento rigoroso da legislação desde a base da relação contratual.
A análise final da Predictus indica que, embora o volume de processos tenha se estabilizado em um nível intermediário, a estrutura detalhista da legislação brasileira e a cultura do conflito garantem que o ramo trabalhista permaneça como um dos pilares mais movimentados do direito nacional nos próximos anos.
Leia mais:
Banco Central instaura comissão para investigar instituições do Grupo Master
Lula sanciona reajuste salarial para servidores federais com vetos ao teto
Defensoria Pública do Amazonas abre seleção para residência jurídica em Lábrea
Siga nosso perfil no Instagram, Tiktok e curta nossa página no Facebook

