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TDAH em adultos: o que explica a explosão de novos diagnósticos?

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Entenda por que cada vez mais pessoas descobrem o transtorno tardiamente, os desafios da identificação em mulheres e o papel das redes sociais na busca por tratamento.

O TDAH em adultos deixou de ser um tema de nicho para se tornar uma questão de saúde pública e debate social. Durante os anos escolares, Mara (nome fictício) nunca enfrentou grandes obstáculos acadêmicos; as notas eram boas e o comportamento, exemplar. As dificuldades reais surgiram apenas na universidade. “Enquanto meus colegas estudavam diligentemente na biblioteca, eu me distraía facilmente com o celular”, relata.

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A situação, que parecia apenas falta de disciplina, agravou-se quando ela notou que, enquanto os colegas se formavam, ela continuava lutando contra a desorganização e a falta de foco. O diagnóstico só veio após um episódio depressivo e tratamentos ineficazes, quando uma psiquiatra sugeriu o teste para o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade. A confirmação, aos 20 e poucos anos, foi libertadora: “Percebi que não se devia ao fato de eu não me esforçar o suficiente, mas de minha cabeça funcionar de uma maneira diferente”.

O caso de Mara ilustra um fenômeno global crescente. Estudos epidemiológicos estimam que entre 2% e 3% da população adulta mundial tenha o transtorno. No entanto, novos dados indicam uma mudança drástica na identificação desses casos.

O salto nos números globais

Dados recentes publicados pela revista Ärzteblatt International mostram que, na Alemanha, a taxa de novos diagnósticos de TDAH em adultos segurados pelo sistema público quase triplicou entre 2015 e 2024, saltando de 8,6 para 25,7 por 10 mil pessoas.

Essa tendência não é isolada. Nos Estados Unidos, o número de adultos diagnosticados mais que dobrou nas últimas duas décadas. Mas, o que está por trás dessa estatística? Para a Dra. Swantje Matthies, psiquiatra do Hospital Universitário de Freiburg, a resposta é objetiva: “O TDAH na idade adulta tem sido diagnosticado com muito mais frequência nos últimos dez anos, provavelmente porque muitos não haviam recebido um diagnóstico até então”.

E no Brasil? A realidade não é diferente

O fenômeno observado na Europa se repete com força no Brasil. Embora não existam dados unificados do SUS com a mesma precisão alemã, o consumo de medicamentos controlados serve como um termômetro fiel desse aumento.

Segundo dados recentes da ANVISA, a venda de medicamentos para TDAH quase dobrou apenas entre 2023 e 2024. Além disso, o interesse pelo tema explodiu: as buscas por “TDAH” no Google cresceram mais de 500% nos últimos cinco anos, sugerindo que o brasileiro adulto, assim como a alemã Mara, está finalmente buscando respostas para dificuldades que enfrentou a vida inteira.

Genética, gênero e a mudança de percepção

Por muito tempo, o transtorno foi estigmatizado como uma “doença de criança inquieta”. Hoje, a ciência entende que o TDAH tem até 80% de causa genética e persiste ao longo da vida. O aumento nos diagnósticos tardios também revela uma disparidade de gênero histórica.

Enquanto meninos tendem a apresentar hiperatividade visível, meninas frequentemente manifestam o tipo desatento, com sintomas mais sutis como o “comportamento sonhador”. “Esses sintomas são mais difíceis de identificar e muitas vezes confundidos com depressão”, explica Matthies. Na vida adulta, a hiperatividade física muitas vezes se transforma em uma inquietação interna constante, enquanto a desatenção permanece.

Como identificar o transtorno na fase adulta

O diagnóstico de TDAH em adultos é um processo clínico complexo. Não existe um exame de sangue ou imagem que o detecte isoladamente. A avaliação baseia-se em entrevistas detalhadas e na reconstrução da biografia do paciente.

Um critério fundamental é verificar se os sintomas já estavam presentes antes dos 12 anos de idade. Como a memória pode falhar, documentos antigos, como boletins escolares, tornam-se peças-chave na investigação. Além disso, é crucial descartar outras condições psicológicas que também afetam a concentração, como ansiedade ou bipolaridade.

Os especialistas apontam que a alta nos casos reflete uma maior conscientização social, mudanças nos manuais de classificação de doenças e o impacto da pandemia de Covid-19, que levou mais pessoas a buscarem ajuda para a saúde mental.

Redes sociais e o futuro da inclusão

A visibilidade do tema nas redes sociais é uma faca de dois gumes. Se por um lado reduz o estigma e incentiva a busca por ajuda, por outro pode gerar autodiagnósticos imprecisos baseados em informações simplificadas.

Para quem recebe o diagnóstico clínico, contudo, o efeito é transformador. Com terapia e medicação adequadas, pacientes relatam uma melhora na qualidade de vida. Mara, por exemplo, aprendeu a usar o “hiperfoco” — uma capacidade de concentração intensa típica do TDAH — a seu favor profissionalmente.

Ainda assim, o desafio da inclusão persiste. Especialistas e pacientes defendem ambientes de trabalho mais flexíveis e menos estimulantes. “Isso ajuda muita gente, não só quem tem TDAH”, conclui Mara, reforçando que uma sociedade preparada para a neurodivergência é benéfica para todos.

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