Um clima de temor em Manaus marcou o fim de semana, impulsionado pela rápida disseminação de um suposto “recado” ou “salve” atribuído à facção criminosa Comando Vermelho (CV). A mensagem, compartilhada exaustivamente em aplicativos de mensagens e redes sociais, determinava a suspensão de “nenhum tipo de festa, comemoração ou evento durante este período”. O motivo alegado seria o luto decorrente da “perda de irmãos valorosos”, uma referência direta a membros da organização mortos recentemente.
A ordem, verdadeira ou não, teve um impacto tangível imediato. O medo tornou-se palpável, alterando a rotina de diversos moradores, especialmente em áreas comumente associadas à influência do grupo. Relatos de comerciantes fechando as portas mais cedo e de cidadãos cancelando compromissos sociais se multiplicaram.
O caso de Ana Maria Silva, moradora da Zona Leste da capital, ilustra a apreensão geral. Ela relatou à imprensa local que desistiu de assistir à partida de seu time, o Flamengo, em um bar na região, optando pela segurança de casa. “Vou assistir de casa, não sabemos se esse recado é verdadeiro, mas é melhor evitar”, declarou, ecoando o sentimento de cautela que dominou parte da cidade.
O “Salve” e o Temor em Manaus

Enquanto a população reagia com receio, autoridades e representantes de setores afetados moveram-se para tranquilizar o público e investigar a veracidade das ameaças. Gerson Sampaio, presidente da Associação de Entretenimento do Estado do Amazonas (Associação de Bares e Restaurantes), afirmou que, apesar dos rumores, não havia registro oficial de uma proibição generalizada ou de ameaças diretas que justificassem o fechamento completo dos estabelecimentos.
Segundo Sampaio, os relatos de coerção ou medo pareciam estar concentrados em “pontos específicos da zona Leste”, sugerindo uma ação localizada ou um boato que saiu de controle, ao invés de uma ordem unificada e imposta em toda a capital.
A Secretaria de Segurança Pública do Amazonas (SSP-AM), embora ciente da circulação da mensagem e monitorando a situação, não emitiu um comunicado oficial imediato sobre o caso. No entanto, fontes da Polícia Militar, que intensificaram as rondas em áreas sensíveis como a Avenida Itaúba (Zona Leste), onde empresários teriam relatado restrições, asseguraram que o patrulhamento seguia dentro da normalidade, sem alterações drásticas na ordem pública. A orientação era manter a vigilância e responder a quaisquer incidentes, tratando o “salve” como uma potencial fonte de instabilidade.
A operação mais letal
O pano de fundo para o “salve” em Manaus é uma das mais controversas e letais operações policiais da história recente do Brasil, ocorrida dias antes no Complexo da Maré, Rio de Janeiro. Esta megaoperação, que segundo a imprensa internacional e órgãos de direitos humanos ultrapassou o Carandiru em número de mortos, tinha como alvo principal lideranças do Comando Vermelho, muitas delas oriundas do Amazonas.
A investigação que culminou na operação revelou um esquema complexo onde chefes do CV do Amazonas estariam pagando valores que poderiam chegar a R$ 150 mil para gerenciar suas atividades criminosas em “home office” a partir de comunidades controladas pela facção no Rio de Janeiro. Essa migração de lideranças buscava maior segurança e distanciamento das forças policiais amazonenses.
Entre os mortos na operação, confirmados pelas autoridades fluminenses e amazonenses, estavam figuras de alta patente do CV no Amazonas, como “Loirinho”, “Chico Rato” e “Gringo”. Esses indivíduos, considerados os “irmãos valorosos” citados no “salve”, possuíam extensas fichas criminais, incluindo participação em homicídios brutais, execuções e comando do tráfico em Manaus. A morte desses líderes representa um golpe significativo na estrutura da facção, sendo o gatilho direto para a reação que agora causa apreensão na capital amazonense.
O eixo Rio-Manaus e as repercussões na segurança
A situação expõe a complexa interligação do crime organizado entre os estados do Amazonas e Rio de Janeiro, consolidando um eixo de tráfico que utiliza Manaus como rota estratégica de escoamento e o Rio como centro de comando e refúgio para lideranças.
O Governador do Amazonas, Wilson Lima, e o Secretário de Segurança Pública se manifestaram publicamente sobre a operação no Rio, exaltando a ação como um “dia ruim para o crime” e um sucesso na desarticulação do grupo que atuava a partir do Sudeste.
Contudo, a resposta da facção, na forma do “salve” que gerou temor em Manaus, demonstra a resiliência e a capacidade de retaliação do grupo, mesmo quando suas lideranças são neutralizadas. Para a população manauara, resta a incerteza, presa entre a demonstração de força do Estado em operações distantes e a ameaça velada de violência em seu cotidiano imediato. As forças de segurança permanecem em alerta máximo, monitorando qualquer escalada real que possa suceder o boato.
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