País repete nota baixa no Índice de Percepção da Corrupção em 2025; relatório cita casos do INSS e Banco Master e alerta para avanço das emendas parlamentares
O ranking global de corrupção manteve o Brasil em sua pior colocação histórica em 2025, segundo o Índice de Percepção da Corrupção (IPC), divulgado nesta terça-feira (10) pela ONG Transparência Internacional. O país obteve 35 pontos, em uma escala de 0 a 100 — na qual pontuações mais altas indicam maior percepção de integridade — e ficou na 107ª posição entre 182 países avaliados.
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A nota é a segunda pior da série histórica brasileira e repete o desempenho do ano anterior. A variação de um ponto em relação a 2024 foi considerada estatisticamente irrelevante, o que, de acordo com a ONG, indica estagnação no enfrentamento da corrupção no setor público.
Brasil abaixo da média global e das Américas
Com 35 pontos, o Brasil permanece abaixo da média global e da média das Américas, ambas de 42 pontos. O resultado mantém o país distante do desempenho de nações que lideram o ranking, como Dinamarca (89), Finlândia (88) e Singapura (84).
O IPC é considerado o principal indicador internacional sobre percepção da corrupção, baseado em avaliações de especialistas, executivos e analistas sobre o setor público em cada país.
Democracias também registram piora na percepção
O relatório chama atenção para uma tendência global de aumento da percepção da corrupção em países democráticos, incluindo economias avançadas. Entre os exemplos citados estão Estados Unidos (64), Canadá (75), Nova Zelândia (81) e países europeus como Reino Unido (70), França (66) e Suécia (80).
Segundo a Transparência Internacional, o fenômeno reflete desafios comuns relacionados à governança, transparência e controle do uso de recursos públicos.
Relatório aponta casos do INSS e Banco Master
Além do índice, a ONG divulgou o relatório “Retrospectiva 2025”, que aponta agravamento da infiltração do crime organizado no Estado brasileiro. O documento cita casos de macrocorrupção, como os esquemas envolvendo o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) e o Banco Master.
De acordo com a organização, as investigações desses casos expuseram falhas estruturais no sistema financeiro e na advocacia, setores considerados estratégicos para a prática e ocultação de ilícitos. O relatório afirma que o caso do Banco Master exemplifica a fragilidade dos mecanismos de controle no sistema financeiro nacional.
O documento também menciona suspeitas sobre contratos de alto valor firmados pelo banco com escritórios de advocacia ligados a autoridades do Supremo Tribunal Federal (STF) e defende apurações independentes. Procurado, o Banco Master informou que não irá se manifestar sobre as menções.
Emendas parlamentares e “captura orçamentária”
Outro ponto de destaque é o crescimento expressivo das emendas parlamentares, que ultrapassaram R$ 60 bilhões no Orçamento de 2026. Segundo a ONG, o volume recorde consolida o controle do Legislativo sobre uma parcela significativa dos recursos públicos, caracterizando um processo de “captura orçamentária” que também se estende a estados e municípios.
Recomendações aos Três Poderes
Diante do desempenho brasileiro no ranking global de corrupção, a Transparência Internacional apresentou recomendações direcionadas aos três Poderes.
Executivo
A ONG defende maior transparência na execução orçamentária, especialmente na distribuição de emendas parlamentares, além do fortalecimento das investigações baseadas em inteligência financeira. Também recomenda critérios técnicos para nomeações em agências regulatórias e o cumprimento de compromissos internacionais anticorrupção.
Judiciário
Para o Judiciário, o relatório propõe a criação de um código de conduta para o Supremo Tribunal Federal, com regras claras sobre impedimentos, conflitos de interesse e transparência de agendas. Recomenda ainda a redistribuição do inquérito do Banco Master, a eliminação de supersalários e maior celeridade nas investigações de casos de macrocorrupção.
Legislativo
Ao Legislativo, a ONG sugere o aperfeiçoamento dos mecanismos de controle das emendas, a regulamentação do lobby e a revisão do Estatuto da Advocacia para incorporar padrões modernos de integridade. O relatório também defende a instalação de uma CPMI do Banco Master e a retomada de projetos voltados ao combate à lavagem de dinheiro e à corrupção privada.
Avanços reconhecidos
Apesar do cenário negativo, a Transparência Internacional reconhece avanços pontuais, como a atuação da Receita Federal e do Ministério Público em operações baseadas em inteligência financeira, entre elas a Operação Carbono Oculto, voltada ao combate à lavagem de dinheiro e à sonegação fiscal.
O relatório também cita como pontos positivos o controle ampliado das emendas parlamentares e a rejeição, no Senado, da chamada “PEC da Blindagem”.
Brasil entre países de desempenho semelhante
No ranking, o Brasil aparece próximo de países como Sri Lanka (35) e Argentina (36). Desde 2015, o país permanece abaixo das médias mundial e regional, sem apresentar melhora consistente.
CGU questiona metodologia do índice
Em nota, a Controladoria-Geral da União (CGU) afirmou que o IPC possui limitações metodológicas, por se basear na percepção de grupos específicos, como executivos e analistas, e não na ocorrência real de corrupção.
Segundo o órgão, variações no ranking podem ocorrer sem mudanças efetivas na atuação do Estado, e o índice não reflete a percepção da população em geral. A CGU também criticou a divulgação simultânea do IPC e da Retrospectiva 2025, alegando que isso pode induzir o público a associar a nota do índice a fatos ocorridos após o período de coleta das pesquisas.
O órgão citou o caso do INSS como exemplo de que o aumento das investigações reflete maior capacidade de enfrentamento, destacando que o próprio governo identificou o esquema, promoveu investigações, realizou prisões e iniciou o ressarcimento de aposentados, que já se aproxima de R$ 3 bilhões.
A CGU concluiu que mais transparência e mais investigações não significam mais corrupção, mas sim maior eficiência do Estado no combate às irregularidades.
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