Estudo aponta avanço no uso de armamento pesado e revela múltiplas rotas de abastecimento de facções
As armas de guerra estão cada vez mais presentes no arsenal do crime organizado no Brasil, conforme revela um estudo inédito do Instituto Sou da Paz. A pesquisa analisou cerca de 7 mil armas apreendidas entre 2019 e 2023 nos estados do Sudeste e demonstra que fuzis, submetralhadoras e metralhadoras de alto poder de fogo vêm sendo obtidos por facções nacionais a partir de diferentes origens, incluindo Estados Unidos, Alemanha e Bélgica.
Uso crescente de armas de guerra impulsiona avanço das facções
De acordo com o levantamento, o Brasil é hoje o país da América Latina com maior parcela da população vivendo sob influência direta de grupos criminosos. Para manter esse domínio territorial, as facções têm recorrido de forma crescente às armas de guerra, que ampliam sua capacidade ofensiva e tornam suas ações mais sofisticadas.

Embora representem cerca de 3 por cento das apreensões no país, essas armas de alto impacto alteram significativamente o nível de violência das operações criminosas. Natália Pollachi, diretora de projetos do Sou da Paz, explica que a presença de um fuzil ou submetralhadora muda completamente a dinâmica criminal, permitindo ataques a carros-fortes, ações contra bancos e resgates em unidades prisionais.
O Rio de Janeiro segue como o estado com maior número de apreensões de armamento pesado, seguido por Espírito Santo, Minas Gerais e São Paulo. O Espírito Santo apresentou o maior salto proporcional, com aumento de 467 por cento no período analisado.
Rotas incluem desvio militar, peças importadas e fabricação clandestina
A pesquisa identificou que as armas de guerra chegam às mãos do crime por fontes diversas. Metralhadoras de grande calibre, por exemplo, têm como principal origem o desvio das Forças Armadas brasileiras, já que sua comercialização para civis é proibida. Um dos casos mais emblemáticos foi o desaparecimento de 21 metralhadoras do Arsenal de Guerra de Barueri, em São Paulo, em 2023.
Submetralhadoras artesanais também têm ganhado espaço, resultado de pequenas fábricas clandestinas que produzem armas sem qualquer registro. Além disso, cresce a circulação de fuzis falsificados ou montados a partir de peças de fabricantes diferentes, fenômeno conhecido como ghost rifles.
O estudo também aponta que a flexibilização das regras para CACs durante o governo Jair Bolsonaro facilitou o desvio de armamento para facções. Segundo o consultor Bruno Langeani, muitos fuzis comprados legalmente foram repassados rapidamente ao crime organizado.
Armas estrangeiras reforçam o arsenal de facções brasileiras
Apesar de fabricantes nacionais liderarem parte das apreensões, cresce a presença de armas de guerra produzidas no exterior. Os Estados Unidos aparecem como forte fornecedor de componentes usados na montagem de fuzis, enquanto países europeus e asiáticos também aparecem com frequência nos registros.

Entre os fuzis calibre 5.56x45mm, Colt (EUA), Imbel e Taurus (Brasil) são as marcas mais encontradas.
No calibre 7.62x51mm, os modelos FAL de origem belga, fabricados pela FN Herstal e licenciados para produção no Brasil e Argentina, são predominantes.
Já no calibre 7.62x39mm, aparecem marcas como Zastava (Sérvia), Romarm (Romênia), Norinco (China) e Century Arms (EUA).
As metralhadoras apreendidas são majoritariamente das fabricantes Browning (EUA) e FN Herstal (Bélgica). A Alemanha também se destaca, especialmente pela marca Heckler & Koch, frequentemente associada a crimes de alta repercussão.
Falta de dados e erros de classificação prejudicam a análise nacional
Os pesquisadores apontam falta de transparência na divulgação de dados públicos, o que limita a compreensão do cenário nacional de armas de guerra. Informações que antes eram disponibilizadas pela Polícia Federal e por governos estaduais tornaram-se restritas a partir de 2024.
Além disso, erros no registro das armas apreendidas dificultam o diagnóstico. Há casos de fuzis registrados como carabinas, submetralhadoras como metralhadoras e marcas grafadas de forma incorreta, gerando inconsistências importantes.
Especialistas defendem prioridade no combate ao tráfico de armas
Para especialistas, o combate ao tráfico de armas de guerra deveria ser prioridade nacional. A criação de delegacias especializadas, bancos unificados de dados e maior atenção às rotas de entrada são medidas consideradas urgentes.
O estudo reforça que poucos armamentos são suficientes para alterar completamente o equilíbrio de poder em comunidades dominadas por facções. O assassinato do ex-delegado Ruy Ferraz Fontes no litoral paulista, executado com fuzis calibres 556 e 762, ilustra o nível de sofisticação e letalidade dessas armas em circulação.
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