Enquanto o Rio Negro sobe lentamente em Manaus, cidades do interior enfrentam descida das águas fora de época, isolando comunidades e dificultando o transporte.
Trechos do Rio Solimões estão registrando uma queda acentuada no nível das águas, configurando uma seca fora de época. O fenômeno ocorre justamente quando a região deveria estar vivendo o auge da subida dos rios, o que tem prejudicado a navegação e o abastecimento no interior do Amazonas. Dados recentes da Praticagem dos Rios Ocidentais da Amazônia (Proa Manaus) confirmam o recuo, que contrasta com o cenário na capital.
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Historicamente, o ciclo de cheia na região ocorre entre dezembro e junho, impulsionado pelo aumento das chuvas nas cabeceiras. No entanto, dados recentes monitorados pela Praticagem dos Rios Ocidentais da Amazônia (Proa Manaus) revelam que o Rio Solimões apresenta recuo significativo, dificultando a atracação de navios e o abastecimento de cidades estratégicas.
Impactos da descida do Rio Solimões na navegação e transporte
A redução no volume de água transformou a paisagem e a rotina em municípios como Tabatinga, distante 1.100 km de Manaus. Na cidade, que é porta de entrada pelo oeste do Amazonas, grandes embarcações não conseguem mais atracar no porto oficial. Os navios são obrigados a ancorar em locais distantes onde ainda há profundidade suficiente, obrigando passageiros e cargas a utilizarem pontes improvisadas ou percorrerem longos trajetos.
O professor Izaque Silva relata a dificuldade logística imposta pela seca do Rio Solimões: “Para o viajante, para comprar o cimento, alguma coisa para carregar no porto, ficou longe”.
A situação gera riscos adicionais para a segurança da navegação. Ariosto Salvador Ramirez, presidente da Associação dos Taxistas Fluviais de Tabatinga, alerta para a necessidade de atenção redobrada: “Se você não ficar muito atento às balsas, os flutuantes podem ficar em terra”.
Em Coari, a 360 km da capital, o cenário se repete. A área portuária secou, comprometendo o acesso ao cais. “Está secando aqui para baixo do cais, bem perto da boia”, descreve o ajudante Daniel Silva, evidenciando como a retração do rio afeta diretamente o trabalho local.
Dados confirmam recuo das águas no interior
O monitoramento hidrológico confirma que a descida do Rio Solimões não é uma percepção isolada, mas um padrão que se estende por diferentes pontos da calha. Os números apurados até o dia 30 de janeiro mostram reduções expressivas em comparação ao final de dezembro, período em que as águas já deveriam estar subindo consistentemente:
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Tabatinga (Alto Solimões): O nível caiu de 8,44 metros em 21 de dezembro para 7,40 metros.
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Santo Antônio do Içá: O rio recuou de 10,44 metros para 9,08 metros.
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Coari (Médio Solimões): Houve redução de 13,38 metros para 13,25 metros.
Esse comportamento atípico do Rio Solimões é atribuído, segundo especialistas, a uma combinação de fatores climáticos extremos. As secas históricas de 2023 e 2024 afetaram a recarga natural dos sistemas hídricos, deixando os rios com menor resiliência. Além disso, temperaturas acima da média e baixa umidade têm prejudicado a formação de chuvas.
Especialistas analisam o fenômeno e o contraste com Manaus
Enquanto o interior sofre com a descida das águas, a capital amazonense vive uma realidade distinta, embora também fora do padrão ideal. Em Manaus, o Rio Negro segue subindo, passando de 21,66 metros em dezembro para 21,98 metros no final de janeiro. Contudo, a velocidade de subida é lenta: cerca de 1 centímetro por dia, quando o normal para a época seria uma elevação diária de aproximadamente 10 centímetros.
Jussara Cury, superintendente regional do Serviço Geológico do Brasil (SGB), explica que o déficit pluviométrico é o principal responsável pela situação crítica no Rio Solimões.
“O acumulado indica chuvas muito abaixo do normal em dezembro, o que manteve a recessão no Alto Solimões, que agora já ocorre também no Médio Solimões”, detalha Cury.
A influência do fenômeno La Niña, que altera os padrões de precipitação, soma-se ao cenário, provocando comportamentos distintos entre as bacias hidrográficas. A expectativa é que a chegada de novas frentes de chuva nos próximos dias possa reverter a tendência de queda e normalizar o transporte fluvial para quem depende vitalmente dos rios da Amazônia.
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