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Por que o Rio Grande do Sul é um dos únicos estados sem atuação do CV?

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Mesmo com presença consolidada em quase todo o Brasil, o Comando Vermelho (CV) não conseguiu se estabelecer no Rio Grande do Sul, em São Paulo e no Distrito Federal, segundo dados da Secretaria Nacional de Políticas Penais (Senappen). Criada no Rio de Janeiro, a facção domina presídios e rotas de tráfico em 24 estados, mas permanece sem base ativa no território gaúcho.

De acordo com especialistas ouvidos pelo g1, o principal motivo está na formação de grupos criminosos locais já consolidados e em uma identidade cultural forte, que dificultaram a entrada da organização carioca.

“Ecossistema criminal próprio” no RS

O sociólogo Rodrigo Ghiringhelli de Azevedo, professor da PUCRS e membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, explica que o estado desenvolveu um “ecossistema criminal próprio”, com facções locais atuando desde os anos 1990.

“Esses grupos se organizaram antes da expansão nacional do Comando Vermelho e acabaram ocupando o espaço de poder criminal de forma autônoma”, afirmou Azevedo.

O Presídio Central de Porto Alegre, considerado um dos mais superlotados do país, foi um dos principais redutos onde essas organizações se fortaleceram.

Facções locais e domínio territorial

O juiz Sidinei Brzuska, da Vara de Execuções Criminais de Porto Alegre, afirma que o domínio das facções gaúchas se expandiu do sistema prisional para o interior do estado.

“Praticamente todas as prisões mais relevantes são dominadas. Pararam de disputar pontos de tráfico aqui [em Porto Alegre] e foram dominar cidades que ainda não tinham crime organizado. Não ficou vácuo de poder para gente de fora vir aqui ocupar”, explica o magistrado.

O Fórum Brasileiro de Segurança Pública aponta que o Rio Grande do Sul já chegou a ter ao menos dez facções ativas, o maior número entre todos os estados brasileiros. Essa multiplicidade de grupos, segundo Azevedo, “cria um campo competitivo que torna difícil a hegemonia de uma organização nacional”.

Identidade cultural como barreira

O jornalista Renato Dornelles, autor do documentário Central – O poder das facções no maior presídio do Brasil, acrescenta outro fator: a forte identidade cultural gaúcha.

“A dificuldade do CV em entrar no sistema penitenciário gaúcho tem muito disso. É uma espécie de pacto informal das facções daqui, para nenhuma ceder espaço para facção de fora. Também é uma questão cultural”, afirma.

Brzuska reforça: “Nós somos um estado de forte tradição cultural, que se consolidou ao longo de séculos, e isso se reflete na organização do crime também”.

Negócios, não subordinação

Mesmo sem presença direta, há relações comerciais pontuais entre grupos locais e o Comando Vermelho, principalmente no fornecimento de drogas.

O diretor do Instituto Cidade Segura, Alberto Kopittke, explica que “embora não haja bandeira fincada do CV no Rio Grande do Sul, isso não impede alianças com as organizações locais”. Ele cita o aumento da violência em 2016 e 2017, período de conflito entre o CV e o PCC, como reflexo dessa relação.

Azevedo ressalta, porém, que essas conexões “têm viés comercial e não de subordinação organizacional”, mantendo os grupos gaúchos independentes das facções nacionais.

Interiorização do crime no RS

Enquanto o Comando Vermelho busca expansão interestadual, as facções gaúchas apostam na interiorização.
“Elas se consolidam em cidades médias e regiões próximas à capital, aproveitando o crescimento do consumo e as rotas de ligação com outros estados”, explica Azevedo.

Dornelles lembra que houve tentativas de grupos do RS de expandir para Santa Catarina, mas a presença do PCC e de facções catarinenses impediu esse avanço.

O que diz o governo do RS

A Secretaria da Segurança Pública do Rio Grande do Sul (SSP-RS) atribui a ausência de facções nacionais no estado a fatores culturais, geográficos e à atuação policial.

“O Rio Grande do Sul é um estado notabilizado por características socioculturais muito peculiares. Igualmente, está distante do centro do país e de suas principais rotas logísticas […] Esses fatores se somam à ação vigilante e contundente dos órgãos de segurança pública gaúchos”, informou a pasta.

*Com informações do G1

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