A busca por respostas e tratamentos para o Transtorno do Espectro Autista (TEA) transformou o Brasil em um terreno fértil para um mercado ilícito, perigoso e altamente lucrativo. Apoiados na arquitetura permissiva das redes sociais e migrando para a obscuridade de aplicativos de mensagens, grupos criminosos lucram com a vulnerabilidade de famílias ao vender substâncias corrosivas industriais como se fossem remédios milagrosos. A promessa de uma falsa cura do autismo tem levado crianças e adultos a graves intoxicações, desafiando as autoridades sanitárias e policiais do país.
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Investigações recentes e colaborativas, que envolveram veículos de imprensa de toda a América Latina e institutos de pesquisa, expuseram uma rede transnacional que opera nas franjas da internet. O foco central desta fraude é a comercialização do dióxido de cloro, conhecido pelas siglas MMS ou CDS, vendido como uma solução capaz de reverter uma condição de neurodesenvolvimento que, segundo o consenso científico global, não possui cura.
A epidemia de desinformação e o lucro sobre a esperança
O cenário brasileiro destaca-se negativamente no contexto regional. Dados alarmantes do Laboratório de Estudos sobre Desordem Informacional e Políticas Públicas da Fundação Getúlio Vargas (FGV), em parceria com a associação Autistas Brasil, revelam que o país lidera a produção de conteúdo conspiratório sobre o tema na América Latina. O Brasil é responsável por quase metade de todo o volume detectado na região.
Mais preocupante ainda é o crescimento exponencial desta desinformação. Houve um aumento de 15.000% na circulação de mensagens falsas promovendo alguma falsa cura do autismo entre os anos de 2019 e 2024. O estudo, que analisou milhões de mensagens no Telegram, aponta que a falta de moderação nestas plataformas permite que influenciadores e supostos terapeutas capturem pais em momentos de fragilidade emocional.
O processo de recrutamento, descrito por pesquisadores como “polinização de links”, atrai usuários de grupos gerais sobre saúde ou direitos para comunidades radicalizadas. Nestes ambientes fechados, vende-se a ideia de que o autismo é causado por parasitas ou vacinas, narrativas que sustentam a venda de cursos, mentorias e kits de produtos químicos tóxicos.
Alvejante industrial vendido como medicamento
Para compreender o risco real à vida, é necessário analisar a natureza do produto vendido. O dióxido de cloro, com potente ação oxidante, utilizado legitimamente apenas em processos industriais. Suas aplicações regulamentadas incluem o branqueamento de papel e celulose, tratamento de águas residuais e desinfecção hospitalar de superfícies.

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) classifica o dióxido de cloro estritamente como um saneante. Não existe, no Brasil ou em qualquer agência regulatória séria do mundo, aprovação para o uso desta substância como fármaco para ingestão humana.
Ao ser ingerido ou administrado via enemas, prática comum nestes grupos, o dióxido de cloro reage imediatamente com a matéria orgânica do corpo humano. Diferente do que prometem os vendedores da falsa cura do autismo, a substância não possui inteligência seletiva. Ela causa queimaduras químicas severas no esôfago, estômago e intestino, levando a vômitos, diarreia profusa e dores abdominais intensas.
A absorção sistêmica do produto pode levar a quadros gravíssimos, como a metemoglobinemia, onde o sangue perde a capacidade de transportar oxigênio, causando falência de múltiplos órgãos e risco de morte.
A cruel ilusão dos parasitas
Um dos aspectos mais macabros dessa fraude é a ressignificação dos danos físicos como prova de eficácia. Os promotores do MMS disseminam a teoria infundada de que o autismo é causado por vermes. Quando a criança é submetida aos enemas de dióxido de cloro, a substância destrói a camada superficial da mucosa intestinal.
O corpo, na tentativa de se proteger, produz muco e expele o tecido necrosado em longos filamentos. De forma fraudulenta, os criminosos convencem os pais de que esses pedaços do próprio intestino da criança são “vermes de corda” saindo do corpo. Cientificamente, esses vermes não existem. O que os pais veem é a prova física da lesão interna causada pelo envenenamento contínuo.
Resposta policial e consequências jurídicas
O Estado brasileiro tem reagido à comercialização dessa falsa cura do autismo, atuando nas esferas administrativa e criminal. A venda de dióxido de cloro como medicamento não é apenas uma infração sanitária, é considerada crime hediondo pelo Código Penal Brasileiro.
O artigo 273 do Código Penal, que trata da falsificação, corrupção ou adulteração de produto destinado a fins terapêuticos, prevê pena de 10 a 15 anos de reclusão. Esta é uma das punições mais severas da legislação, equiparada ou superior a crimes como tráfico de drogas e homicídio simples. Além disso, os envolvidos podem responder por charlatanismo, curandeirismo e estelionato.
Em 2024, a Secretaria Nacional do Consumidor realizou ofensivas contra plataformas de comércio eletrônico para derrubar anúncios destes produtos. Paralelamente, a Advocacia-Geral da União (AGU) obteve vitórias importantes ao notificar o Telegram, forçando a remoção de dezenas de comunidades que comercializavam o produto, sob pena de multas pesadas.
O consenso científico e o caminho seguro
É fundamental reforçar, sob a ótica da ciência, que o Transtorno do Espectro Autista não é uma doença, mas uma condição do neurodesenvolvimento de origem majoritariamente genética. A arquitetura cerebral da pessoa autista processa informações de maneira diferente, e não existe um agente externo, como um parasita ou metal pesado, que possa ser removido para “reverter” essa condição.
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A busca por uma falsa cura do autismo afasta as famílias dos tratamentos baseados em evidências, que visam o desenvolvimento de habilidades e a autonomia, não a cura de uma doença inexistente. Terapias comportamentais, como a Análise do Comportamento Aplicada (ABA), Fonoaudiologia e Terapia Ocupacional, são os caminhos recomendados pela comunidade médica mundial para garantir qualidade de vida.
Submeter uma criança a tratamentos com substâncias corrosivas viola direitos humanos fundamentais e a integridade física, caracterizando maus-tratos. O combate a essa indústria da desinformação exige não apenas a repressão policial, mas o fortalecimento do acesso a terapias reais no sistema de saúde e a conscientização da sociedade de que o autismo não precisa ser curado, mas compreendido e respeitado.
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