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Presidentes do Brasil acumulam trajetória de homenagens e sátiras no Carnaval

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A relação entre o Poder Executivo e as escolas de samba é um dos capítulos mais fascinantes da cultura nacional. Ao longo das décadas, as figuras dos presidentes da República deixaram de ser apenas uma autoridade institucional para se tornar enredo, alegoria e, muitas vezes, alvo de críticas sociais contundentes. De Getúlio Vargas a Luiz Inácio Lula da Silva, a passarela do samba serviu como um termômetro das tensões e paixões políticas do país, transformando chefes de Estado em símbolos de projetos nacionais ou em caricaturas de momentos de crise.

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A tradição de levar um governante para a avenida começou com a Mangueira, em 1956, ao exaltar Getúlio Vargas pouco tempo após sua morte. Naquele momento, o samba celebrou o nacionalismo e a industrialização, consolidando a imagem de Vargas como o pai dos pobres. Essa tendência laudatória foi mantida em outros momentos históricos, como na homenagem da Portela no ano 2000, que conectou a Era Vargas à construção do Estado moderno e aos 500 anos do Brasil, reforçando o papel das escolas de samba como narradoras da história oficial sob a ótica popular.

Do desenvolvimentismo de JK às críticas do Plano Collor

Juscelino Kubitschek também teve sua trajetória imortalizada no asfalto. Em 1981, a Mangueira percorreu a vida de JK, desde sua infância até a construção de Brasília, destacando o otimismo dos anos dourados e o discurso de progresso acelerado. No entanto, o tom das agremiações mudou conforme o Brasil avançava para a redemocratização e enfrentava instabilidades econômicas. Em 1991, a São Clemente utilizou a sátira para criticar o governo de Fernando Collor, associando a gestão ao polêmico confisco da poupança, provando que o Carnaval também possui um papel fiscalizador e irônico.

2018 – Paraíso do Tuiuti: “Meu Deus, meu Deus, está extinta a escravidão?”. Reprodução: TV Globo

A história recente mostra que as críticas tornaram-se mais ácidas e conceituais. Em 2018, a Paraíso do Tuiuti protagonizou um dos momentos mais comentados da história da Sapucaí ao representar Michel Temer como um vampiro neoliberalista. A alegoria serviu como protesto contra as reformas trabalhista e previdenciária, marcando uma fase em que o samba passou a questionar diretamente a manutenção de privilégios e a precarização do trabalho. Jair Bolsonaro também foi alvo de críticas semelhantes, como no desfile da Rosas de Ouro em 2022, que utilizou o humor para questionar a postura do governo durante a crise sanitária global.

2020 – Acadêmicos de Vigário Geral (RJ): “O conto do vigário”. Foto: Reprodução/Twitter Reimont

Lula e o ineditismo de 2026 na avenida

Entre todos os mandatários, Luiz Inácio Lula da Silva é o que detém o recorde de aparições como tema central. Desde 2003, quando a Beija-Flor associou sua posse ao combate à fome, até os desfiles biográficos de escolas como Gaviões da Fiel e Acadêmicos de Niterói, a trajetória do operário que chegou ao Planalto é um tema recorrente. O diferencial de 2026 reside no fato de Lula ser o único presidente a ter sua vida contada em enredos centrais enquanto exerce o mandato, coincidindo com o calendário eleitoral em curso, o que gera intensos debates sobre a influência do Carnaval na opinião pública.

A presença de Dilma Rousseff também foi registrada em tom de celebração à liderança feminina, evidenciando que as agremiações buscam representar as conquistas institucionais de cada período. Observar essa evolução é entender que o Carnaval é muito mais que uma festa; é um espaço de disputa de narrativa onde os presidentes são moldados pela visão do povo. Seja através do luxo das exaltações ou do escracho das críticas, a avenida continua sendo o palco onde o Brasil se encontra com seus governantes para celebrar, refletir ou protestar através do samba.

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