Julie Inman Grant, diretora da Comissão de Segurança Eletrônica da Austrália, vive em uma trincheira onde a diplomacia dá lugar a ameaças de morte e ataques coordenados. Aos 57 anos, ela se tornou a face pública de um experimento que o mundo inteiro observa com lupa: a proibição do acesso de menores de 16 anos às redes sociais. Com uma carreira construída dentro de gigantes como Microsoft e Twitter (atual X), Inman Grant utiliza seu conhecimento dos “mecanismos internos” do Vale do Silício para chamar à responsabilidade as empresas que hoje priorizam o engajamento em detrimento da segurança infantil.
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O cargo a transformou na burocrata mais famosa (e visada) da Austrália. Seus dados pessoais foram expostos por grupos extremistas e ela protagonizou embates ferozes com Elon Musk, que a apelidou publicamente de “comissária da censura”. Esses ataques atingiram um ápice em 2024, quando ela exigiu que o X removesse o vídeo de um ataque a faca em uma missa em Sydney, alegando que tal conteúdo radicaliza e dessensibiliza os jovens. A resistência de Musk gerou uma onda de mais de 70 mil menções abusivas em um único dia, provando que o mundo digital pode ser, em suas palavras, um “poço sombrio”.
A analogia do mar e a falha de projeto das Big Techs
Inman Grant utiliza uma analogia poderosa para explicar sua missão aos australianos: o oceano. Ela argumenta que, embora não se cerque o mar para evitar afogamentos, ensinamos as crianças a nadar e criamos perímetros protegidos. No entanto, ela ressalta que as redes sociais não foram projetadas com esses perímetros. Ao contrário das praias protegidas, o ambiente digital é repleto de “tubarões online”, como pedófilos e algoritmos que exploram vulnerabilidades psicológicas. Sua meta é retardar a entrada dos jovens nesse ambiente por pelo menos três anos, permitindo que desenvolvam resiliência e raciocínio crítico.
“Se pudermos retardar a entrada das crianças nas redes sociais por três anos e complementar a medida com planos de ação digitais para desenvolver seu raciocínio crítico e resiliência, acredito que seja algo que valha a pena explorar.”
A comissária não nega que sua própria casa serve de laboratório. Mãe de três filhos, ela observa diariamente como a identidade adolescente é moldada (e muitas vezes distorcida) pela amplificação das redes. Ela defende que sua geração teve o privilégio de cometer erros sem que eles fossem gravados permanentemente, um direito que a juventude atual perdeu. Por isso, seu papel é garantir que o Estado de direito se aplique com o mesmo vigor no mundo digital, forçando as plataformas a integrarem a segurança desde o design inicial do produto.
A próxima fronteira: a regulamentação da Inteligência Artificial
Enquanto luta para implementar a proibição nas redes sociais, enfrentando inclusive processos judiciais do Reddit e de adolescentes ativistas, Inman Grant já mira o próximo grande risco: a Inteligência Artificial. Para ela, o mundo “se incorporou tardiamente” à regulamentação das redes e não pode cometer o mesmo erro com a IA. Ela vê nos chatbots e nos geradores de imagem ameaças ainda mais sofisticadas à integridade física e mental dos menores, exigindo que governos e empresas ajam de forma preventiva e não apenas reativa.
Mesmo com o fim de seu mandato previsto para 2027, Julie não pretende recuar. Sua valentia é reconhecida por ex-primeiros-ministros e especialistas, que veem nela a determinação necessária para enfrentar um setor implacável e movido por lucros. Inman Grant deixa claro que o privilégio de sua função é pavimentar um caminho mais seguro para as próximas gerações, garantindo que a tecnologia sirva à humanidade, e não o contrário. Sua trajetória é um lembrete de que a segurança online não é uma questão de censura, mas de proteção fundamental aos mais vulneráveis.
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