A ordem mundial estabelecida após 1945 atravessa seu momento de maior vulnerabilidade em oito décadas. O sistema de cooperação internacional, arquitetado para evitar a repetição dos horrores da Segunda Guerra Mundial, enfrenta hoje uma erosão acelerada por ideias extremistas e pelo ceticismo institucional. Se o projeto original buscava a previsibilidade e a integração econômica como antídotos ao conflito, o cenário pós-pandemia revela um retorno a modelos que priorizam o isolacionismo e o autoritarismo.
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A reconstrução do globo no pós-guerra não foi uma tarefa simples. Diplomatas daquela era lidavam com um rastro de 80 milhões de mortos e o colapso total da economia. Entre 1913 e 1938, o comércio global havia despencado de 17% para apenas 6% do PIB mundial, sufocado por tarifas protecionistas como a Lei Smoot-Hawley nos Estados Unidos. A resposta de 1945 foi revolucionária. Criaram-se instituições multilaterais para arbitrar disputas e apostou-se na interdependência econômica para tornar a guerra um caminho irracional.
O legado de progresso das instituições multilaterais
Os resultados desse arranjo superaram as previsões mais otimistas. Nas sete décadas seguintes, a riqueza global quintuplicou e a expectativa de vida saltou de 46 para 73 anos. O avanço social foi igualmente expressivo. Em 1950, um em cada quatro recém-nascidos morria antes dos 15 anos; hoje, essa proporção é de um para 25. A alfabetização mundial subiu de 36% para 87%, enquanto o acesso a saneamento e eletricidade expandiu-se de forma sem precedentes.
No campo econômico, a redução de quase 90% nas tarifas industriais permitiu que o comércio passasse de 10% para 56% do PIB global. Essas cadeias produtivas entrelaçadas garantiram um período de paz inédito entre grandes potências industriais. Para efeitos de comparação, entre os anos 1500 e 1945, a Europa registrou mais de 200 conflitos significativos. A estabilidade da atual ordem mundial transformou a guerra, antes uma regra histórica dispendiosa, em uma exceção raramente vista nas dimensões do passado.
O declínio democrático e a ascensão de regimes autoritários
Apesar das conquistas, o período pós-pandemia sinaliza uma reversão preocupante. Dados do relatório Varieties of Democracy indicam que a saúde das democracias globais retrocedeu a patamares de 1985. Regiões como a Europa Oriental, Ásia Central e América Latina retornaram a níveis observados no fim da Guerra Fria. Em 2016, o mundo contava com 96 democracias; hoje, esse número caiu para 91.
O endurecimento político é visível em diversos índices internacionais. A Freedom House aponta que o número de países classificados como não livres subiu de 50 para 56 em menos de uma década. Já o Índice de Liberdade Humana, do Fraser Institute, revela que 94% da população global experimentou perdas em suas liberdades individuais recentemente. Pela primeira vez em 20 anos, o Bertelsmann Transformation Index registrou mais ditaduras do que democracias no planeta, evidenciando uma crise de governança que afeta mais de 5,2 bilhões de pessoas.
Riscos da fragmentação econômica e novos conflitos
A instabilidade não se restringe ao campo político. A paz global está sob pressão com o maior conflito em solo europeu desde 1945. Em 2024, o Uppsala Conflict Data Program listou 61 conflitos estatais ativos, um recorde histórico desde o fim da Grande Guerra. Paralelamente, a integração econômica sofre ataques sistemáticos. Somente nos primeiros meses de 2025, foram registradas mais de 2.500 restrições comerciais, uma média de oito novas barreiras por dia.
Este movimento de fragmentação sugere uma espécie de amnésia coletiva sobre os motivos que levaram à criação das normas internacionais. O risco atual não é apenas o fim de um modelo imperfeito, mas o retorno a uma dinâmica pré-1945. Contudo, o cenário contemporâneo apresenta perigos adicionais, como armamentos significativamente mais destrutivos e uma complexidade tecnológica que torna qualquer ruptura sistêmica muito mais traumática do que no século passado.
A desvalorização das instituições que sustentaram o progresso nas últimas décadas reflete uma dificuldade cognitiva de avaliar o presente por meio do contraste histórico. Sem a compreensão de que o colapso institucional precede períodos de caos, a sociedade global caminha para um laboratório de incertezas onde a cooperação cede lugar ao confronto.
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