O planeta Terra atingiu um ponto crítico em sua gestão de recursos naturais e entrou oficialmente em um estado de falência hídrica global. De acordo com um relatório detalhado emitido pela Universidade das Nações Unidas (UNU) e divulgado recentemente, o uso da água a longo prazo em diversas regiões do mundo já ultrapassou as entradas renováveis e os limites considerados seguros para o consumo humano e industrial.
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Essa nova realidade indica que a humanidade está consumindo seu capital hídrico de forma predatória, em vez de viver apenas do rendimento anual gerado pelo ciclo da água. O estudo, conduzido pelo Instituto de Água, Meio Ambiente e Saúde da UNU (UNU-INWEH), destaca que muitas bacias hidrográficas e aquíferos essenciais já operam no “vermelho”, sem perspectivas de recuperação total no curto ou médio prazo.
O esgotamento crônico dos sistemas naturais
O conceito de falência hídrica utilizado pelos pesquisadores traça um paralelo direto com o sistema financeiro. Muitas sociedades não estão apenas gastando o que recebem anualmente através de chuvas e degelos, mas estão exaurindo as reservas estratégicas acumuladas durante milênios em aquíferos, solos e geleiras.
Kaveh Madani, diretor do UNU-INWEH e autor principal do relatório, afirma que o mundo vive uma “verdade incômoda”. Segundo o especialista, sistemas de água vitais para a sobrevivência humana já estão falidos devido a uma combinação de fatores estruturais. O esgotamento crônico das águas subterrâneas, a poluição em larga escala, o desmatamento e a degradação do solo são os principais vilões desse cenário, todos severamente agravados pelos efeitos do aquecimento global.
A pesquisa revela um dado alarmante sobre a infraestrutura natural do planeta. Zonas úmidas foram eliminadas em escala continental, o que compromete a capacidade da Terra de filtrar e armazenar água de forma natural. Esse dano ao capital natural exclui a possibilidade de uma restauração plena, forçando a humanidade a lidar com recursos cada vez mais escassos.
Riscos da falência hídrica para a agricultura e alimentação
A crise hídrica atinge diretamente o prato da população global. Atualmente, a agricultura é responsável por aproximadamente 70% de todas as retiradas de água doce no mundo. A dependência excessiva das reservas subterrâneas é um dos pontos mais sensíveis da pesquisa. Atualmente, a água dos aquíferos sustenta 50% do uso doméstico e mais de 40% de toda a irrigação agrícola.
O relatório aponta que 70% dos principais aquíferos do planeta apresentam tendências de declínio contínuo. Essa extração desenfreada já causou a subsidência do solo (o afundamento da terra) em uma área de mais de 6 milhões de quilômetros quadrados, o que equivale a quase 5% da superfície terrestre global. Sem uma transição urgente para métodos de agricultura inteligente, o risco de colapso na produção de alimentos é iminente.
Mais da metade da produção mundial de alimentos está situada em áreas onde o armazenamento total de água está em declínio ou apresenta instabilidade crônica. Isso coloca cerca de 3 bilhões de pessoas em uma posição de vulnerabilidade direta, dependendo de fontes de água que podem simplesmente desaparecer nas próximas décadas.
Uma adaptação baseada na ciência e na realidade
O estudo da ONU é, acima de tudo, um convite à transparência e à ação política fundamentada. O órgão instiga os líderes mundiais a promoverem uma adaptação honesta à nova realidade climática e hidrológica. A era da abundância hídrica, em muitas regiões, faz parte do passado, e a gestão atual exige um rigor técnico sem precedentes.
Os dados mostram que quase três quartos da população mundial vivem em países classificados como inseguros ou criticamente inseguros em relação à água. A insegurança hídrica não é mais um problema restrito a áreas áridas, mas um desafio global que exige a proteção do que resta do capital natural e uma revisão drástica nas políticas de alocação de recursos.
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