A investigação da Polícia Civil do Amazonas sobre o Caso Benício revelou um novo e grave desdobramento. Segundo o delegado Marcelo Martins, titular do 24º Distrito Integrado de Polícia (DIP), a médica Juliana Brasil teria encomendado e pago pela adulteração de um vídeo com o objetivo de justificar o erro na prescrição de adrenalina que levou à morte de Benício Xavier, de apenas 6 anos. O crime ocorreu em Manaus, no dia 23 de novembro, após a criança receber a medicação por via intravenosa, procedimento considerado inadequado para o seu quadro clínico.
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De acordo com o inquérito policial, o vídeo apresentado pela defesa da médica buscava sustentar a tese de que uma falha no sistema digital do Hospital Santa Júlia teria alterado automaticamente a via de administração do fármaco. No entanto, a perícia técnica e a extração de dados do aparelho celular da investigada desmentiram essa versão. As mensagens revelam que Juliana articulou a produção de uma prova forjada para induzir o Poder Judiciário ao erro.
Detalhes da fraude processual e mensagens extraídas
As provas obtidas pela Rede Amazônica mostram que, três dias após o falecimento do menino, a médica iniciou contatos com colegas de profissão e enfermeiros. O objetivo era montar um material audiovisual que simulasse instabilidades no software hospitalar. Nas mensagens extraídas, Juliana demonstrava ansiedade em encontrar alguém capaz de realizar a edição das imagens de forma convincente.
Em um dos trechos das conversas analisadas pela polícia, a médica expressa a dificuldade em encontrar colaboradores para a ação.
“Precisava só que a pessoa fizesse o vídeo e cortasse, me ajudaria muito”, diz Juliana. Em outro momento, ela demonstra o isolamento diante da situação crítica. “Não consigo pensar em ninguém que nesse fogo fosse capaz de fazer algo para me ajudar”, completa a médica.
Apesar da alegada dificuldade inicial, os áudios posteriores confirmam que ela teria conseguido o material, chegando a afirmar que o vídeo chegaria até ela já alterado.
Indiferença e venda de cosméticos durante o atendimento
Além da questão da prova fraudada, um fato que consta nos autos do processo é a conduta da médica durante os momentos críticos do atendimento na Sala Vermelha. Enquanto o menino sofria múltiplas paradas cardíacas em decorrência da overdose de adrenalina, os registros telefônicos indicam que Juliana Brasil negociava a venda de produtos de beleza por aplicativos de mensagem.
Essa postura foi classificada pela autoridade policial como um elemento de prova de indiferença com a vida da vítima no Caso Benício. O comportamento, aliado ao erro técnico na dosagem e na via de aplicação, fundamenta a suspeita de homicídio qualificado doloso. A análise dos investigadores sugere que a atenção da profissional estava dividida entre o comércio particular e o socorro ao paciente, o que comprometeu a segurança do procedimento médico.
O erro técnico e o protocolo do Hospital Santa Júlia
O foco central da tragédia reside na administração de adrenalina diretamente na veia da criança. Especialistas e o próprio delegado destacam que o protocolo médico para o quadro apresentado exigia uma via e dosagem diferentes. Em depoimento anterior, a própria médica chegou a admitir o erro na prescrição, mas tentou transferir parte da responsabilidade à equipe de enfermagem, alegando surpresa por não ter sido questionada sobre a ordem médica.
Por outro lado, a técnica de enfermagem Raiza Bentes afirmou que apenas seguiu estritamente o que foi determinado no prontuário. Ambas as profissionais foram afastadas de suas funções por determinação judicial pelo período de 12 meses. O hospital assegurou que a unidade possui protocolos de dupla checagem e que a enfermeira responsável pelo plantão não foi acionada no momento da aplicação.
Próximos passos da investigação no Amazonas
O inquérito agora entra em uma fase decisiva com a consolidação dos laudos periciais e os depoimentos de mais de 20 pessoas. A defesa de Juliana Brasil mantém a postura de que o vídeo é íntegro e que foi gravado para demonstrar falhas sistêmicas recorrentes, negando qualquer tipo de pagamento ilícito pela produção do conteúdo.
A Polícia Civil continua apurando a responsabilidade estrutural do Hospital Santa Júlia para entender se houve omissão nos mecanismos de segurança. Até o momento, não foram decretadas prisões, mas o indiciamento por homicídio com dolo eventual e fraude processual é o caminho indicado pelas evidências coletadas até agora pelas autoridades de Manaus.
Veja as mensagens em celular da médica Juliana Brasil
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