O panorama da educação básica no Brasil atravessa um momento de transição profunda, marcado por contrastes entre a redução quantitativa de alunos e o fortalecimento de modelos pedagógicos mais extensos. De acordo com os dados do Censo Escolar divulgados nesta quinta-feira, 26, pelo Ministério da Educação (MEC), o número de matrículas no Ensino Médio brasileiro sofreu uma redução de 5,3% entre 2024 e 2025. Este movimento resultou no menor volume de estudantes registrados nessa etapa em uma década, totalizando 7,3 milhões de jovens.
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A retração foi concentrada majoritariamente na rede pública de ensino. Enquanto as escolas estaduais e municipais viram seus números encolherem, a rede privada apresentou uma contramão estatística, registrando um leve crescimento de 0,6% no mesmo período. Esse cenário coloca o ensino médio no centro do debate sobre políticas públicas, especialmente no que diz respeito ao combate à evasão e à adaptação do sistema às novas realidades demográficas do país.
O impacto de São Paulo e a correção de dados no Ensino Médio
Ao analisar a queda nacional de 425 mil alunos na rede pública, percebe-se que o Estado de São Paulo desempenhou um papel determinante nesse resultado. Das matrículas perdidas em todo o território nacional, 259 mil ocorreram em escolas paulistas, o que representa 60% da redução total do país. O dado gera atenção especial, uma vez que São Paulo detém cerca de 20% da população estudantil desta etapa.
O governo paulista, no entanto, justifica que essa variação significativa não se deve apenas ao abandono escolar, mas a um ajuste administrativo necessário. Segundo a Secretaria da Educação do Estado de São Paulo, houve uma mudança na metodologia de contabilização. Anteriormente, um mesmo aluno poderia aparecer com matrículas duplicadas se estivesse cursando o ensino regular e um itinerário técnico simultaneamente. Em 2025, o sistema foi regularizado para eliminar essas redundâncias, o que refletiu diretamente na queda nominal dos números.
Fluxo escolar e melhoria na aprovação
A gestão federal, sob o Ministério da Educação, apresenta uma visão otimista diante dos números reduzidos. O ministro Camilo Santana afirmou que a queda é reflexo de uma melhora expressiva no fluxo escolar. Segundo o MEC, o sistema de ensino brasileiro está deixando de ser “inchado” por retenções sucessivas. Quando o aluno progride de forma correta, ele conclui a etapa no tempo esperado, liberando a vaga e reduzindo o número total de matriculados sem que isso signifique menos educação.
Um dos indicadores mais celebrados pelo governo é a redução da distorção idade-série. Em 2021, cerca de 27,2% dos estudantes do nível médio estavam em séries atrasadas para sua idade. Em 2025, esse índice caiu para 14%. A queda na retenção, especialmente no 3º ano, onde a distorção diminuiu 61%, indica que os estudantes estão conseguindo finalizar seus estudos com mais eficiência. Para pesquisadores do Inep, esse avanço no fluxo é essencial para a saúde do sistema educacional.
O desafio da evasão e a transição demográfica
Apesar dos avanços no fluxo, especialistas em educação demonstram preocupação com o desaparecimento de 359 mil jovens na faixa etária de 15 a 17 anos do sistema escolar. Ernesto Faria, do portal Iede, ressalta que a melhoria na aprovação não justifica sozinha a magnitude da queda. Existe um temor real de que a soma entre evasão e abandono escolar ainda seja um componente crítico, afetando principalmente as camadas mais vulneráveis da população.
Dados do anuário Todos pela Educação mostram que, entre os 20% mais pobres, apenas 72% dos jovens estavam na escola em 2024. O desinteresse pelos estudos, a gravidez precoce e a necessidade urgente de ingressar no mercado de trabalho para compor a renda familiar continuam sendo as principais barreiras. Para mitigar esse problema, o governo federal aposta no programa Pé-de-Meia, que oferece incentivos financeiros para a permanência dos jovens, embora seus efeitos concretos no Censo Escolar ainda demandem mais tempo para serem plenamente mensurados.
Além do fator social, o Brasil enfrenta uma transição demográfica acelerada. Com a queda na taxa de natalidade, o número de crianças e jovens está diminuindo organicamente. O impacto disso é visível em toda a educação básica, que perdeu 1 milhão de alunos no último ano, totalizando 46 milhões de matriculados. Essa mudança estrutural exigirá que o país repense o mercado de trabalho futuro e a sustentabilidade da previdência social, dada a futura redução da população em idade ativa.
Educação em tempo integral mantém trajetória de crescimento
Em contrapartida à queda geral de matrículas, a modalidade de ensino em tempo integral consolidou sua expansão. Entre 2024 e 2025, houve um crescimento de 11% nas matrículas integrais na rede pública. Se em 2020 o país contava com 4,7 milhões de alunos nesta modalidade, hoje esse número saltou para 8,8 milhões, alcançando 19% de toda a educação básica.
A ampliação desse modelo é uma prioridade estratégica, visando oferecer não apenas mais horas de aula, mas um suporte pedagógico e social mais robusto. O objetivo do governo é alcançar 3,6 milhões de novas matrículas integrais até 2026. Entretanto, o financiamento dessa expansão gera tensões federativas. Secretários estaduais de educação têm apontado uma redução no repasse de recursos federais para este fim em 2025, o que pode sobrecarregar o orçamento próprio dos Estados e municípios para manter o ritmo de crescimento esperado.
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