A ciência brasileira alcançou um marco histórico na oncologia pediátrica ao transformar uma ameaça global de saúde em uma ferramenta terapêutica inovadora. A pesquisadora Carolini Kaid desenvolveu um método que utiliza o vírus da Zika modificado em laboratório para atacar e destruir células de tumores cerebrais agressivos. O estudo, que ganhou destaque internacional, oferece uma nova perspectiva para o tratamento de cânceres que, até então, apresentavam baixas taxas de sucesso com as terapias convencionais.
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A trajetória de Kaid com o vírus da Zika começou durante a epidemia de 2015. Enquanto o mundo observava com temor a relação entre o vírus e a microcefalia em recém-nascidos, a cientista identificou um padrão biológico específico. O patógeno atacava preferencialmente os progenitores neurais, células jovens do cérebro em desenvolvimento. Por coincidência científica, essas mesmas células são a “raiz” de tumores cerebrais pediátricos agressivos, permitindo que o câncer se reconstrua mesmo após sessões de quimioterapia.
O mecanismo de ação do vírus da Zika contra o câncer
A descoberta fundamental ocorreu quando Kaid expôs células tumorais ao vírus em ambiente controlado. Em apenas três dias, o patógeno foi capaz de eliminar a massa cancerosa, preservando, após modificações genéticas, as células saudáveis. Para tornar a técnica segura para humanos, a pesquisadora “desmontou” o código genético do vírus, removendo as partes responsáveis por causar a doença e mantendo apenas a sua capacidade de infiltração no sistema nervoso central.
Este processo de engenharia biológica transformou o vírus da Zika em uma espécie de vetor viral, ou um “transporte” biológico. Além de destruir o tumor por dentro, essa versão sintética pode ser carregada com genes específicos para corrigir falhas genéticas. Essa versatilidade abre portas não apenas para a oncologia, mas também para o tratamento de condições como o autismo, onde o vírus poderia entregar proteínas funcionais diretamente aos neurônios.
Desafios da manufatura e o futuro da terapia genética
Apesar do sucesso em laboratório e em testes com animais, a transição para ensaios clínicos com pacientes exige uma infraestrutura industrial rigorosa. Carolini Kaid enfrentou o desafio de migrar do ambiente acadêmico para o setor empresarial, fundando uma startup para viabilizar a produção do vírus em larga escala. O objetivo é garantir que a tecnologia cumpra as normas da Anvisa e possa ser produzida seguindo padrões internacionais de manufatura.
A pesquisadora, recentemente premiada no programa 25 Mulheres na Ciência da 3M, destaca que o ambiente de negócios ainda apresenta barreiras de gênero, mas reforça o compromisso de manter a propriedade intelectual da inovação no Brasil. A meta final é integrar esse tratamento inovador no sistema público de saúde, garantindo acesso democrático a uma tecnologia de ponta desenvolvida em solo nacional. Atualmente, a equipe trabalha no refinamento das versões sintéticas para que os primeiros testes em seres humanos possam ser autorizados em breve.
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