A pecuária sustentável na Amazônia ganhou um novo fôlego com a trajetória de Luís Fernando Laranja Fonseca. O médico veterinário e pesquisador tomou uma decisão drástica em 2002 ao abandonar a estabilidade de uma carreira acadêmica na Universidade de São Paulo (USP) para enfrentar, na prática, o avanço do desmatamento no interior do Mato Grosso. O objetivo era claro: provar que é possível produzir carne de alta qualidade mantendo a floresta em pé e recuperando áreas degradadas, transformando o que muitos viam como o vilão do clima em um aliado da conservação.
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Hoje, aos 58 anos, Fonseca lidera um modelo de negócio que administra 20 mil hectares e demonstra que a intensificação da produção não é apenas uma escolha ecológica, mas uma necessidade econômica. Ao reduzir o tempo de abate do gado pela metade, ele consegue diminuir drasticamente a emissão de metano, um dos gases que mais contribuem para o efeito estufa, atacando diretamente um dos maiores problemas ambientais do Brasil.
A ciência aplicada na recuperação de pastagens
O método desenvolvido por Fonseca foca na transformação de pastagens degradadas em sistemas produtivos e biodiversos. No modelo convencional extensivo, o gado costuma levar até quatro anos para atingir o peso de abate, permanecendo mais tempo no pasto e emitindo gases poluentes de forma contínua. A proposta da pecuária sustentável inverte essa lógica através da recuperação do solo com o plantio de árvores e o uso de leguminosas, como o amendoim forrageiro.
Essas plantas fixam nitrogênio naturalmente na terra, eliminando a dependência de fertilizantes químicos importados. Além disso, a presença de árvores nativas e exóticas cria um microclima favorável, reduzindo o estresse térmico dos animais. Com melhor alimentação e conforto, o boi ganha peso em apenas dois anos. Matematicamente, menos tempo de vida no pasto significa menos arrotos de metano na atmosfera, resultando em uma carne com pegada de carbono 40% menor que a tradicional.
O desafio de escalar a pecuária sustentável no Brasil
Apesar dos resultados promissores, a transição do modelo extrativista para o intensivo enfrenta barreiras culturais e financeiras. Muitos produtores na região amazônica ainda resistem ao uso de tecnologia, preferindo o método antigo de “soltar o boi no pasto” em grandes áreas. No entanto, os dados mostram que a pecuária extensiva tem baixa produtividade e é a principal responsável pela pressão sobre a floresta nativa.
A intensificação proposta por Fonseca permite liberar milhões de hectares de terras ociosas que poderiam ser destinadas ao reflorestamento. Para que isso ocorra em larga escala, o empresário defende a necessidade de linhas de crédito mais acessíveis e menos burocráticas para a agricultura regenerativa. Atualmente, ele busca viabilizar economicamente seus projetos também por meio da venda de créditos de carbono, uma alternativa para valorizar o produtor que investe em conservação.
O futuro do consumo e a pressão do mercado global
Com a previsão de que o consumo mundial de carne bovina cresça 10% na próxima década, a busca por métodos de baixa emissão tornou-se urgente. Gigantes do setor frigorífico já começam a monitorar suas cadeias de suprimentos com mais rigor, especialmente para atender às exigências de mercados internacionais como a União Europeia, que bloqueia produtos oriundos de áreas desmatadas.
A experiência de Fonseca mostra que a solução não passa necessariamente pela eliminação da atividade, mas pela sua reinvenção técnica. Ao unir o conhecimento acadêmico com a realidade do campo, ele pavimenta um caminho onde a economia da Amazônia pode prosperar sem sacrificar o patrimônio ambiental. A COP30, realizada em Belém, reforçou que o Brasil tem a tecnologia necessária para liderar essa mudança global, restando agora o desafio de transformar iniciativas isoladas em um padrão para todo o agronegócio nacional.
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