Feira de tecnologia apresenta avanços significativos na robótica, com máquinas que lavam roupa e interagem com o público, mas especialistas ponderam sobre custos e viabilidade prática nas residências.
Os robôs na CES, a maior feira de tecnologia do mundo realizada anualmente em Las Vegas, consolidaram-se como as grandes estrelas do evento neste ano. A Consumer Technology Association, entidade responsável pela organização, dedicou um pavilhão inteiro exclusivamente à robótica, um gesto que sinaliza a importância crescente dessas máquinas no cenário global. A poucos metros uns dos outros, foi possível observar autômatos servindo café, disputando partidas de pingue-pongue, distribuindo cartas de pôquer e até mesmo realizando tarefas domésticas complexas, como dobrar roupas.
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A grande aposta da indústria tecnológica atual recai sobre os robôs inspirados na figura humana, apropriadamente classificados como humanoides. Estas máquinas, que ficam eretas tal qual as pessoas, buscam replicar nossa forma de interação com o mundo. Embora nem sempre consigam caminhar com a fluidez biológica, o objetivo é que possam utilizar as mesmas ferramentas e transitar pelos mesmos ambientes que nós, prometendo uma eficiência superior na execução de tarefas. Contudo, a transição das fábricas controladas para o caos organizado de uma residência familiar apresenta barreiras que a engenharia ainda luta para superar.
Ousadia da LG e o sonho da casa autônoma
Um dos momentos mais emblemáticos envolvendo os robôs na CES ocorreu com a apresentação da LG Electronics. Quando o novo robô da marca, batizado de CLOiD, entrou no palco, a surpresa não se limitou à sua forma antropomórfica. O verdadeiro destaque foi a coragem da empresa em realizar uma demonstração ao vivo. Historicamente, fabricantes de humanoides preferem manter suas criações em ambientes controlados ou apresentar vídeos pré-gravados, pois o risco de falhas em tempo real costuma superar as recompensas de marketing.

O CLOiD, que possui pouco menos de 1,5 metro de altura e exibe uma tela digital no lugar dos olhos, atravessou o palco sobre rodas, acenando para a plateia com as duas mãos. Em um movimento calculado, ele colocou uma peça de roupa dentro de uma máquina de lavar. O processo foi executado de forma lenta, quase dolorosa para os padrões humanos de agilidade, mas serviu como prova de conceito.
Brandt Varner, executivo da LG, explicou durante o evento que a visão da empresa é criar uma “IA doméstica” que conecte dispositivos e comportamentos humanos. O objetivo final é uma residência com “zero trabalho”, onde o tempo é economizado e o conforto ampliado. A proposta é que, no futuro, robôs como o CLOiD possam até preparar o café da manhã antes que os moradores saiam para o trabalho. Essa iniciativa faz parte de um esforço mais amplo da LG denominado “cuidado ambiental”, que promete máquinas atuando silenciosamente para garantir a fluidez do dia a dia.
A ascensão da “IA Física” e a concorrência no setor
Os robôs na CES deste ano refletem o que o mercado convencionou chamar de “IA física”, considerada a próxima grande fase da evolução tecnológica. Não foi apenas a LG que prometeu um futuro com menos tarefas domésticas. Outras empresas, como a SwitchBot, apresentaram soluções como o Onero H1, um robô também sobre rodas focado em tarefas específicas de organização.

Durante muitos anos, o controle motor fino, especialmente aquele que envolve o uso de polegares opositores, foi um obstáculo técnico monumental para a engenharia robótica. No entanto, os avanços recentes demonstrados na feira indicam que os humanoides estão se tornando mais ágeis e capazes de realizar múltiplas tarefas simultaneamente, aproximando-se da destreza necessária para operar em ambientes humanos.
Além dos modelos domésticos, muitos dos robôs em exibição foram projetados para o setor corporativo, abrangendo manufatura, logística e serviços de alimentação. Empresas inovadoras como Artly Coffee e VenHub Global exibiram, respectivamente, baristas robóticos e lojas de conveniência inteiramente operadas por inteligência artificial.
Ainda assim, a imponência dos humanoides em tamanho real capturou a imaginação do público. O robô Nylo, desenvolvido pela IntBot, destacou-se ao cumprimentar visitantes e responder a perguntas de forma autônoma, sem qualquer auxílio humano nos bastidores. A empresa atraiu jornalistas com a promessa audaciosa de oferecer “provas do mundo real, não apenas uma demonstração”, desafiando o ceticismo habitual do setor.
Gigantes da tecnologia e a infraestrutura robótica
A presença de robôs na CES também serviu de palco para gigantes de hardware demonstrarem sua força. A fabricante de chips Qualcomm utilizou seu espaço para argumentar que seus processadores e softwares constituem a espinha dorsal dessa nova era da IA física, sendo capazes de alimentar tanto pequenos robôs domésticos quanto humanoides complexos em tamanho real.

Paralelamente, a Boston Dynamics, em conjunto com sua controladora majoritária, a Hyundai Motor, anunciou que já estão em andamento os testes de uma versão de próxima geração do famoso robô humanoide Atlas. Este modelo está sendo utilizado na fábrica da montadora na Geórgia, nos Estados Unidos. A Boston Dynamics já é reconhecida como líder em robótica avançada, impulsionada pelo sucesso comercial de seu “cachorro-robô”, o Spot, e do braço robótico móvel Stretch, amplamente utilizado para a logística de reabastecimento em armazéns.
Desafios práticos: Entre a expectativa e a realidade
Apesar do entusiasmo e do volume massivo de dinheiro investido em robótica, ainda existem desafios significativos a serem superados antes que os humanoides sejam considerados seguros, móveis e baratos o suficiente para uma adoção comercial em larga escala. Uma tendência observada na feira foi o afastamento de algumas empresas dos designs com pernas, que podem ser instáveis e complexos, em favor de sistemas sobre rodas, que oferecem maior equilíbrio e eficiência energética.
Os ambientes domésticos representam um desafio de navegação muito superior ao chão de fábrica. As casas são imprevisíveis, repletas de obstáculos inesperados, como animais de estimação que surgem repentinamente ou objetos deixados fora do lugar. Além disso, embora ver um robô carregar uma máquina de lavar no palco seja tecnicamente impressionante, a equação econômica ainda é difícil de justificar para o consumidor médio: pagar dezenas de milhares de dólares para economizar apenas alguns minutos em tarefas de lavanderia ainda não é uma proposta de valor viável para a maioria.
Especialistas apontam que usos mais convincentes e imediatos devem surgir em ambientes institucionais, como hospitais, onde robôs poderiam gerenciar tarefas repetitivas de lavanderia e logística em grande escala, liberando a equipe humana para cuidados mais críticos.
O veredito dos especialistas
Para que os robôs na CES deixem de ser apenas atrações de feira e se tornem utilitários reais, eles precisam evoluir cognitivamente. Segundo Bill Ray, chefe de pesquisa da empresa de análise de mercado Gartner, as máquinas precisam ir além de instruções passo a passo simples. Elas precisam ter a capacidade de deduzir e descobrir sozinhas o que fazer em situações novas.
Ray mantém uma visão pragmática e cautelosa. Para ele, o futuro próximo provavelmente será dominado por robôs construídos para funções específicas e limitadas, como cortar a grama ou aspirar o pó, em vez de humanoides generalistas tentando fazer tudo ao mesmo tempo. A implantação dessas tecnologias deve acelerar nas fábricas, onde os robôs operam separados de seus colegas humanos por questões de segurança. A chegada definitiva e comum às residências, no entanto, ainda deve levar anos.
“Temos dito nos últimos anos que a aplicação mais prática de um robô humanoide era inflar artificialmente o preço das ações da empresa”, analisou Ray com ceticismo. “Eles ficam ótimos andando no palco, mas são totalmente impraticáveis no uso real por enquanto.” A CES deste ano provou que a tecnologia avança a passos largos, mas a revolução dos mordomos robóticos ainda é uma promessa no horizonte, e não uma realidade imediata.
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