A recente intervenção norte-americana no país vizinho expõe vulnerabilidades na fronteira e exige novas estratégias das Forças Armadas diante da disparidade tecnológica e militar.
A recente intervenção direta dos Estados Unidos no cenário político de Caracas marcou uma escalada sem precedentes na crise na Venezuela, transformando o panorama de segurança na América do Sul. A operação realizada em 3 de janeiro, que resultou na captura do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, além de bombardeios estratégicos, inaugurou a primeira ação militar em solo sul-americano executada pelos EUA. Este novo capítulo impõe desafios imediatos e de longo prazo para a Defesa brasileira, que agora precisa recalcular rotas para garantir a soberania nacional e a estabilidade na região fronteiriça.
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Especialistas em política internacional e segurança ouvidos pela DW alertam que o agravamento da crise na Venezuela pode gerar consequências diretas para o Exército, Marinha e Aeronáutica do Brasil. A instabilidade política e social decorrente da ação americana exige não apenas maior capacidade de dissuasão na fronteira, mas também infraestrutura robusta para lidar com o aumento de atividades ilegais e fluxos migratórios desordenados.
O silêncio estratégico e a movimentação na fronteira
O Brasil compartilha 2,2 mil quilômetros de fronteira com o território venezuelano, abrangendo os estados do Amazonas e Roraima. Desta extensão, apenas 90 km são delimitados convencionalmente, sendo o restante definido por divisores de águas, o que dificulta o monitoramento. Diante do aprofundamento da crise na Venezuela, as Forças Armadas brasileiras mantiveram uma postura de cautela e silêncio oficial. Até o momento, não houve um posicionamento formal detalhado sobre a nova estratégia de defesa a ser adotada pelo Ministério da Defesa ou pelo Itamaraty.
Apesar da discrição, movimentações foram registradas. Logo após a intervenção, o ministro da Defesa, José Múcio, assegurou que o contingente atual seria suficiente para garantir a segurança. Contudo, em 5 de janeiro, uma comitiva de quatro generais inspecionou a região fronteiriça. No mesmo dia, o governador de Roraima, Antonio Denarium, reuniu-se com o general Viana Filho, do Comando Militar da Amazônia, para alinhar medidas de segurança. Já no dia 8 de janeiro, o governo federal autorizou o aumento do efetivo da Força Nacional em Roraima por 90 dias, uma resposta tática clara aos reflexos da crise na Venezuela.
Desproporção bélica e a nova guerra híbrida
A operação americana evidenciou um abismo tecnológico entre as potências. Segundo Leonardo Paz, pesquisador da Fundação Getúlio Vargas, a sofisticação bélica dos EUA coloca os sistemas de defesa latino-americanos em uma situação delicada. A intervenção não seguiu moldes convencionais de ocupação de território com tropas, mas utilizou uma estratégia de “guerra híbrida”.

Para Márcio Malta, especialista da Universidade Federal Fluminense (UFF), o uso de drones, ataques cibernéticos e corte de comunicações demonstra como forças convencionais podem ser rapidamente neutralizadas. Neste cenário, a Defesa brasileira estaria apenas parcialmente preparada. Embora o Brasil possua agentes capacitados, a dependência de tecnologia estrangeira para servidores, chips e comunicação cria uma vulnerabilidade estrutural significativa em caso de conflitos de alta tecnologia.
Impactos humanitários da crise na Venezuela
Além das questões militares, a intervenção e a consequente transição de poder em Caracas acendem o alerta para uma nova emergência humanitária. O fluxo migratório, que já trouxe milhares de venezuelanos ao Brasil fugindo da fome e do desemprego, pode se intensificar. Existe a possibilidade tanto de um retorno em massa quanto da chegada de novos refugiados, incluindo perseguidos políticos do antigo regime.

A professora Graciela de Conti Pagliari, da UFSC, destaca que a insegurança alimentar e econômica na nação vizinha gera pressão imediata sobre os serviços públicos brasileiros. Dados do Censo 2022 indicam que a Venezuela se tornou a principal origem de imigrantes no Brasil, com quase 200 mil residentes. O número de beneficiários do Bolsa Família vindos do país vizinho saltou de cerca de mil em 2017 para mais de 205 mil em setembro de 2025.
A Operação Acolhida, mantida pelo Brasil desde 2018, continua sendo o principal braço humanitário na região. Diferente da postura militar venezuelana, focada no controle territorial, a atuação brasileira na fronteira tem mantido um caráter civilizatório e de acolhimento. Contudo, a escalada da crise na Venezuela pode exigir que o Brasil atue não apenas no suporte humanitário, mas também na mediação política para evitar uma guerra civil que fortaleça grupos armados e a criminalidade na região amazônica.
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