O acirramento das tensões geopolíticas no Oriente Médio, especialmente envolvendo o Irã, acendeu um sinal de alerta para um dos pilares mais estratégicos do agronegócio nacional. O Brasil, consolidado como o maior fornecedor global de alimentos halal, enfrenta agora um cenário de incertezas logísticas e aumento expressivo nos custos operacionais. A instabilidade na região afeta diretamente o fluxo comercial de proteínas animais, obrigando exportadores e investidores a buscarem rotas alternativas e novos mercados para mitigar os impactos financeiros de uma guerra que ameaça se expandir.
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Impacto logístico e encarecimento do frete marítimo
A logística de transporte para o Golfo Pérsico e o Mar Vermelho tornou-se o principal gargalo para o setor produtivo brasileiro. De acordo com analistas do banco UBS, a carne de aves é a proteína mais vulnerável, dado que o mercado islâmico absorveu cerca de 30% das exportações totais de frango em 2025. No caso da carne bovina, a exposição gira em torno de 7%. Juntos, esses embarques somaram aproximadamente 6 bilhões de dólares no último ano.
O redirecionamento das rotas de navegação tem sido a saída imediata, porém custosa. Relatórios do Rabobank indicam que, devido à insegurança em pontos críticos como o Canal de Suez, muitas cargas estão sendo desembarcadas em portos da Arábia Saudita, Iêmen e Omã, seguindo o restante do trajeto por via terrestre. Ali Hussein El Zoghbi, vice-presidente da Fambras, destaca que taxas extras por container e o fechamento parcial de estreitos estratégicos, como o de Ormuz, pressionam as margens de lucro das empresas nacionais.
O que são os alimentos halal e sua importância global
Para compreender a relevância desse mercado, é preciso definir o conceito de alimentos halal, termo que em árabe significa permitido ou lícito. No contexto religioso islâmico, a produção de proteína animal exige ritos específicos: o abate deve ser realizado por um muçulmano, através do método de degola sem insensibilização elétrica prévia, com o animal voltado para a cidade de Meca. Além disso, o processo proíbe qualquer contato com substâncias ilícitas, como álcool ou derivados suínos. Atualmente, o conceito evoluiu para englobar também critérios de sustentabilidade e boas práticas de governança (ESG), tornando o selo brasileiro um dos mais respeitados do mundo pela sua rastreabilidade e rigor técnico.
Estratégias das gigantes brasileiras na região
Apesar das adversidades, grandes empresas como JBS e MBRF mantêm planos de expansão no Oriente Médio. A MBRF, que controla a marca Sadia, informou em balanços recentes ter posicionado estoques estratégicos nos países de destino para evitar o desabastecimento. A companhia opera a subsidiária Sadia Halal em parceria com o fundo soberano da Arábia Saudita, detendo mais de 36% do mercado no Conselho de Cooperação do Golfo.
Já a JBS mantém uma estrutura robusta com cerca de 1600 funcionários na região e anunciou aportes de 150 milhões de dólares em unidades operacionais na Arábia Saudita e nos Emirados Árabes. Para essas companhias, o desafio atual é equilibrar a presença física e os investimentos locais com a volatilidade dos preços internacionais provocada pelo conflito iraniano.
Diversificação de mercados e consumo interno
Diante da crise, a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) solicitou ao governo federal apoio para o capital de giro das exportadoras. Especialistas sugerem que a solução para o setor pode residir na diversificação geográfica, focando em nações muçulmanas não árabes, como Indonésia e Malásia. Outro cenário possível é o redirecionamento do excedente de produção para o mercado doméstico brasileiro, o que poderia resultar em uma queda nos preços de itens básicos, como frango e ovos, para o consumidor local.
Potencial de expansão além do setor alimentício
O mercado voltado ao público islâmico movimenta 1,4 trilhão de dólares anualmente e atende a quase 2 bilhões de consumidores. No Brasil, o interesse governamental se expandiu para o turismo e serviços. O Ministério do Turismo recentemente firmou acordos para adaptar a infraestrutura nacional aos viajantes árabes, incluindo hotéis com espaços de oração e gastronomia certificada. Segundo a Câmara de Comércio Árabe Brasileira, acordos de livre comércio, como o negociado entre o Mercosul e os Emirados Árabes, são fundamentais para garantir a perenidade dessas relações comerciais, independentemente das turbulências geopolíticas momentâneas.
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