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Contrabando de mercúrio transforma o Amazonas em rota internacional do crime

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O contrabando de mercúrio encontrou no Amazonas um de seus principais corredores logísticos na América do Sul. O estado se consolidou como um ponto nevrálgico para a entrada e distribuição do metal pesado, que alimenta a cadeia destrutiva do garimpo ilegal de ouro em toda a região. A revelação faz parte de um relatório robusto, divulgado na última semana, assinado em conjunto pela Agência Brasileira de Inteligência (ABIN), o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) e o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA).

O documento, intitulado “Mercúrio na Amazônia: redes criminosas transnacionais, vulnerabilidade socioambiental e desafios para a governança”, é um mergulho profundo nas operações que garantem o suprimento do insumo tóxico. O estudo confirma que o Brasil não possui mineração de mercúrio ou jazidas economicamente viáveis. Portanto, todo o metal utilizado em território nacional é, por definição, importado.

“Estima-se que quase todo mercúrio destinado aos garimpos ilegais brasileiros seja adquirido por contrabando”, aponta um trecho decisivo do relatório. Isso significa que a atividade garimpeira, que devasta vastas áreas da floresta, é diretamente dependente de redes criminosas organizadas que operam através das fronteiras porosas da Amazônia.

As rotas clandestinas do contrabando de mercúrio

O relatório detalha como o Amazonas funciona como um “hub” para essas operações ilícitas. Rotas clandestinas atravessam o estado, conectando países vizinhos, notavelmente o Peru e a Colômbia, aos rincões da floresta brasileira.

A investigação aponta uma conexão direta entre o departamento de Loreto, no Peru, e áreas de intensa atividade garimpeira no Amazonas. A região Oeste do estado é destacada como uma das áreas mais críticas e vulneráveis, especialmente ao longo da calha do Rio Solimões. Esta hidrovia vital para a população local tornou-se também uma artéria para o crime, facilitando o transporte do mercúrio ilegal até as frentes de garimpo.

Essas redes transnacionais exploram a complexidade geográfica e os desafios de fiscalização em uma área de fronteira extensa e densamente florestada, garantindo que o “azougue”, como o mercúrio é popularmente conhecido no garimpo, chegue aos seus compradores. O metal é usado para separar o ouro dos sedimentos, formando uma amálgama que, posteriormente, é queimada para evaporar o mercúrio e restar apenas o metal precioso.

O veneno silencioso na cadeia alimentar

A principal e mais trágica consequência desse crime é a contaminação ambiental e humana. O mercúrio, uma vez utilizado, não desaparece. Ele é despejado nos rios ou evapora, contaminando o solo, a água e o ar.

Nos rios, o metal sofre um processo de metilação e é absorvido por microrganismos, entrando na cadeia alimentar. Peixes menores comem esses organismos, peixes maiores comem os peixes menores, e o mercúrio vai se bioacumulando. No topo dessa cadeia está a população humana.

Conforme o levantamento, a principal forma de exposição das comunidades locais é o consumo de peixes contaminados. O peixe é a base da alimentação ribeirinha e indígena. O relatório é categórico ao alertar que as comunidades tradicionais em todas as sub-bacias analisadas pelo estudo estão em risco alto ou extremamente alto de intoxicação.

Yanomamis e ribeirinhos são as maiores vítimas

Os mais afetados por essa dinâmica criminosa são, invariavelmente, os mais vulneráveis: as populações indígenas e ribeirinhas. O estudo revela níveis alarmantes de exposição ao metal pesado nesses grupos.

Um dos dados mais chocantes do relatório refere-se ao povo Yanomami, que habita o Norte do estado e sofre há anos com a invasão de garimpeiros em seu território. A média de contaminação registrada entre os Yanomami foi de 3,78 µg/g (microgramas de mercúrio por grama de cabelo).

Para contextualizar a gravidade desse número, a Organização Mundial da Saúde (OMS) considera que níveis acima de 1,0 µg/g já são motivo de alerta, e níveis acima de 6,0 µg/g indicam risco severo à saúde. A média de 3,78 µg/g evidencia uma exposição crônica e perigosa, que afeta diretamente o sistema nervoso central. A intoxicação por mercúrio pode causar danos neurológicos irreversíveis, tremores, perda de memória, problemas cognitivos e, em gestantes, pode atravessar a placenta e causar danos cerebrais graves ao feto.

*Com informações do G1

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