Os protestos no Irã completam um ciclo de duas décadas e meia de tensões, evoluindo de reivindicações estudantis para um amplo movimento contra o regime islâmico
Os protestos no Irã que eclodiram em dezembro do ano passado e se alastraram por várias cidades iranianas marcam mais um capítulo em uma longa história de instabilidade política e social no país. Inicialmente motivadas pelo aumento do custo de vida e pela alta descontrolada da inflação, as manifestações rapidamente deixaram de ser apenas econômicas. Elas passaram a refletir a insatisfação profunda e crescente de segmentos cada vez maiores da população com o próprio sistema político que rege a nação.
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Segundo entidades de direitos humanos que monitoram a situação local, em torno de 600 manifestantes foram mortos em confrontos diretos com as forças de segurança desde o início desta fase recente dos levantes. A resposta estatal segue um padrão histórico de rigidez. A polícia e as milícias paramilitares Basij, que são unidades voluntárias subordinadas à Guarda Revolucionária Iraniana, mantêm-se em estado de prontidão constante. O objetivo é a mobilização imediata para conter qualquer foco de dissidência.
A Guarda Revolucionária atua como um aparato militar independente e responde diretamente ao líder supremo do país, o aiatolá Ali Khamenei. Com a missão constitucional de proteger a República Islâmica, tanto a Guarda quanto a polícia acumulam décadas de experiência prática na repressão de manifestações. O que os movimentos de protestos no Irã têm em comum ao longo dos últimos 25 anos é a frustração popular com uma liderança política acusada de incapacidade ou falta de vontade para atender às demandas da sociedade. O Estado, por sua vez, apoia-se em medidas repressivas, ataques direcionados e na demonização de opositores para evitar a união do povo.
Abaixo, relembramos a cronologia que transformou o cenário político iraniano nas últimas décadas.
Julho de 1999 e o início dos conflitos estudantis
O primeiro grande abalo recente ocorreu em julho de 1999. O estopim para os protestos no Irã naquela época foi o fechamento do jornal reformista Salam. Estudantes em Teerã iniciaram atos pacíficos contra a censura, mas a resposta foi brutal. Na noite de 8 de julho, forças de segurança invadiram um dormitório estudantil, resultando na morte de pelo menos um estudante.
Essa ação desencadeou uma onda de revolta que durou vários dias. As milícias Basij atuaram violentamente, resultando em mais quatro mortes confirmadas. Além disso, houve relatos de estudantes desaparecidos e um número estimado entre 1.200 e 1.400 prisões, revelando a disposição do regime em silenciar a classe acadêmica.
O Movimento Verde de junho de 2009
Uma década depois, em junho de 2009, o país viu nascer o chamado Movimento Verde. Após uma eleição presidencial envolta em polêmicas, milhões de cidadãos foram às ruas para questionar os resultados oficiais e acusar o governo de Mahmoud Ahmadinejad de fraude eleitoral. O verde simbolizava a campanha do candidato adversário, Mir Hossein Mousavi.
Inicialmente pacíficas, essas manifestações se tornaram os maiores protestos no Irã desde a Revolução Islâmica de 1979. A Guarda Revolucionária e as milícias Basij utilizaram força excessiva para dispersar as multidões. O saldo foi trágico, com inúmeras mortes, feridos e milhares de detenções, consolidando a tática de repressão massiva do Estado.
A revolta dos combustíveis em novembro de 2019
Em novembro de 2019, a economia voltou a ser o gatilho. Um aumento drástico e repentino nos preços dos combustíveis gerou manifestações que abalaram o regime mais uma vez. Os atos se espalharam rapidamente por mais de 20 cidades, mas foram sufocados em pouco tempo.
Desta vez, além das pautas econômicas, slogans políticos pedindo a derrubada do líder Ali Khamenei ganharam força. A reação das forças de segurança foi de extrema violência, marcando o período na história recente como o “Novembro Sangrento”.
Mulher, Vida, Liberdade em setembro de 2022
A morte da jovem curda Jina Mahsa Amini, de 22 anos, em setembro de 2022, inaugurou uma nova fase nos protestos no Irã. Amini morreu sob custódia policial após ser detida por supostamente violar as normas de uso do hijab. O que começou como um grito contra a brutalidade policial e a obrigatoriedade do véu se expandiu para um movimento contra todo o sistema político.
Sob o lema “Mulher, Vida, Liberdade”, jovens e mulheres lideraram a rebelião contra as medidas repressivas. O governo respondeu com munição real, prisões em massa e julgamentos sumários que condenaram dezenas à morte. Este período representou um dos maiores desafios à legitimidade da República Islâmica.
Dezembro de 2025 e a crise econômica atual
Chegamos ao cenário atual, iniciado em dezembro de 2025, onde a crise econômica serve novamente como catalisador. Segundo a ONG Human Rights Activists News Agency (Hrana), cerca de 600 pessoas já perderam a vida nos confrontos que atingiram mais de uma centena de cidades.
Mesmo com táticas de “apagão” na internet e falhas propositais na cobertura telefônica, os protestos no Irã continuam. A insatisfação com a economia convergiu para críticas diretas à República Islâmica e ao aiatolá Ali Khamenei. O cenário internacional também pressiona o regime, com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ameaçando intervir caso o uso de força excessiva contra a população civil continue a escalar. O desfecho desta nova onda de instabilidade ainda é incerto, mas a tensão permanece elevada.
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