Comércio bilateral atinge novos patamares impulsionado pela guerra comercial dos EUA; investimentos chineses diversificam-se entre energia, tecnologia e agronegócio, gerando empregos e debates sobre dependência.
A dinâmica geopolítica global está passando por transformações profundas, e a relação entre Brasil e China emerge como um dos pilares centrais dessa nova configuração. Diante da guerra comercial imposta pelos Estados Unidos, que pressionou diversas nações a buscarem rotas alternativas, Brasília e Pequim estreitaram laços de forma pragmática e acelerada. O resultado é visível não apenas nos números macroeconômicos, mas também em campanhas culturais e na presença maciça de tecnologia asiática no cotidiano brasileiro.
Recentemente, a embaixada chinesa anunciou uma ação simbólica que reflete essa aproximação: a distribuição de cerca de 400 milhões de copos temáticos para a campanha “Café do Brasil” em milhares de cafeterias na China. A iniciativa, realizada em parceria com a ApexBrasil, celebra o produto nacional em um mercado que consumiu US$ 213,6 milhões (aproximadamente R$ 1,5 bilhão) em café brasileiro apenas em 2024. Contudo, o café é apenas a ponta do iceberg de uma parceria multisetorial.
Investimentos recordes marcam a relação entre Brasil e China
Os dados do Conselho Econômico Brasil-China revelam um salto impressionante no fluxo de capital. Em 2024, o volume de investimentos de empresas chinesas no Brasil alcançou a marca de US$ 4,18 bilhões (R$ 22,6 bilhões), representando um crescimento de 113% em relação ao ano anterior.
Embora o agronegócio continue sendo um motor vital com a China absorvendo mais de 70% da soja exportada e volumes significativos de carne bovina e celulose, o perfil dos aportes mudou. O setor de energia agora lidera, representando um terço do total investido, seguido por um interesse crescente na extração de minerais críticos, essenciais para a transição energética global. Para facilitar esse escoamento, a estatal chinesa Cofco está construindo em Santos o seu maior terminal de exportação fora da China, consolidando a logística entre os dois países.
A visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a Pequim em maio de 2025, acompanhado de uma ampla comitiva ministerial e empresarial, selou trinta novos acordos. Na ocasião, o governo brasileiro criticou o protecionismo internacional, reforçando a busca por um comércio mais fluido com o gigante asiático.
Do “Made in China” à tecnologia de ponta
A percepção do consumidor brasileiro sobre os produtos chineses mudou drasticamente nas últimas décadas. Se nos anos 2000 o rótulo “Made in China” era associado a itens de baixa qualidade, hoje a Brasil e China cooperam em níveis de alta tecnologia. Marcas como Xiaomi lideram segmentos de smartphones, enquanto a montadora BYD se tornou símbolo da mobilidade elétrica no país, apesar de enfrentar desafios trabalhistas pontuais citados pelo Ministério Público.
No setor de serviços, aplicativos como o “99”, controlado pela chinesa DiDi, competem de igual para igual com gigantes norte-americanas como a Uber. Johann Fuhrmann, da Fundação Konrad Adenauer, destaca que essa penetração tecnológica coloca o Brasil em uma posição similar à da Europa: equilibrando-se entre dois grandes parceiros concorrentes, China e EUA.
Impactos no mercado de trabalho e o risco da dependência
Para especialistas, o fortalecimento dos laços entre Brasil e China traz benefícios tangíveis, mas exige cautela. O economista Tomás Marques, do German Institute for Global and Area Studies (GIGA), aponta que a cooperação tem gerado impactos positivos no mercado de trabalho brasileiro, especialmente em setores que demandam inovação, como mobilidade elétrica. A produtividade tende a crescer com a transferência de tecnologia.
Entretanto, há o temor da “reprimarização” da pauta exportadora. Enquanto o Brasil envia commodities e bens primários, importa produtos de alto valor agregado. O Atlantic Council alerta que, a longo prazo, isso pode gerar déficits comerciais estruturais e uma dependência excessiva de Pequim. Além disso, existe o debate sobre a autonomia estratégica: um alinhamento econômico muito profundo poderia, eventualmente, pressionar decisões políticas brasileiras, como a manutenção do reconhecimento diplomático de Taiwan, algo que o Paraguai, vizinho do Mercosul, ainda sustenta.
O futuro dessa relação permanece em aberto. Enquanto projeções indicam que a China pode ultrapassar os EUA como principal parceiro da América Latina até 2035, o Itamaraty mantém uma postura de equilíbrio. O Brasil resiste à adesão formal à “Nova Rota da Seda”, preferindo colher os frutos da parceria atual sem alienar os Estados Unidos, com quem busca recompor laços diplomáticos.
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