Após reunião estratégica com Netanyahu na Flórida, presidente americano delineia prazos curtos para a pacificação de Gaza e expõe divergências sobre a Cisjordânia.
O cenário geopolítico do Oriente Médio recebeu um novo e contundente aviso vindo diretamente da Flórida nesta segunda-feira. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, declarou categoricamente que o desarmamento do Hamas precisa ser concluído em um “período muito curto”. Em tom de ameaça direta, Trump alertou que, caso o grupo não cumpra o acordo de desmilitarização, “haverá um inferno para pagar”.
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A declaração ocorreu durante uma coletiva de imprensa após uma reunião a portas fechadas com o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu. Este foi o sexto encontro entre os dois líderes apenas neste ano, sinalizando a urgência e a complexidade da agenda bilateral. “Se eles não se desarmarem, como concordaram em fazer, concordaram com isso, então haverá um inferno para pagar por eles”, reforçou Trump, acrescentando que, embora os Estados Unidos não desejem chegar a esse extremo, o prazo para o cumprimento das exigências é exíguo.
Além da retórica dura sobre o desarmamento do Hamas, Trump expressou otimismo quanto à reconstrução da Faixa de Gaza, afirmando esperar que as obras comecem “muito em breve”. No entanto, o presidente não forneceu detalhes específicos sobre o calendário de obras ou quais entidades seriam financeiramente e logisticamente responsáveis pela reestruturação do enclave, que, segundo estimativas da ONU, teve mais de 80% de seus edifícios destruídos após dois anos de intensos combates.
O Plano de paz e a segunda fase do cessar-fogo
A reunião serviu como preparativo para a implementação da segunda fase do cessar-fogo em Gaza, prevista para ter início em janeiro. A primeira fase, que entrou em vigor em 10 de outubro e encerrou as hostilidades iniciadas em 2023, focou na retirada militar parcial de Israel e na troca de reféns israelenses por prisioneiros palestinos.
Agora, o foco se volta para a ambiciosa segunda etapa, baseada no plano de paz de 20 pontos elaborado por Trump. Os pilares centrais desta fase incluem:
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A retirada total das forças de Israel de Gaza;
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O completo desarmamento do Hamas;
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A criação de um comitê palestino para governar o território temporariamente.
Esta etapa prevê uma Faixa de Gaza desmilitarizada sob supervisão internacional. O órgão responsável por essa gestão será o “Conselho da Paz”, um grupo presidido pelo próprio Trump. Caberá a este conselho supervisionar a reconstrução sob um mandato da ONU de dois anos, passível de renovação, além de monitorar um comitê “tecnocrático e apolítico” formado por palestinos para gerir os assuntos cotidianos da região.
Divergências sobre a Cisjordânia e anexação
Apesar da sintonia demonstrada em relação a Gaza, o encontro expôs fissuras na concordância entre Washington e Tel Aviv sobre a Cisjordânia ocupada. Questionado sobre a violência dos colonos e as ações israelenses na região, Trump admitiu que ele e Netanyahu “não estão 100% de acordo sobre a Cisjordânia”, mas garantiu que chegarão a uma conclusão.
A tensão reside na questão da anexação. Em setembro, Trump havia afirmado categoricamente que não permitiria a anexação do território por Israel. Contudo, apenas um mês depois, o parlamento israelense aprovou um voto preliminar simbólico a favor da medida. A comunidade internacional e as lideranças palestinas alertam que tal movimento sepultaria definitivamente a solução de dois Estados. Mesmo com as divergências, Trump demonstrou confiança em seu aliado, afirmando que Netanyahu “fará o que é certo”.
Obstáculos para o desarmamento do Hamas e a força de estabilização
A transição para a segunda fase enfrenta desafios logísticos e diplomáticos significativos. Encontros recentes entre enviados dos EUA, como Steve Witkoff e Jared Kushner, com representantes do Egito, Qatar e Turquia, revelaram um “enorme fosso” entre as expectativas americano-israelenses e a realidade regional.
Dois pontos críticos travam o progresso:
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Aprovação do Comitê: Funcionários israelenses têm demorado a aprovar os nomes da lista de membros do comitê tecnocrático palestino.
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Força Multinacional: A criação de uma força internacional de estabilização ainda não saiu do papel.
Enquanto EUA e Israel desejam que essa força tenha “papel de comando” em tarefas de segurança, incluindo o desarmamento do Hamas, países europeus e árabes hesitam em enviar tropas, temendo serem vistos como uma “força de ocupação”.
O Hamas, por sua vez, sinalizou disposição para discutir o “congelamento” de seu arsenal, mas mantém a retórica de resistência armada enquanto houver ocupação. Para contornar o impasse, diplomatas americanos sugerem incentivos financeiros em troca da entrega de armas, um programa de “recompra” ecoando propostas anteriores de Witkoff. O sucesso dessa estratégia, contudo, depende da cooperação de todas as partes em um cenário de extrema desconfiança.
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