Crise diplomática entre Estados Unidos e Europa ganhou novos contornos após declarações do presidente americano Donald Trump, que minimizaram o papel de tropas europeias na guerra do Afeganistão. A fala provocou reação imediata do primeiro-ministro do Reino Unido, Keir Starmer, que classificou os comentários como “insultuosos” e “francamente revoltantes”, além de uma onda de críticas de líderes europeus, militares, veteranos de guerra e autoridades da OTAN.
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A crise diplomática se intensificou depois que Trump afirmou, em entrevista ao programa “Mornings with Maria”, da Fox Business Network, que os Estados Unidos “nunca precisaram” da aliança transatlântica e que os aliados teriam permanecido “um pouco fora da linha de frente” durante o conflito no Afeganistão. As declarações atingem diretamente países que perderam centenas de soldados na guerra e reacendem tensões já existentes nas relações entre Washington e a Europa.
Reação dura do Reino Unido
Ao comentar o episódio, Starmer foi direto: disse considerar as falas do presidente americano ofensivas e prejudiciais às famílias de militares mortos ou feridos. Segundo ele, se tivesse se expressado dessa forma, teria pedido desculpas publicamente.
O Reino Unido perdeu 457 militares no Afeganistão, no que foi o conflito externo mais letal para o país desde os anos 1950. Durante os períodos mais intensos da guerra, os britânicos lideraram operações na província de Helmand, uma das regiões mais violentas do país, além de atuarem como principal aliado dos EUA também no Iraque.
A força das declarações chama atenção porque Starmer vinha adotando uma postura cautelosa em relação a Trump, evitando críticas públicas diretas ao presidente americano.
Repercussão na Europa
A crise diplomática se espalhou rapidamente pelo continente. O ministro das Relações Exteriores da Holanda, David van Weel, classificou as falas como falsas e desrespeitosas. Na Polônia, o general aposentado Roman Polko, ex-comandante de forças especiais, afirmou que os países aliados “pagaram com sangue por essa aliança” e que Trump teria “cruzado uma linha vermelha”.
O ministro dos Veteranos do Reino Unido, Alistair Carns, que participou de missões no Afeganistão ao lado de tropas americanas, chamou as declarações de “absolutamente ridículas”. “Nem todos voltaram para casa”, afirmou em vídeo divulgado nas redes sociais.
Até figuras da realeza britânica se manifestaram. Prince Harry, que serviu no Afeganistão, declarou que os sacrifícios feitos no conflito “merecem ser lembrados com verdade e respeito”.
OTAN e o peso histórico da aliança
O episódio também reacende o debate sobre o papel da OTAN (NATO). Pelo tratado fundador da aliança, o Artigo 5 estabelece que um ataque contra um país-membro é considerado um ataque contra todos. Essa cláusula foi acionada apenas uma vez, após os atentados de 11 de setembro de 2001, quando os aliados europeus se comprometeram a apoiar os Estados Unidos, o que resultou diretamente na guerra do Afeganistão.
Durante grande parte do conflito, as forças internacionais no país estiveram sob comando da OTAN, o que reforça o caráter coletivo da operação e o envolvimento direto de diversos países.
Mortes e sacrifícios compartilhados
Além das 457 mortes britânicas, mais de 150 canadenses morreram no Afeganistão, assim como 90 militares franceses e dezenas de soldados da Alemanha, Itália e outros países europeus. A Dinamarca perdeu 44 militares, uma das maiores taxas de mortes per capita entre os membros da OTAN.
Os Estados Unidos registraram cerca de 2.460 mortes de militares no conflito, segundo dados do Departamento de Defesa americano, um número proporcionalmente semelhante ao do Reino Unido e da Dinamarca quando analisado em termos populacionais.
Relação já tensionada
As declarações de Trump ocorrem em um momento de desgaste nas relações entre os EUA e aliados europeus. Recentemente, o presidente voltou a sinalizar interesse em adquirir a Groenlândia durante o Fórum Econômico Mundial, em Davos, o que gerou novas críticas internacionais e aumentou a desconfiança diplomática.
Analistas avaliam que o episódio aprofunda uma crise diplomática que vai além de declarações isoladas, refletindo divergências estruturais sobre alianças militares, cooperação internacional e o papel dos EUA no sistema global de segurança.
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