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Como brigadas indígenas reduziram incêndios em terras protegidas

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Brigadas indígenas têm se revelado a ferramenta mais eficaz para proteger a Amazônia e o Cerrado contra a devastação do fogo descontrolado. Um estudo recente, que analisou dez anos de dados, confirmou que a união entre o conhecimento ancestral dos povos originários e a ciência moderna resultou em uma redução de 35% nos focos de calor em áreas monitoradas, quando comparadas a territórios sem essa proteção.

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Essa estratégia, que pode parecer contraditória à primeira vista, baseia-se no manejo integrado do fogo. Em vez de apenas combater as chamas quando elas já estão altas, os indígenas realizam queimas prescritas. Essa técnica envolve o uso do fogo no momento e local exatos, de forma controlada, para consumir o material combustível seco e evitar grandes incêndios florestais no auge da seca. A pesquisa publicada na revista Humanities and Social Sciences Communications avaliou 25 milhões de hectares e provou que essa política pública não apenas funciona, mas é vital para o futuro da preservação ambiental.

O sucesso das brigadas indígenas no combate ao fogo

Os dados são claros e contundentes. Ao comparar a última década com o período anterior, o estudo identificou que o manejo integrado permitiu uma queda de 22,7% nos focos de calor onde as equipes atuavam. Em contrapartida, territórios desprotegidos viram os incêndios aumentarem em 12,3%.

O Programa de Brigadas Federais (BRIFs), coordenado pelo Ibama e pelo Prevfogo em parceria com a Funai, completou dez anos em 2023 consolidando-se como um modelo de sucesso. Com um custo anual de apenas 1,02 dólar por hectare, o programa é visto por cientistas como uma solução economicamente viável e replicável para outros países tropicais. Rodrigo de Moraes Falleiro, analista ambiental e autor do estudo, destaca que o respeito à autogestão das comunidades é um princípio básico que deve nortear as políticas globais de controle de incêndios.

Do “Fogo Zero” ao manejo inteligente

Durante décadas, o Brasil adotou a política de “Fogo Zero”, que criminalizava qualquer uso de queimadas. No entanto, essa abordagem se mostrou falha, especialmente no Cerrado, onde ecossistemas dependem do fogo para renovação. A supressão total apenas acumulava matéria orgânica seca, transformando as matas em barris de pólvora prontos para explodir na estação seca.

A virada de chave ocorreu quando técnicos começaram a ouvir os anciões, pajés e lideranças locais. Eles ensinaram que o fogo, quando bem manejado, é um aliado. Na Amazônia, onde a floresta é mais sensível, o desafio foi adaptar o uso do fogo nas roças de subsistência, criando calendários de queima seguros. Essa mudança de paradigma culminou na Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo, aprovada em 2024, que legitima o saber tradicional como pilar da defesa ambiental.

Desafios operacionais e a luta por reconhecimento

Apesar dos resultados expressivos, as brigadas indígenas enfrentam obstáculos burocráticos que limitam seu potencial. A cobertura atual atinge apenas 23,1% da área das Terras Indígenas. Além disso, a modalidade de contratação temporária, geralmente de seis meses, impede um trabalho preventivo mais robusto.

Traiú Assalu Mehinaco, supervisor no Parque Indígena do Xingu, relata que o tempo curto de contrato dificulta a conscientização prévia. Quando os brigadistas chegam, a vegetação já está secando. A Associação dos Brigadistas Indígenas Kurâ Bakairi, no Mato Grosso, busca recursos para manter as equipes ativas o ano todo, pois a prevenção fora da época crítica é tão importante quanto o combate direto.

Em 2024, ano de incêndios recordes, a diferença entre áreas com e sem brigadas foi dramática, chegando a mais de 400% em alguns casos. Isso reforça a urgência de expandir o programa e valorizar esses profissionais que, como define Lindomar Iuxi Pacuare, atuam como verdadeiros guardiões da saúde pública e da biodiversidade.

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