Disputas comerciais, aumento dos gastos militares e divergências sobre Taiwan fortalecem alianças de segurança e alteram o equilíbrio regional
A tensão entre China e Japão entrou em uma nova fase após Pequim impor controles de exportação a 40 empresas japonesas na última semana de junho. O governo chinês alega que produtos fornecidos por essas companhias poderiam ser utilizados pela indústria militar do Japão. Tóquio reagiu acelerando o distanciamento comercial e buscando novas parcerias estratégicas na região.
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O episódio expôs uma rivalidade histórica que voltou a ocupar o centro das relações asiáticas. Nos últimos meses, os dois países passaram a combinar medidas econômicas, declarações políticas e investimentos militares em uma disputa que pode afetar outras nações do Indo-Pacífico.
A escalada ocorre enquanto o Japão amplia seus gastos com defesa e a China realiza testes balísticos e reforça sua presença militar na região. O temor entre analistas é que um incidente inesperado, mesmo que não planejado, provoque uma crise difícil de controlar.
Taiwan amplia a tensão entre China e Japão
A primeira-ministra japonesa, Sanae Takaichi, adotou uma postura mais firme desde que assumiu o cargo. Em novembro do ano passado, poucos dias depois de chegar ao governo, ela afirmou que uma eventual tomada de Taiwan pela China, com o uso de navios de guerra, poderia representar uma ameaça direta ao território japonês.
“A chamada contingência de Taiwan tornou-se tão grave que precisamos nos preparar para o pior cenário possível”, declarou Takaichi.
Taiwan está localizada a cerca de 110 quilômetros do território japonês. Por isso, uma operação militar chinesa na ilha teria consequências imediatas para a segurança do Japão e para as rotas comerciais do Pacífico.
Após as declarações da primeira-ministra, a China aumentou as restrições ao comércio e à circulação entre os países. Houve redução de voos diretos, limitações a intercâmbios acadêmicos e uma queda expressiva no acesso japonês às terras raras chinesas, minerais fundamentais para setores tecnológicos e industriais.
Para Sebastian Maslow, professor do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Tóquio, a crise mostra que política e comércio deixaram de funcionar como áreas separadas na relação bilateral.
Segundo ele, China e Japão seguiram durante décadas um modelo diplomático que preservava as trocas econômicas mesmo nos momentos de divergência política. Atualmente, porém, instrumentos comerciais passaram a ser utilizados como forma de pressão.
Rivalidade histórica ainda influencia decisões
As tensões atuais também carregam o peso da ocupação japonesa de partes da China durante a Segunda Guerra Mundial. Entre 200 mil e 300 mil chineses foram mortos pelas forças japonesas naquele período, segundo o texto-base.
Para o governo de Xi Jinping, o Japão ainda não apresentou desculpas consideradas suficientes pelos crimes cometidos durante o conflito. A memória da guerra permanece como um elemento sensível nas relações entre os dois países.
Depois da rendição japonesa, em 1945, o país adotou uma Constituição pacifista que restringiu a manutenção de forças militares convencionais. O Japão passou a contar oficialmente com Forças de Autodefesa, voltadas à proteção do território.
Takaichi defende mudanças nessa estrutura. Para a primeira-ministra, a atual denominação e as limitações impostas pela cláusula de paz já não correspondem ao cenário de segurança enfrentado pelo país.
Além do crescimento militar chinês, Tóquio observa com preocupação as ações da Coreia do Norte e da Rússia, que realizam exercícios militares no Pacífico. O governo japonês também demonstra dúvidas sobre a capacidade dos Estados Unidos de manter o mesmo nível de proteção oferecido nas últimas décadas.
Gastos militares japoneses preocupam Pequim
Em 2025, o Japão ocupou a décima posição mundial em gastos militares, segundo relatório do Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo, o Sipri. O país destinou aproximadamente US$ 62,2 bilhões à defesa, valor equivalente a 1,4% do Produto Interno Bruto.
A cifra representou crescimento de 9,7% em comparação com 2024 e de 61% em relação a 2016. Para este ano, a previsão é de que as despesas possam superar US$ 58 bilhões.
O governo japonês afirma que os recursos são necessários para ampliar a capacidade de autodefesa e responder às ameaças regionais. A China, por outro lado, interpreta o movimento como um possível abandono da política pacifista adotada pelo Japão depois da guerra.
A aliança militar entre Japão e Estados Unidos também alimenta a desconfiança de Pequim.
Alexandre Uehara, professor de relações internacionais da ESPM-SP, explica que os dois países passaram a enxergar os movimentos do adversário como sinais de ameaça.
“Quando o Japão aumenta seu processamento de defesa, a China começa a perceber como uma ameaça para ela. Porque ela pensa: ‘por que o Japão está aumentando seus orçamentos? O que que isso significa?’. Então, hoje, a gente está em uma situação em que cada um sente o outro como uma possível ameaça e isso leva a esse crescimento na tensão”, afirmou.
Novas alianças podem dividir o Indo-Pacífico
O Japão tem procurado fortalecer acordos de segurança com países que também acompanham com preocupação o avanço militar chinês. Tóquio participou de exercícios conjuntos com Filipinas e Índia, promoveu ações trilaterais com Coreia do Sul e Estados Unidos e ampliou treinamentos militares com a Austrália.
Essas aproximações podem alterar a divisão de forças na Ásia. A China mantém vantagem econômica por ser uma importante fornecedora de produtos, componentes industriais e matérias-primas para diversos países da região.
Maslow avalia que as nações do Indo-Pacífico poderão ser pressionadas a escolher entre uma aproximação estratégica com o Japão e a manutenção dos benefícios econômicos proporcionados pelo comércio com a China.
Para que sua estratégia avance, Tóquio precisará combinar iniciativas de defesa com assistência econômica consistente. Caso contrário, muitos países poderão optar por preservar as relações comerciais com Pequim.
Os Estados Unidos continuam presentes nesse cenário, embora aliados tenham buscado diversificar suas parcerias. Shin Kawashima, professor do Departamento de Relações Internacionais da Universidade de Tóquio, afirma que Washington deixou de exercer plenamente o papel de principal garantidor da segurança global e passou a cobrar maior participação militar de parceiros como o Japão.
O risco mais imediato está na ausência de mecanismos eficientes para impedir que uma ocorrência no mar ou no espaço aéreo se transforme em confronto. Kawashima considera que os sistemas de gestão de crises entre Pequim e Tóquio podem não funcionar adequadamente diante de uma situação inesperada.
Xi Jinping e Sanae Takaichi deverão se encontrar em novembro, em Shenzhen, durante a reunião da Cooperação Econômica Ásia-Pacífico, a Apec. Até lá, medidas comerciais, exercícios militares e novas alianças poderão reduzir o atrito ou aprofundar uma disputa com potencial para reorganizar o equilíbrio de poder na Ásia.
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