Empresas e receptadores inflavam o mercado legal comprando carga roubada a preços abaixo do custo, revelam investigações em Rondônia e no Paraná.
Um esquema complexo de interceptação e furto de grãos transportados pela hidrovia fluvial do Rio Madeira virou alvo de uma grande ofensiva policial nesta sexta-feira, 28 de agosto. Com o apoio de diversas forças de segurança, as autoridades buscam desmantelar a engrenagem financeira e operacional por trás de centenas de saques a barcaças registrados nos últimos anos.
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Para interromper o fluxo de lavagem de dinheiro e bloquear o patrimônio dos suspeitos, a Justiça determinou o sequestro de bens, veículos, imóveis, embarcações, animais e participações em empresas até o valor de R$ 1,2 milhão. As medidas cautelares e os sete mandados de busca e apreensão domiciliar foram expedidos pela 1ª Vara de Garantias da Comarca de Porto Velho, vinculado ao Tribunal de Justiça de Rondônia. O cerco atinge 29 investigados, incluindo pessoas físicas e jurídicas localizadas em Porto Velho (RO), Ariquemes (RO) e Umuarama (PR).
Estrutura dividida em três núcleos e aval de facção
A operação Piratas do Madeira 2 avança sobre a cadeia de receptação e comercialização do produto furtado. O trabalho investigativo detalha que a organização criminosa agia dividida em três frentes bem definidas. Na ponta inicial estavam os executores, que usavam barcos de pequeno porte para abordar as balsas em trânsito e subtrair as toneladas de grãos.
Em seguida, entravam em cena os atravessadores, responsáveis por adquirir esse lote roubado e dar vazão ao material. Por fim, operava o núcleo dos receptadores, composto por empresários e companhias do segmento agroindustrial. Esse grupo adquiria as mercadorias por quantias muito inferiores às cotações oficiais do mercado.
Para colocar os grãos de volta na circulação comercial sem levantar suspeitas, a quadrilha organizava o ensaque, o armazenamento e o frete de toda a carga. A maquiagem de legalidade era garantida com a emissão de notas fiscais contendo descrições falsas dos itens. Além disso, as apurações constataram que a atuação do bando no Rio Madeira estava sujeita às determinações de uma facção criminosa com domínio sobre os ilícitos da região.
Furtos recorrentes e desdobramento das investigações
O volume de ataques às barcaças expõe a dimensão dos prejuízos no setor de transporte aquaviário. Levantamentos apresentados por empresas que foram vítimas dos saques apontam a ocorrência de 257 furtos ao longo do trecho hidroviário entre os anos de 2022 e 2025.
Esta nova fase representa o desdobramento direto de uma investida iniciada anteriormente. Em junho de 2025, a primeira etapa da Operação Piratas do Madeira focou no grupo de campo, responsável direto por abordar as embarcações e puxar as cargas. Agora, o foco recai sobre a infraestrutura logística, os intermediários e o setor empresarial beneficiado.
Os envolvidos responderão por uma série de infrações graves, que incluem organização criminosa, furto qualificado em continuidade delitiva, receptação qualificada, lavagem de capital e tráfico de drogas.
A ofensiva foi deflagrada pela Força Integrada de Combate ao Crime Organizado em Rondônia (FICCO/RO), composta pela Polícia Federal, Polícia Civil, Polícia Militar, Polícia Penal Estadual e Secretaria Nacional de Políticas Penais (SENAPPEN). A ação contou ainda com o suporte operacional da Polícia Civil de Rondônia, da Superintendência da Polícia Federal no Paraná e do NUFAC/GAECO, do Ministério Público de Rondônia.
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