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O que está por trás do avanço conservador nas eleições de 2026

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Resultado do primeiro turno fortaleceu a direita no Congresso e colocou Flávio Bolsonaro à frente de Lula. Especialistas apontam insatisfação com a política tradicional, insegurança e desejo de mudança entre os eleitores.

O avanço conservador nas eleições de 2026 evidenciou uma mudança na correlação de forças da política brasileira. O primeiro turno, realizado no domingo (4), ampliou a presença de partidos de direita no Congresso Nacional e colocou o senador Flávio Bolsonaro (PL) à frente do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na disputa pelo Palácio do Planalto.

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Segundo os dados divulgados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Flávio Bolsonaro conquistou 47,03% dos votos válidos, enquanto Lula recebeu 45,16%. Os dois candidatos disputarão o segundo turno em 25 de outubro.

Apesar do resultado expressivo da direita, pesquisadores ouvidos pela Deutsche Welle (DW) consideram que o comportamento dos eleitores não representa necessariamente uma transformação ideológica da sociedade brasileira. Para eles, a votação também está relacionada ao desgaste das instituições políticas e à insatisfação com problemas que permanecem sem respostas consideradas satisfatórias pela população.

Questões como criminalidade, corrupção, dificuldades econômicas e desconfiança nas instituições aparecem entre os fatores associados à busca por alternativas políticas.

Insatisfação com a política tradicional impulsiona a direita

Para Guilherme Casarões, professor de Estudos Brasileiros da Universidade Internacional da Flórida, o Brasil mantém características predominantemente conservadoras, mas isso não significa que a maioria da população tenha aderido a posições políticas de extrema direita.

Na avaliação do pesquisador, o desempenho eleitoral dos conservadores reflete um desgaste acumulado do sistema político construído após a redemocratização.

Esse cenário favorece candidatos que conseguem apresentar suas campanhas como alternativas ao funcionamento tradicional da política, mesmo quando possuem vínculos históricos com grupos que já exerceram o poder.

Flávio Bolsonaro explorou esse sentimento em seu pronunciamento após o primeiro turno, colocando a mudança como principal mensagem de sua candidatura.

Para a cientista política Camila Rocha, pesquisadora do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), parte do eleitorado identifica no senador uma possibilidade de renovação, apesar de sua ligação direta com o movimento político liderado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro.

A percepção de novidade, segundo a especialista, pode alcançar inclusive eleitores que demonstram resistência ao bolsonarismo, mas também desejam uma alternativa ao atual governo.

Rejeição ao governo e voto de protesto influenciam resultado

Outro elemento destacado pelos pesquisadores é o peso da rejeição política na escolha dos candidatos.

Para João Feres Júnior, cientista político do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP-UERJ), a crescente desconfiança em relação às instituições favorece discursos que apresentam soluções aparentemente simples para problemas complexos.

Nesse ambiente, a decisão do eleitor nem sempre representa uma identificação com todas as propostas de determinado candidato. Em alguns casos, o voto expressa principalmente oposição a outro grupo político.

Casarões observa que o Partido dos Trabalhadores, por ocupar posição central na política nacional há décadas, acaba se tornando um dos principais alvos desse descontentamento.

A dinâmica também ajuda a compreender a mobilização de eleitores contrários à continuidade do governo Lula.

Análises divulgadas após o primeiro turno apontam ainda o voto útil e a abstenção como fatores relevantes para o resultado presidencial, indicando que o desempenho de Flávio Bolsonaro envolve diferentes motivações eleitorais.

Segurança pública ganha protagonismo no debate eleitoral

A preocupação com a violência é outro fator apontado para explicar o fortalecimento de candidaturas conservadoras.

Na avaliação de Camila Rocha, a presença de organizações criminosas em diferentes territórios e a sensação de insegurança influenciam diretamente a maneira como parte da população avalia os governos.

O tema ganhou espaço nas campanhas de direita, especialmente entre candidatos que defendem medidas mais rígidas contra o crime organizado.

Essa tendência também pode ser observada em outros países da América Latina. Em El Salvador, o presidente Nayib Bukele ganhou projeção internacional com uma política de enfrentamento às organizações criminosas baseada em prisões em massa e ampliação dos poderes de segurança do Estado.

Embora a estratégia seja apresentada por seus apoiadores como um exemplo de combate à criminalidade, organizações como Anistia Internacional e Human Rights Watch denunciam violações de direitos humanos relacionadas às medidas adotadas pelo governo salvadorenho.

Flávio Bolsonaro também procurou se aproximar desse modelo durante a campanha, incluindo um encontro com o ministro da Justiça e Segurança Pública de El Salvador, Gustavo Villatoro.

O movimento demonstra como a segurança pública passou a ocupar posição estratégica na disputa pelo eleitorado brasileiro.

Congresso fortalecido amplia influência conservadora

O resultado das eleições legislativas também representa uma mudança importante na distribuição do poder político.

O Partido Liberal conquistou as maiores bancadas da Câmara dos Deputados e do Senado, ampliando sua capacidade de influência sobre votações, propostas legislativas e decisões relacionadas ao funcionamento das instituições.

Entre as pautas defendidas por setores ligados ao bolsonarismo estão mudanças na composição e no funcionamento do Supremo Tribunal Federal (STF), além de iniciativas que questionam a atuação de ministros da Corte.

O tema ganhou relevância após decisões judiciais relacionadas à tentativa de golpe de Estado de 2022 e às investigações envolvendo aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Para Letícia Cesarino, antropóloga e professora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), a mobilização política em torno do Senado e do STF integrou uma estratégia mais ampla de fortalecimento do bolsonarismo.

Segundo a pesquisadora, as redes sociais tiveram participação relevante na circulação dessas mensagens, ampliando o alcance de discursos críticos ao Judiciário.

A pressão sobre o Supremo também se intensificou em meio às controvérsias envolvendo o Banco Master, que ampliaram o debate público sobre a atuação de integrantes do tribunal.

Influência internacional e mobilização nas redes sociais

O fortalecimento da direita brasileira também ocorre em um contexto internacional marcado pelo avanço de movimentos conservadores e nacionalistas.

A vitória de Donald Trump nas eleições presidenciais dos Estados Unidos, em novembro de 2024, reforçou a projeção política de grupos alinhados ao republicano em diferentes países.

No Brasil, o bolsonarismo mantém proximidade ideológica com Trump, principalmente em temas relacionados à segurança pública, imigração, valores conservadores e críticas a setores do sistema político tradicional.

As plataformas digitais contribuem para essa articulação ao facilitar a circulação de conteúdos políticos e a mobilização de apoiadores.

Para os especialistas, entretanto, a influência internacional não explica isoladamente o resultado das urnas brasileiras. Questões internas, como o desempenho dos governos, a percepção da economia e a preocupação com a violência, continuam sendo fundamentais para compreender o comportamento eleitoral.

Resultado das urnas não significa adesão a uma única ideologia

Embora a direita tenha ampliado sua representação política, os pesquisadores destacam que os votos recebidos por candidatos conservadores não podem ser interpretados como apoio automático a todas as posições defendidas por esses grupos.

Parte do eleitorado pode estar motivada por insatisfação econômica, rejeição ao governo, preocupação com a criminalidade ou expectativa de renovação.

Essa diversidade de motivações também representa um desafio para os candidatos que chegaram ao segundo turno.

Enquanto Flávio Bolsonaro busca transformar a vantagem inicial em vitória, Lula tenta recuperar a confiança de eleitores e ampliar sua base de apoio.

Independentemente do resultado da disputa presidencial em 25 de outubro, a nova composição do Congresso indica que as forças conservadoras terão participação significativa nas decisões políticas do país a partir de 2027.

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