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WhatsApp ganha força nas eleições e amplia risco de fake news

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Mensagens compartilhadas por familiares e amigos podem influenciar o voto mais do que a propaganda tradicional, mas a confiança entre conhecidos também facilita a circulação de desinformação.

O WhatsApp se consolidou como uma das principais ferramentas de comunicação política no Brasil e ganhou ainda mais importância nas eleições de 2026. Presente nas conversas entre familiares, amigos e colegas de trabalho, o aplicativo permite que conteúdos eleitorais circulem rapidamente, muitas vezes com maior credibilidade do que a propaganda oficial dos candidatos.

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Vídeos, memes, pesquisas eleitorais e mensagens de apoio ou críticas a políticos são compartilhados diariamente em grupos privados. Nesse ambiente, o eleitor deixa de ser apenas receptor das campanhas e passa também a atuar como divulgador de informações, mesmo sem participar diretamente de atividades partidárias.

A força dessa comunicação está principalmente na confiança entre as pessoas. Uma mensagem enviada por um familiar ou amigo pode ser recebida de maneira diferente de uma peça publicitária produzida por uma campanha eleitoral.

Segundo o especialista em ciências políticas e comunicação digital João Paulo Borges, a relação pessoal interfere na forma como o eleitor interpreta o conteúdo.

Quando a informação chega por meio da propaganda oficial, o cidadão reconhece imediatamente o interesse eleitoral. Já uma mensagem encaminhada por alguém próximo tende a ser analisada também com base na confiança depositada naquela pessoa.

Grupos de WhatsApp podem fortalecer bolhas políticas

Diferentemente de plataformas como Instagram e TikTok, nas quais os conteúdos geralmente são associados a perfis públicos, o WhatsApp mistura discussões políticas com conversas do cotidiano.

Uma notícia sobre determinado candidato pode aparecer em um grupo de família, enquanto uma pesquisa eleitoral é compartilhada entre colegas de trabalho. Nem sempre existe uma intenção organizada de fazer campanha. Muitas pessoas encaminham mensagens simplesmente porque concordam com elas ou acreditam estar ajudando outras pessoas a se informar.

Esse comportamento, entretanto, pode contribuir para a formação de bolhas políticas.

Quando os participantes de um grupo compartilham predominantemente conteúdos que reforçam suas próprias opiniões, o ambiente tende a oferecer menos espaço para interpretações diferentes dos acontecimentos.

A cientista política Daniela Costanzo, do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), explica que esses espaços fazem parte de um processo de microssegmentação da comunicação digital.

Na prática, grupos com posicionamentos semelhantes podem intensificar a polarização, fortalecer convicções preexistentes e dificultar o diálogo entre pessoas com opiniões políticas diferentes.

Confiança entre conhecidos facilita circulação de notícias falsas

A mesma característica que torna o WhatsApp eficiente para a comunicação eleitoral também representa um desafio no combate à desinformação.

Mensagens encaminhadas por pessoas próximas podem receber menos questionamentos, mesmo quando apresentam informações incorretas, incompletas ou descontextualizadas.

Um estudo do NetLab, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), analisou 115,3 mil mensagens publicadas em grupos públicos do WhatsApp durante o primeiro turno das eleições de 2022. O levantamento também examinou 180,9 mil mensagens de grupos e canais públicos do Telegram.

A pesquisa identificou estratégias de circulação de conteúdos políticos e narrativas segmentadas, além de elementos importantes para compreender a disseminação de desinformação nos aplicativos.

Outro fator que dificulta o enfrentamento das notícias falsas é o receio de contrariar amigos e familiares.

De acordo com João Paulo Borges, divergências políticas podem provocar desconforto em grupos de convivência. Em determinadas situações, participantes preferem evitar discussões, permanecer em silêncio ou abandonar as conversas para preservar relações pessoais.

Fake news eleitorais estão cada vez mais sofisticadas

A desinformação política não depende apenas de notícias completamente inventadas. Muitas vezes, conteúdos verdadeiros são apresentados fora de contexto para provocar interpretações equivocadas.

Uma declaração antiga pode voltar a circular como se tivesse sido feita recentemente. Um vídeo autêntico pode receber uma legenda enganosa, enquanto resultados de pesquisas eleitorais podem ser compartilhados sem informações sobre metodologia, período de realização ou margem de erro.

Nas eleições de 2026, mensagens falsas sobre candidatos, pesquisas e funcionamento do processo eleitoral também passaram a circular nos aplicativos.

A estratégia costuma explorar sentimentos como medo, indignação e surpresa, aumentando as chances de compartilhamento.

O especialista em tecnologia e inovação Arthur Igreja destaca que o enfrentamento desse tipo de conteúdo se torna mais difícil quando os usuários deixam de confiar nas fontes responsáveis pelas verificações.

Nesse cenário, uma informação corrigida por um veículo de comunicação ou por uma instituição oficial pode ser rejeitada simplesmente porque contraria as convicções predominantes em determinado grupo.

Eleições de 2018 marcaram avanço do WhatsApp na política

Embora os aplicativos de mensagens já fossem utilizados anteriormente nas campanhas eleitorais, a eleição presidencial de 2018 representou um marco na comunicação política brasileira.

Naquele pleito, Jair Bolsonaro utilizou intensamente as plataformas digitais para alcançar eleitores, enquanto dispunha de pouco tempo na propaganda eleitoral de televisão.

O crescimento da influência das redes sociais foi identificado em levantamento do Instituto DataSenado, divulgado em dezembro de 2019.

Segundo a pesquisa, 45% dos entrevistados afirmaram ter levado em consideração informações recebidas pelas redes sociais na decisão do voto.

Entre os 2,4 mil participantes, 79% declararam utilizar sempre o WhatsApp como fonte de informação, enquanto 50% mencionaram a televisão e 49% o YouTube. Os dados se referem ao período da pesquisa e não devem ser interpretados como percentuais atuais de utilização das plataformas.

Para o cientista político Leonardo Avritzer, a influência dessas ferramentas está relacionada aos diferentes níveis de confiança existentes na sociedade brasileira.

Enquanto instituições políticas enfrentam resistência de parte da população, amigos e familiares costumam ocupar uma posição de maior credibilidade nas relações pessoais.

Isso ajuda a explicar por que uma mensagem política compartilhada em um grupo privado pode influenciar a percepção de um eleitor.

TSE estabelece limites para propaganda eleitoral no WhatsApp

Com a expansão da comunicação política nos aplicativos, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) passou a intensificar a fiscalização de práticas irregulares na internet.

As regras para 2026 estabelecem diferenças entre manifestações individuais, compartilhamentos privados e ações organizadas de propaganda eleitoral.

De acordo com a Resolução nº 23.755/2026, mensagens enviadas consensualmente por pessoas físicas, em conversas privadas ou grupos restritos, recebem tratamento diferente daquele aplicado à propaganda eleitoral em outros ambientes digitais.

Tribunal Superior Eleitoral

Isso não significa que os aplicativos estejam livres de responsabilização. A divulgação de conteúdos ilícitos, o uso irregular de estruturas de campanha e outras práticas proibidas podem provocar medidas da Justiça Eleitoral.

O assunto ganhou destaque no segundo turno das eleições presidenciais de 2026, após decisões envolvendo o canal “Exército do Lula”, criado pelo deputado André Janones para mobilizar apoiadores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

O canal chegou a ser suspenso por determinação do presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, e teve seu funcionamento autorizado após o registro oficial pela campanha eleitoral. A decisão também estabeleceu medidas de acompanhamento dos conteúdos divulgados.

O episódio reforçou o debate sobre os limites entre a livre manifestação política, a propaganda eleitoral organizada e o combate à desinformação.

Eleitor deve verificar mensagens antes de compartilhar

Especialistas avaliam que a fiscalização das plataformas e a atuação da Justiça Eleitoral são importantes, mas não substituem a responsabilidade dos próprios usuários.

Antes de encaminhar uma notícia, vídeo ou pesquisa eleitoral, é recomendável identificar a origem do material, verificar a data de publicação e procurar confirmação em fontes confiáveis.

Mensagens acompanhadas de expressões como “compartilhe urgentemente”, “a imprensa está escondendo” ou “envie antes que apaguem” devem receber atenção especial.

No caso das pesquisas eleitorais, o eleitor também precisa observar informações como instituto responsável, data de realização, metodologia e registro na Justiça Eleitoral, quando exigido.

Outro cuidado envolve vídeos e imagens produzidos ou manipulados por inteligência artificial, capazes de simular declarações e situações que nunca aconteceram.

Para João Paulo Borges, um dos maiores desafios é superar a resistência emocional de corrigir uma informação compartilhada por alguém próximo.

A combinação entre confiança pessoal, velocidade de circulação e dificuldade de verificação transformou o WhatsApp em um dos ambientes mais influentes das campanhas eleitorais brasileiras.

Ao mesmo tempo, tornou a capacidade de identificar informações falsas uma ferramenta essencial para o exercício consciente do voto.

*Com informações da Deutsche Welle (DW), DataSenado, NetLab/UFRJ e Tribunal Superior Eleitoral.

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