Decisão de Paris marca oposição final ao tratado comercial, mas apoio da Itália e de outros membros do bloco deve garantir aprovação histórica em Bruxelas.
O Acordo Mercosul chegou a um momento decisivo em Bruxelas. O presidente francês, Emmanuel Macron, confirmou nesta quinta-feira, por meio da rede social X, que a França votará oficialmente contra o tratado comercial entre a União Europeia e o bloco sul-americano. A votação, agendada para esta sexta-feira, desenha-se como um cenário de alto risco diplomático para Paris, uma vez que uma maioria qualificada dos Estados-membros sinaliza apoio à ratificação do documento, o que pode resultar em uma derrota significativa para a estratégia francesa.
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Após meses de articulação nos bastidores para tentar construir uma minoria de bloqueio capaz de travar o Acordo Mercosul, a França vê as suas opções se esgotarem. A estratégia de Macron dependia do apoio de países como Polônia, Hungria, Irlanda e Áustria, mas a mudança de postura da Itália, que agora tende a votar a favor, desequilibrou a balança a favor dos defensores do tratado, liderados pela Alemanha e pela Espanha.
Argumentos de Macron contra o tratado
Em sua declaração pública, Macron reiterou críticas antigas ao texto, classificando o Acordo Mercosul como um pacto “de outra era”, negociado ao longo de 25 anos sobre bases que ele considera ultrapassadas. Para o líder francês, os benefícios econômicos projetados seriam limitados para o crescimento da França e da Europa, não compensando os riscos envolvidos.
“A França decidiu votar contra a assinatura do acordo entre a União Europeia e os países do Mercosul”, publicou Macron. Ele enfatizou que a aprovação do texto, nos moldes atuais, não justifica a exposição de setores agrícolas sensíveis, considerados essenciais para a soberania alimentar francesa. A pressão interna dos agricultores franceses, que temem a concorrência de produtos latino-americanos, continua sendo o principal motor da resistência do Palácio do Eliseu.
O fracasso da minoria de bloqueio
O Acordo Mercosul foi finalizado tecnicamente em dezembro de 2024 pela presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, em conjunto com líderes de Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai. O objetivo é ambicioso, visando criar uma das maiores áreas de livre comércio do mundo, abrangendo cerca de 700 milhões de pessoas nos dois lados do Atlântico. No entanto, a França manteve-se como a principal voz dissonante em todas as etapas recentes.
Nas últimas semanas, a diplomacia francesa intensificou os esforços para reunir votos suficientes no Conselho da UE para impedir a aprovação. No entanto, a Comissão Europeia realizou uma série de concessões estratégicas para garantir o “Sim”. Entre as medidas para acalmar os ânimos, foram incluídos o reforço das salvaguardas para monitorar possíveis perturbações no mercado agrícola europeu e a promessa de pagamentos antecipados em dinheiro aos agricultores.
Essas negociações parecem ter sido fundamentais para garantir o apoio da Itália. Roma, que havia manifestado reservas anteriormente, agora inclina-se para o grupo dos apoiadores, o que isola a posição francesa. Se a maioria qualificada confirmar a aprovação na reunião dos embaixadores em Bruxelas, será a primeira vez que a França sofrerá uma derrota desta magnitude no Conselho em um tema comercial tão sensível.
Tensões geoeconômicas e o futuro do bloco
Enquanto a França foca na proteção de seu setor agrícola, os defensores do Acordo Mercosul, especialmente Berlim e Madri, argumentam sob uma lógica geopolítica e econômica global. Em um cenário de crescentes tensões comerciais e competição com potências como a China, a abertura de novos mercados de exportação na América do Sul é vista como vital para a indústria europeia.
A assinatura do tratado havia sido adiada após a cúpula da UE no mês passado, justamente devido às hesitações de Itália e França. A Comissão Europeia, contudo, manteve o cronograma, sugerindo que as arestas seriam aparadas para uma assinatura definitiva em janeiro.
A votação desta sexta-feira serve como o aval definitivo dos Estados-membros, abrindo caminho para a assinatura oficial prevista para ocorrer ainda neste mês. Este momento não apenas define o futuro das relações transatlânticas, mas também testa a liderança de Macron dentro do bloco europeu. Uma aprovação do tratado à revelia de Paris representaria um golpe duro para o presidente francês, que já enfrenta uma crise política doméstica profunda. Resta saber como a diplomacia francesa reagirá caso o Acordo Mercosul receba o sinal verde em Bruxelas, consolidando o passo final para a formalização desta nova realidade econômica entre os dois continentes.
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