ONGs denunciam uso de força letal em 31 províncias; crise econômica e política motiva maiores manifestações desde 2022.
A crise sociopolítica no Irã atingiu um novo patamar de tensão nesta quinta-feira (08/01). Em resposta a uma onda de protestos que se espalhou por todas as 31 províncias do país, o regime iraniano intensificou as medidas de repressão, decretando um “apagão nacional” da internet e o cancelamento de voos, isolando o país em uma tentativa de conter a mobilização popular e o fluxo de informações.
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Organizações de direitos humanos relatam que as forças de segurança utilizaram munição letal contra civis, resultando em dezenas de mortes. O cenário de instabilidade ocorre em meio a uma grave crise econômica e aos esforços de recuperação do país após o conflito com Israel em junho do ano passado.
Escalada da violência e apagão informativo
Segundo a organização Iran Human Rights (IHR), sediada na Noruega, pelo menos 45 manifestantes foram mortos pelas forças de segurança, incluindo oito menores de idade. A entidade classificou a última quarta-feira como o dia mais sangrento desde o início dos atos, com 13 mortes confirmadas.
“As evidências mostram que a repressão se torna mais violenta e mais abrangente a cada dia”, alertou Mahmood Amiry-Moghaddam, diretor da IHR. Relatos apontam que hospitais foram invadidos por agentes estatais para deter feridos, e mais de 2.000 pessoas já foram presas.
Para dificultar a organização dos manifestantes e a divulgação de imagens da violência, o governo impôs severas restrições digitais. A organização de monitoramento Netblocks confirmou que o Irã está em meio a um “apagão nacional da internet”, enquanto dados da Cloudflare indicaram uma queda de 90% no tráfego da web durante a noite.
Além do bloqueio digital, o isolamento físico também foi ampliado. Autoridades aeronáuticas determinaram o cancelamento de voos, afetando a mobilidade interna e as conexões internacionais, uma medida estratégica para controlar o deslocamento de opositores e blindar a capital, Teerã, onde grandes concentrações foram registradas, como no Boulevard Aiatolá Kashani.
Raízes econômicas e abrangência nacional
Diferente de levantes anteriores focados em pautas de costumes, a atual onda de protestos tem forte motivação econômica. O estopim foi o fechamento de um mercado popular em Teerã, em 28 de dezembro, após a moeda nacional, o rial, atingir mínimas históricas. A desvalorização acentuada é reflexo de anos de sanções internacionais e dos custos da recente guerra.
A agência de notícias independente Human Rights Activists News Agency (Hrana) registrou manifestações em 348 locais espalhados pelo país. Cidades estratégicas como Tabriz (noroeste) e Bandar Abbas (centro da indústria petrolífera) amanheceram com comércios e bazares fechados, atendendo a convocações de greve geral.
Reações internas e pressão internacional
A resposta do governo iraniano expõe divisões na retórica oficial. Enquanto o presidente Masoud Pezeshkian pediu “máxima contenção” e diferenciou manifestantes legítimos de “desordeiros”, o chefe do Judiciário, Gholamhosein Mohseni Ejei, adotou tom linha-dura, afirmando que “não haverá clemência”.
No cenário internacional, a repressão gerou condenações imediatas:
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Alemanha: O ministro do Exterior, Johann Wadephul, criticou o “uso excessivo da força”.
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EUA: O presidente Donald Trump ameaçou “atingir com muita força” o Irã caso as autoridades continuem a matar civis, elevando a tensão diplomática.
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ONU: Entidades de direitos humanos cobram uma ação decisiva da comunidade internacional para evitar um massacre.
A oposição no exílio, liderada por Reza Pahlavi, filho do xá deposto em 1979, segue convocando a população às ruas, alertando que o corte de comunicações é um prenúncio de maior violência estatal.
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