InícioAmazôniaMeio AmbienteBrasil ainda transforma poucas plantas medicinais em medicamentos

Brasil ainda transforma poucas plantas medicinais em medicamentos

Publicado em

Publicidade

País reúne biodiversidade, conhecimento tradicional e produção científica, mas ainda enfrenta dificuldades para converter pesquisas em patentes, medicamentos e produtos de maior valor agregado.

O Brasil reúne algumas das condições consideradas essenciais para desenvolver uma indústria farmacêutica baseada em plantas medicinais: grande biodiversidade, tradição no uso de espécies vegetais e uma comunidade científica com produção de alcance internacional. Mesmo assim, a transformação desse patrimônio em medicamentos inovadores, patentes e tecnologias disponíveis no mercado ainda ocorre em escala limitada.

📲Quer receber notícias direto no celular? Entre no nosso grupo no WhatsApp.

O contraste aparece na própria produção acadêmica. Uma revisão realizada por pesquisadores brasileiros aponta que o país publicou cerca de 63 mil artigos científicos sobre plantas nos últimos dez anos. O volume de conhecimento gerado, porém, não encontra correspondência na quantidade de produtos farmacêuticos desenvolvidos a partir da biodiversidade nacional.

Entre 20 fitoterápicos registrados na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) analisados pela equipe em 2016 e 2026, apenas três foram desenvolvidos no Brasil: Acheflan®, Melagrião® e Sintocalmy®. Os demais têm origem em plantas importadas, principalmente da Europa e da Ásia.

Plantas medicinais revelam distância entre pesquisa e mercado

Os três medicamentos brasileiros tiveram estudos pré-clínicos desenvolvidos pelo grupo responsável pela análise. O Acheflan® utiliza folhas da Cordia verbenacea, o Melagrião® é baseado na Mikania glomerata, conhecida como guaco, e o Sintocalmy® utiliza Passiflora incarnata.

Os casos mostram que pesquisas com plantas podem resultar em produtos comercialmente disponíveis com comprovação científica de eficácia e segurança. Ainda assim, permanecem como exceções diante da dimensão da biodiversidade brasileira e da quantidade de estudos realizados no país.

Outro exemplo conhecido de contribuição brasileira para o desenvolvimento farmacêutico está no captopril®, utilizado contra a hipertensão arterial. O medicamento tem sua origem ligada aos estudos pioneiros do professor Sérgio Henrique Ferreira, que atuava na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, da USP, com o veneno da jararaca Bothrops jararaca. As pesquisas contribuíram para compreender mecanismos relacionados à hipertensão e para o desenvolvimento dos inibidores da enzima conversora de angiotensina.

A dificuldade de converter ciência em inovação também aparece no campo da propriedade intelectual. Uma revisão sobre patentes de medicamentos derivados de plantas medicinais brasileiras identificou 25 pedidos envolvendo espécies nativas entre 2003 e 2008. A maior parte das invenções havia surgido em universidades e centros de pesquisa brasileiros, mas os depósitos não se transformaram em produtos, principalmente pela ausência de parcerias com a indústria.

Regulação e financiamento estão entre os desafios

O país possui políticas públicas relacionadas a plantas medicinais e fitoterápicos desde 2006, além de universidades, institutos de pesquisa, empresas farmacêuticas, centros tecnológicos, agências de financiamento e uma agência reguladora estruturada. O desafio apontado é conectar esses elementos dentro de uma estratégia contínua.

O marco regulatório também integra essa estrutura. A Lei nº 13.123/2015 definiu regras para o acesso ao patrimônio genético, ao conhecimento tradicional associado e à exploração econômica de produtos derivados, incluindo mecanismos de repartição de benefícios.

A questão central é conciliar a proteção da biodiversidade e os direitos das comunidades detentoras de conhecimentos tradicionais com condições que permitam pesquisa, desenvolvimento tecnológico e inovação. O financiamento também precisa acompanhar todas as etapas, da descoberta e dos estudos pré-clínicos e clínicos ao registro na Anvisa, escalonamento, transferência de tecnologia, produção industrial e chegada ao mercado.

Estratégia chinesa integra ciência e indústria

A China é apontada como exemplo de uma política de longo prazo capaz de aproximar conhecimento tradicional, ciência e desenvolvimento industrial. Em março de 2025, o Escritório Geral do Conselho de Estado chinês publicou uma política voltada à melhoria da qualidade dos medicamentos tradicionais e ao desenvolvimento da indústria.

A estratégia inclui proteção de espécies medicinais, bancos de dados sobre recursos biológicos, tecnologias de cultivo e reprodução, melhoria de sementes e mudas, padronização, controle de qualidade e rastreabilidade. Na indústria, prevê modernização de fábricas e incorporação de tecnologias digitais e inteligentes.

Também estabelece integração entre universidades, instituições de pesquisa e empresas, com apoio à pesquisa básica e aplicada, ciência regulatória, validação em escala-piloto e industrialização. A propriedade intelectual envolve patentes, marcas, indicações geográficas, variedades vegetais, segredos tecnológicos e proteção do conhecimento tradicional. Instrumentos financeiros, crédito e seguros também fazem parte da política.

Um artigo publicado na Nature Medicine destaca ainda a combinação de ensaios clínicos, estudos de efetividade comparativa e dados do mundo real com ferramentas como inteligência artificial, genômica, proteômica e análise de grandes bases de dados para avaliar terapias baseadas em plantas. Experiências chinesas e indianas são apresentadas como exemplos da necessidade de integrar diferentes etapas da inovação.

Biodiversidade pode sustentar nova cadeia tecnológica

O potencial brasileiro é amplo. Estimativas citadas apontam que aproximadamente 20% das espécies conhecidas no mundo ocorrem no território nacional, que possui entre 45 mil e 50 mil espécies conhecidas de plantas e fungos distribuídas pelos seis grandes biomas terrestres e por ecossistemas costeiros e marinhos.

A diversidade biológica se soma aos conhecimentos desenvolvidos por povos indígenas, comunidades tradicionais e populações rurais sobre propriedades e usos de plantas e outros organismos.

Produtos naturais já possuem papel relevante no desenvolvimento farmacêutico. Estima-se que cerca de 35% a 40% dos medicamentos tenham alguma relação com eles. Para que o Brasil amplie sua participação nesse campo, a proposta é tratar a biodiversidade também como infraestrutura estratégica para ciência, tecnologia, saúde e bioeconomia, com utilização sustentável e repartição de benefícios.

A avaliação é de que o país já dispõe de biodiversidade, conhecimento tradicional e competência científica, mas precisa de uma política de Estado que conecte essas vantagens à inovação tecnológica. Nesse processo, uma parceria estratégica com a China é apontada como possibilidade para impulsionar a bioeconomia brasileira.

Leia mais:
Semaglutida é associada a menor risco de internação no transtorno bipolar
Anvisa aprova segundo genérico de semaglutida e preço pode ser 35% menor
Estudo aponta semaglutida como possível tratamento para dependência de álcool

Siga nosso perfil no InstagramTiktok e curta nossa página no Facebook

spot_img

Últimas Notícias

IA na saúde usa voz para identificar sinais de doenças na Mayo Clinic

Sistema desenvolvido nos Estados Unidos analisa mudanças sutis na fala, enquanto projeto da USP...

Roberto Cidade defende concursos, qualificação técnica e novas matrizes para gerar empregos no Amazonas

Em sabatina, candidato propôs alinhamento de UEA e Cetam ao mercado, valorização do Polo...

Pílulas do Poder: Candidatos à Presidência ignoram crise climática

A menos de um mês do primeiro turno, a maioria dos presidenciáveis trata a...

Fundação Dr. Thomas abre 40 vagas com salários de até R$ 4,6 mil em Manaus

Processo seletivo oferece oportunidades para profissionais de enfermagem e fisioterapia, com inscrições gratuitas até...

Mais como este

Operação Gota leva vacinação a 22 aldeias no Amazonas na última etapa de 2026

Missão pretende aplicar 2,3 mil doses em comunidades indígenas de Lábrea, Canutama e Tapauá...

PF e Ibama combatem garimpo ilegal em terras indígenas de Rondônia

Fiscalização atingiu pontos de exploração nas Terras Indígenas Roosevelt e Parque do Aripuanã, em...

Ibama fixa meta de reduzir desmatamento na Amazônia em 75% até 2027

Diretrizes também estabelecem redução de áreas queimadas, recuperação de vegetação nativa e corte no...