Crianças ucranianas que vivem sob a ocupação russa enfrentam uma nova e perturbadora realidade: a militarização forçada. Em escolas de regiões como Kherson e Donetsk, o ambiente educacional tem sido transformado em campo de recrutamento para a “Yunarmiya” (ou Exército Jovem), um movimento juvenil patriótico-militar russo. Enquanto alguns alunos recebem uniformes, medalhas e tratamento privilegiado, aqueles que recusam a adesão sofrem segregação e penalidades acadêmicas, em um esforço sistemático de Moscou para moldar a próxima geração de combatentes contra a sua própria nação de origem.
A estratégia vai muito além de simples atividades extracurriculares. Relatos indicam que a organização, fundada em 2016 pelo então ministro da Defesa russo, Serguéi Shoigú, já conta com cerca de 1,8 milhões de membros, incluindo 43.000 menores apenas nos territórios ocupados da Ucrânia. O objetivo, segundo Vladislav Golovin, líder da Yunarmiya e veterano do cerco a Mariupol, é inculcar a “presença da Rússia em cada passo” da vida dessas crianças. A doutrinação inclui beijar a bandeira russa, cantar o hino nacional e a instrução direta de que, se a Ucrânia atacar, eles devem pegar em armas para defender a Rússia, independentemente da idade.
O cotidiano de segregação e o alistamento de crianças ucranianas
Nas escolas ocupadas, a pressão para integrar as fileiras russas é palpável. Serhiy, um estudante de 12 anos que viveu três anos sob ocupação antes de fugir para o território controlado por Kiev, relatou à BBC a discriminação sofrida. Segundo ele, os membros da Yunarmiya recebiam as melhores notas — mesmo sem saber a matéria — e desfrutavam de refeições superiores em refeitórios separados. A recusa em participar resultava em punições e notas baixas.
Estima-se que metade dos antigos colegas de Serhiy estejam agora inscritos em programas militarizados. Além da Yunarmiya, existem classes de cadetes geridas pelo Comitê de Investigação da Rússia e unidades supervisionadas pela Rosgvardiya. O currículo foi alterado para retratar a Ucrânia como um estado “neonazi” e negar sua existência histórica como nação soberana. Fora das salas de aula, a pressão recai sobre os pais: escolas ameaçam com multas e restrição de acesso a serviços básicos caso as famílias não matriculem seus filhos nas “classes de Yunarmiya”.

A preparação para o combate é prática e intensa. Entre janeiro e agosto de 2025, mais de 1.200 eventos foram organizados apenas na região de Donetsk. Nestes encontros, crianças ucranianas aprendem a manusear metralhadoras, lançadores de chamas, granadas e a pilotar drones. Há também treinamento em táticas de engenharia militar, medicina de guerra e hacking de sistemas de satélite. Competições como a “Zarnitsa 2.0” simulam condições reais de combate, preparando física e psicologicamente os jovens para a guerra.
Violações do direito internacional e a resposta global
O recrutamento de menores por uma força de ocupação levanta graves questões de direitos humanos. O direito internacional e as convenções de Genebra proíbem explicitamente o recrutamento de crianças e a conscrição de habitantes de territórios ocupados para lutar contra seu próprio país. A Ucrânia e organismos internacionais acusam a Rússia de crimes de guerra. O Tribunal Penal Internacional (TPI) já emitiu ordens de prisão contra Vladimir Putin e Maria Lvova-Belova por deportação ilegal de crianças.
Autoridades ucranianas estimam que quase 20.000 crianças foram deportadas para a Rússia, onde muitas passam por “campos de reeducação”. Embora Moscou alegue que as transferências são medidas de proteção humanitária, investigações da Escola de Saúde Pública de Yale identificaram mais de 200 centros dedicados a esse fim, sendo que 20% focam exclusivamente em treino militar.
A tragédia final desta política é que jovens ucranianos, ao atingirem a maioridade (e às vezes antes), estão sendo enviados para a frente de batalha. A inteligência militar de Kiev reportou novas rodadas de serviço militar obrigatório nos territórios ocupados no final de 2024, confirmando o temor de que ucranianos estão morrendo forçados a lutar contra a sua própria pátria. Enquanto ativistas denunciam a estratégia como uma tentativa de erradicar a identidade ucraniana futura, a comunidade internacional busca, através de mediações, repatriar estes jovens antes que sejam enviados ao front.
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