A Cúpula do Mercosul realizada neste sábado (20/12), em Foz do Iguaçu, terminou sob um clima de frustração diplomática. O evento, cuja data e local foram estrategicamente planejados para celebrar a assinatura do acordo de livre comércio com a União Europeia (UE), encerrou-se sem a concretização do tratado. A nova previsão para a assinatura foi postergada para o dia 12 de janeiro.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva esteve acompanhado dos chefes de Estado da Argentina, Javier Milei, do Uruguai, Yamandú Orsi, e do Paraguai, Santiago Peña, que assumiu a presidência temporária do bloco. O evento também contou com representantes da Bolívia, o mais novo membro do grupo, e de países associados.
Além do adiamento do tratado com os europeus, o encontro evidenciou o distanciamento ideológico entre os líderes das duas maiores economias do bloco. A divergência ficou clara durante as discussões sobre a crise na Venezuela, que enfrenta um cerco militar dos Estados Unidos.
Tensão política e a questão venezuelana
O cenário político sul-americano expôs suas fraturas durante os discursos oficiais. Lula alertou que uma eventual intervenção armada na Venezuela representaria uma “catástrofe humanitária” para o hemisfério e abriria um precedente perigoso globalmente.
Em contrapartida, Javier Milei, aliado próximo do presidente norte-americano Donald Trump, classificou o governo venezuelano como uma “ditadura atroz”. O presidente argentino declarou apoio às pressões exercidas pelos Estados Unidos para a mudança de regime no país vizinho. A declaração final da cúpula optou por não mencionar a situação da Venezuela, que permanece suspensa do bloco desde 2017 devido ao descumprimento da cláusula democrática.
O clima já estava acirrado desde a semana anterior, quando Milei compartilhou uma publicação nas redes sociais comparando países governados pela esquerda a favelas e os governados pela direita a cidades futuristas.
Impactos econômicos e o futuro da indústria
Diante do impasse com a União Europeia, analistas avaliam os riscos para a economia brasileira. Segundo Vinícius Vieira, professor de relações internacionais da FAAP, o agronegócio não deve sofrer grandes impactos imediatos, visto que o setor já possui forte consolidação nos mercados asiáticos. As resistências ao acordo partem, notadamente, de países como França, Polônia e Itália.
A indústria nacional, contudo, pode ser a maior prejudicada a longo prazo. O acordo é visto como uma porta de entrada para investimentos estrangeiros e inserção em cadeias globais de valor. Projeções do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio indicam que o setor industrial seria o mais beneficiado em um horizonte de 20 anos, com um potencial aumento de 26,6% nas exportações para a UE.
Para Vieira, a concretização do tratado também serviria para reduzir a dependência excessiva do mercado chinês e funcionaria como uma proteção contra possíveis medidas protecionistas dos Estados Unidos.
Busca por novos mercados e integração
Apesar das divergências políticas, há consenso sobre a necessidade de expandir as fronteiras comerciais. Pedro Brites, professor da FGV, aponta que o bloco deve seguir buscando acordos pragmáticos.
Recentemente, o Mercosul firmou tratado com Singapura e com os países da EFTA (Islândia, Liechtenstein, Noruega e Suíça). A embaixadora Gisela Padovan, do Itamaraty, confirmou que negociações com os Emirados Árabes estão avançadas e que há conversas em andamento com Canadá, Índia, Japão, Indonésia e Vietnã. O mercado japonês, inclusive, pode estar próximo de se abrir para a carne bovina brasileira.
No âmbito interno, o desafio permanece sendo a baixa integração. O comércio entre os países do bloco representa apenas 11% do total transacionado na região, um número baixo se comparado aos 61% da União Europeia.
Como medida concreta do encontro, foi aprovada a criação de uma comissão para o combate ao crime organizado transnacional, integrando os ministérios da Justiça e Segurança Pública dos países-membros.
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