Washington classifica suposta facção como organização terrorista, enquanto analistas apontam falta de evidências sobre existência de um cartel estruturado
O Cartel de los Soles voltou ao centro das tensões diplomáticas entre Estados Unidos e Venezuela após o governo norte-americano incluir oficialmente o grupo em sua lista de “organizações terroristas estrangeiras”. Segundo Washington, a suposta facção, que teria ligação direta com o presidente venezuelano Nicolás Maduro, seria responsável por violência regional e por apoiar esquemas de tráfico de drogas que operam em diversos países da América Latina.
A designação amplia um conjunto de sanções impostas pelos EUA ao longo dos últimos anos e intensifica a pressão sobre o regime chavista, acusado por Washington de facilitar operações de narcotráfico e de manter laços com organizações criminosas internacionais. No entanto, especialistas e analistas independentes demonstram ceticismo sobre a existência de um cartel estruturado, afirmando que o termo “Cartel de los Soles” se refere, na prática, a um sistema difuso de corrupção envolvendo militares e políticos venezuelanos e não a uma organização hierarquizada.
Como os EUA descrevem o Cartel de los Soles
A ofensiva mais recente ocorreu em novembro de 2025, quando o Departamento de Estado dos EUA classificou o Cartel de los Soles como uma organização terrorista estrangeira e “narcoterrorista”. De acordo com o governo norte-americano, o grupo forneceria apoio logístico e material a outras facções criminosas da região, como o Tren de Aragua e o Cartel de Sinaloa, além de facilitar o transporte de drogas da Colômbia para os EUA e Europa.
O Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros (OFAC) afirma que o cartel atua liberando rotas de transporte e oferecendo proteção estatal a narcotraficantes, garantindo passagem segura por territórios controlados por militares venezuelanos. Essa rede também incluiria operações de lavagem de dinheiro.
A administração Trump já havia movido ações semelhantes em anos anteriores. Em 2020, o Departamento de Justiça acusou Maduro e outros 14 membros do alto escalão venezuelano de narcoterrorismo, alegando que eles seriam líderes e operadores do cartel. Em julho de 2025, o Tesouro dos EUA classificou o grupo como organização terrorista global, e, pouco depois, Washington aumentou a recompensa por informações que levassem à prisão de Maduro para US$ 50 milhões.
Governos aliados aos EUA na América Latina também seguem essa linha. O presidente do Equador, Daniel Noboa, por exemplo, designou recentemente o suposto cartel como grupo terrorista.
Como o regime venezuelano reage às acusações
Maduro e seu núcleo político negam veementemente que o Cartel de los Soles exista como organização criminosa estruturada. O regime acusa Washington de construir uma narrativa para justificar ações mais duras contra Caracas, semelhante a outras tentativas históricas de mudança de regime promovidas pelos EUA.
O ministro das Relações Exteriores da Venezuela, Yván Gil, classificou a designação norte-americana como uma “invenção ridícula” e uma “mentira infame” criada para justificar uma intervenção ilegítima no país. O ministro do Interior, Diosdado Cabello, também rejeitou a existência do cartel, afirmando que se trata de uma narrativa construída pelo “imperialismo”.
O governo venezuelano argumenta que não há provas concretas apresentadas por Washington e que o termo foi resgatado de antigos relatos jornalísticos usados agora para fins políticos.
O que dizem especialistas sobre o Cartel de los Soles
Apesar de reconhecerem que há corrupção e envolvimento de militares e políticos venezuelanos com o narcotráfico, analistas afirmam que o Cartel de los Soles não funciona como um cartel tradicional, e tampouco como uma organização única com hierarquia e lideranças formais.
O termo surgiu nos anos 1990, quando jornalistas venezuelanos passaram a utilizá-lo para se referir a militares envolvidos em esquemas de tráfico de drogas. O nome faz referência aos “sóis” utilizados como insígnias pelos oficiais de alto escalão das Forças Armadas da Venezuela. No entanto, esses grupos não operavam coordenadamente, e sim de maneira dispersa e autônoma.
Com a ascensão do chavismo, especialistas apontam que o envolvimento de autoridades com práticas ilegais aumentou, mas ainda assim não há evidências de uma estrutura integrada. O analista Phil Gunson, do Crisis Group, classificou o cartel como “fictício”, útil politicamente, mas inexistente como organização formal. Ele afirma que, embora militares trafiquem drogas com anuência de autoridades, não existe comando central, unidade operacional ou estratégia organizada.
A organização InSight Crime, referência no estudo de crime organizado internacional, reforça a tese de que o Cartel de los Soles funciona como um sistema de corrupção descentralizado. Para seus analistas, é incorreto afirmar que Maduro lidera um cartel; trata-se, na verdade, de um ambiente no qual diferentes grupos dentro do Exército lucram facilitando operações de narcotraficantes.
Para Jeremy McDermott, cofundador do Insight Crime, o suposto cartel é composto por “células normalmente desconectadas”, sem a estrutura vertical típica dos grandes cartéis da região.
Gunson compara o papel de Maduro ao do ex-ditador panamenho Manuel Noriega, que não chefiava diretamente o Cartel de Medellín, mas lucrava oferecendo proteção e permitindo operações em seu país. Para o analista, trata-se de uma relação de conveniência, não de comando.
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