Enquanto o mundo discute o plano de paz de 2025, uma análise profunda de 100 anos de diplomacia russa revela um padrão assustador: para o Kremlin, tratados de paz não encerram guerras, apenas compram tempo para rearmamento.
À medida que nos aproximamos do final de 2025, os corredores diplomáticos de Washington e Kiev fervilham com a discussão do “Plano de 20 Pontos”. A promessa russa parece simples e sedutora: caso a Ucrânia aceite os termos de neutralidade e concessões territoriais, a Federação Russa compromete-se a nunca mais atacar. Contudo, qualquer analista que se debruce sobre a história recente sabe que a discussão sobre um acordo de paz com a Rússia carrega um vício de origem fatal: a credibilidade nula de Moscou.
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A questão central que paira sobre as negociações mediadas pela administração Trump não é apenas sobre onde traçar as fronteiras no Donbas ou na Crimeia, mas sim sobre a durabilidade da tinta na caneta de Vladimir Putin. Um levantamento exaustivo das relações internacionais de Moscou — da extinta União Soviética à atual Federação Russa — expõe uma realidade brutal. O Kremlin utiliza a diplomacia não como uma ferramenta de resolução de conflitos, mas como uma extensão da guerra por outros meios, uma tática conhecida na doutrina militar russa como Maskirovka (engano estratégico).
O mito da paz com a Rússia: lições soviéticas
Para entender o perigo que a Ucrânia corre ao assinar um papel em 2025, basta olhar para o retrovisor. A tradição de violar pactos de não-agressão é um pilar da política externa russa há quase um século.
Na década de 1930, a União Soviética construiu uma “arquitetura de segurança” baseada em pactos bilaterais com seus vizinhos. Finlândia, Estônia, Letônia, Lituânia e Polônia; todos tinham documentos assinados garantindo a inviolabilidade de suas fronteiras. O resultado? Todos foram invadidos.
A União Soviética e a Rússia envolveram-se em dezenas de conflitos, mas os casos de invasão direta de território soberano em violação a tratados vigentes são os mais condenatórios.

O caso da Finlândia, em 1939, é um presságio arrepiante para a situação atual. Helsinque tinha um Pacto de Não-Agressão vigente com Moscou. Isso não impediu Stalin de fabricar o “Incidente de Mainila” — bombardeando sua própria vila para culpar os finlandeses — e invadir o país dias depois. A “paz” assinada anteriormente serviu apenas para baixar a guarda diplomática da vítima. Da mesma forma, a Polônia foi invadida pelas costas em 17 de setembro de 1939, enquanto tentava repelir os nazistas, sob o pretexto cínico de que o Estado polonês “havia deixado de existir”, invalidando os tratados anteriores.
A Chechênia e o espelho do futuro Ucraniano
Se os exemplos soviéticos parecem distantes, a história moderna da Federação Russa oferece o paralelo mais aterrorizante para o atual cenário ucraniano: o destino da República da Chechênia.
Em 1997, após perder a Primeira Guerra da Chechênia, o governo russo, sob Boris Yeltsin, assinou um Tratado de Paz no Kremlin. O Artigo 1º do documento comprometia ambas as partes a “rejeitar para sempre o uso da força”. Parecia uma vitória definitiva para a paz. No entanto, o tratado durou apenas o tempo necessário para a Rússia reorganizar suas forças armadas e recuperar sua economia.
Apenas dois anos depois, em 1999, um recém-nomeado Vladimir Putin rasgou o acordo de paz com a Rússia, lançando uma invasão brutal que arrasou Grozny e reanexou o território à força. A lição é clara e direta para Kiev: um tratado que limita o exército da vítima e não oferece garantias externas robustas é, na verdade, uma sentença de morte adiada em alguns anos.
O histórico de traições na Ucrânia
A própria Ucrânia é o palco onde a palavra de Moscou mais se desvalorizou nas últimas três décadas. Nenhum outro país confiou tanto em garantias legais russas e pagou um preço tão alto por isso.
O Memorando de Budapeste de 1994, onde a Ucrânia entregou o terceiro maior arsenal nuclear do mundo em troca de garantias de integridade territorial, foi transformado em papel molhado em 2014 com a anexação da Crimeia. O Tratado de Amizade de 1997, que reconhecia as fronteiras de 1991, foi ignorado.
Mais recentemente, os Acordos de Minsk (2014 e 2015) servem como prova cabal da má-fé diplomática russa. Enquanto diplomatas discutiam cessar-fogo em mesas luxuosas, tropas russas (sem insígnias) continuavam a avançar no Donbas, tomando nós estratégicos como Debaltseve dias após a assinatura dos acordos. Putin usou Minsk não para buscar a paz, mas para desestabilizar a Ucrânia internamente e preparar o terreno para a invasão em larga escala de 2022.
O perigo do plano de 2025
Hoje, os negociadores discutem um plano que prevê a neutralidade ucraniana e a limitação de suas forças armadas a 600 ou 800 mil homens. Diante do histórico auditado, aceitar a desmilitarização ou a neutralidade sem a presença física de tropas da OTAN (o chamado mecanismo tripwire) é ignorar a realidade.
Desde 1922, contam-se mais de 15 instâncias maiores onde a Rússia invadiu territórios ou quebrou tratados de paz que ela mesma havia desenhado. A Rússia não opera sob o princípio ocidental de pacta sunt servanda (os acordos devem ser cumpridos), mas sim sob a lógica da correlação de forças: se a Rússia se sente forte, o tratado torna-se obsoleto.

A conclusão inevitável é que confiar na assinatura russa é um erro estratégico. Qualquer “paz com a Rússia” que dependa da boa vontade do Kremlin, e não de uma dissuasão militar esmagadora, não passará de um intervalo para reabastecimento de munição. Se a história serve de guia, a assinatura de um tratado em 2025 pode muito bem ser o prelúdio para a próxima invasão em 2027 ou 2028.
A “Paz Made in Moscow”: as digitais do Kremlin na proposta americana
A desconfiança sobre a viabilidade do acordo ganha contornos alarmantes com as revelações surgidas em novembro de 2025, indicando que a arquitetura da “paz” pode ter sido desenhada pelo próprio agressor. Investigações jornalísticas apontaram que o plano inicial de 28 pontos, que serviu de base para as negociações atuais da administração Trump, foi fundamentado em um documento redigido pelo governo russo. O texto continha cláusulas idênticas às exigidas por Moscou, incluindo a cessão de territórios no leste da Ucrânia, sugerindo que o que se apresenta ao mundo como um esforço diplomático bilateral pode ser, na prática, uma validação ocidental dos termos de rendição ditados por Vladimir Putin.
*As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor e não refletem, necessariamente, a posição editorial da Gazeta da Amazônia.
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