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Representação feminina na ciência brasileira atinge marca histórica mas enfrenta desafios de impacto

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A participação das mulheres na produção do conhecimento no Brasil apresentou um crescimento vigoroso nas últimas duas décadas. Atualmente, a ciência brasileira conta com uma presença feminina que coloca o país em uma posição de destaque no cenário global. Segundo dados recentes da Agência Bori em parceria com a editora Elsevier, as mulheres já representam 49% do total de autores de publicações científicas no país, um salto considerável em comparação aos 38% registrados no início dos anos 2000.

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Esse avanço coloca o Brasil como o terceiro país com maior representação feminina na produção acadêmica, ficando atrás apenas de Argentina e Portugal em um ranking que analisou 18 nações e a União Europeia. Contudo, apesar do volume de publicações ser quase equivalente ao dos homens, a influência desses estudos na formulação de políticas públicas e a ocupação de postos de liderança ainda revelam uma disparidade profunda.

O abismo entre a produção e a influência na ciência brasileira

Embora a produtividade seja alta, o reconhecimento institucional e a aplicação prática das pesquisas lideradas por mulheres seguem caminhos distintos. Um levantamento realizado com o suporte da plataforma Overton, que monitora documentos governamentais ao redor do mundo, demonstrou que o impacto das pesquisadoras brasileiras em decisões estatais é significativamente menor do que o de seus colegas homens.

Entre os 107 cientistas brasileiros cujos trabalhos foram fundamentais para embasar políticas nacionais ou diretrizes de organizações internacionais, apenas 23 são mulheres. Isso significa que apenas 21,5% das mentes consultadas para guiar o destino da sociedade pertencem ao gênero feminino. Além disso, quando se observa o topo da pirâmide de influência, os cinco pesquisadores mais citados em tomadas de decisão no Brasil são todos homens.

Disparidades entre áreas e o fenômeno da sobrecarga institucional

A distribuição das mulheres nas diferentes ramificações da ciência brasileira também reflete estereótipos de gênero consolidados. Enquanto áreas ligadas ao cuidado e à saúde apresentam ampla maioria feminina, como a Enfermagem (80%) e a Psicologia (60%), as chamadas ciências exatas ainda oferecem resistência à entrada e permanência de mulheres. Na Matemática, a participação feminina é de apenas 19%, subindo levemente para 21% na Computação e 27% na Astronomia.

Especialistas e acadêmicas apontam que o problema não é a falta de competência, mas sim barreiras estruturais. A imunologista Ester Sabino, figura central no combate à pandemia e membro da Academia Brasileira de Ciências, destaca que a dupla ou tripla jornada, unida a fatores culturais, frequentemente afasta mulheres da carreira científica ou impede que cheguem a cargos de coordenação de grandes projetos.

Outro ponto crítico é a sobrecarga administrativa. Carolina Brito, professora de física na UFRGS, observa que as iniciativas voltadas para diversidade e inclusão nas universidades acabam sendo delegadas às poucas mulheres presentes em departamentos majoritariamente masculinos. Esse cenário cria um ciclo de exaustão, onde a cientista precisa dividir seu tempo de pesquisa com burocracias institucionais de gênero, algo que raramente é exigido de seus pares homens.

A democratização da ciência brasileira passa, portanto, não apenas pelo aumento do número de pesquisadoras, mas pela garantia de que seus achados científicos tenham o mesmo peso e visibilidade nas esferas de decisão. O desafio para os próximos anos reside em transformar a paridade numérica em equidade de influência e poder dentro do ecossistema científico nacional.

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