Após 25 anos de negociações, bloco dá sinal verde para a maior zona de livre comércio do mundo, superando crise política na França e protestos de agricultores
O Acordo UE-Mercosul recebeu, nesta sexta-feira (09/01), a aprovação decisiva do Conselho da União Europeia, encerrando uma maratona diplomática iniciada em 1999. Em reunião realizada em Bruxelas, os representantes dos 27 países do bloco alcançaram a maioria necessária para selar o pacto com Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai. A decisão consolida a criação da maior zona de livre comércio do planeta, integrando um mercado de mais de 700 milhões de consumidores, apesar da forte oposição liderada pela França.
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A proposta obteve os 15 votos necessários, representando 65% da população total do bloco europeu. As capitais da UE têm até às 17h (horário de Bruxelas) para formalizar seus votos, mas o resultado é considerado irreversível. A aprovação foi viabilizada após a Itália retirar suas objeções mediante novas concessões ao setor agrícola, isolando países como França e Polônia que se mantêm contrários ao texto atual.
Troca de mercados: carros e vinhos por carne e soja
Para os defensores, liderados por Alemanha e Espanha, o Acordo UE-Mercosul é vital para revitalizar a economia europeia, atualmente enfraquecida pela concorrência chinesa e pelas tarifas impostas pelos Estados Unidos. O retorno de Donald Trump à Casa Branca reforçou o argumento da Comissão Europeia sobre a necessidade urgente de diversificar parcerias comerciais.
O tratado prevê a eliminação de grande parte das tarifas, impulsionando as exportações europeias de produtos industriais, como automóveis e máquinas, além de itens de luxo como vinhos e queijos. Em contrapartida, o acordo facilita a entrada na Europa de commodities sul-americanas, incluindo carne bovina, aves, açúcar, arroz, mel e soja. Essas importações contarão com cotas isentas de impostos, ponto central da discórdia com os produtores rurais do velho continente.
Tensão no campo e derrota diplomática de Macron
A aprovação do acordo representa um duro revés diplomático para o presidente francês, Emmanuel Macron. Na noite de quinta-feira, Macron reiterou que o tratado é “inaceitável em sua forma atual”, citando uma “rejeição unânime” da classe política de seu país. No entanto, mergulhado em instabilidade política e sob pressão da direita, que ameaçava derrubar o governo de Sébastien Lecornu caso houvesse apoio ao pacto, o líder francês não conseguiu reunir uma minoria de bloqueio suficiente em Bruxelas.
A insatisfação transcende os gabinetes. Críticos argumentam que a entrada de produtos sul-americanos, produzidos a custos menores, prejudicará a agricultura local e poderá não cumprir as rigorosas normas ambientais da UE. Nas últimas semanas, a raiva no campo reacendeu. Em Paris, tratores ocuparam as ruas denunciando o Mercosul e a gestão de crises sanitárias no gado. Na Bélgica, Judy Peeters, representante dos agricultores, descreveu o clima como de “muita tristeza e raiva crescente” durante um bloqueio rodoviário. Cenários semelhantes de mobilização foram registrados na Grécia.
Próximos passos: assinatura e batalha no Parlamento
Com o aval do Conselho, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, está autorizada a assinar o Acordo UE-Mercosul. A expectativa é que ela viaje a Assunção, no Paraguai, possivelmente na próxima segunda-feira, para oficializar o documento, embora a data aguarde confirmação final.
Contudo, a vigência do tratado não será imediata. O texto ainda enfrentará uma difícil votação no Parlamento Europeu, prevista para abril. Cerca de 150 eurodeputados já ameaçam recorrer ao Tribunal de Justiça da União Europeia questionando a legalidade do pacto, o que pode atrasar a implementação em meses ou até anos.
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