A destruição e a fragmentação da floresta aproximam pessoas, animais e microrganismos, criando condições que podem favorecer o surgimento e a expansão de doenças.
O avanço do desmatamento da Amazônia não representa apenas uma ameaça ambiental. A abertura de estradas, a mineração, a construção de barragens, as queimadas e a expansão de áreas ocupadas alteram a relação entre humanos, animais silvestres, insetos e microrganismos. Quando esses grupos, antes separados pela própria floresta, passam a compartilhar o mesmo espaço, cresce a possibilidade de surgimento de novos surtos e epidemias.
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A recente expansão da febre do Oropouche ajuda a dimensionar esse risco. Durante décadas, a doença esteve associada principalmente a surtos localizados na Amazônia. Transmitida principalmente pelo maruim, o Culicoides paraensis, pode provocar febre, dor de cabeça e dores musculares, sintomas também presentes em doenças como dengue, zika e chikungunya. Em casos raros, pode levar à morte. Não há vacina nem tratamento específico.
Nos últimos anos, porém, uma nova linhagem, identificada como OROV BR-2015-2024, percorreu mais de 3.000 km a partir da Região Norte e se espalhou pelo Brasil. Em 2025, o Espírito Santo liderou os registros, com mais de 6.300 casos. A doença também alcançou outros países da América Latina e foi identificada em viajantes na Europa.
Desde os anos 1960, mais de meio milhão de pessoas podem ter sido infectadas pelo Oropouche na Amazônia, conforme estimativa do virologista Pedro Vasconcelos, ex-diretor do Instituto Evandro Chagas. Para Felipe Naveca, virologista da Fiocruz Amazônia, a principal mudança é o aparecimento do vírus em regiões onde sua presença não era esperada.
Como o desmatamento da Amazônia aumenta o risco de doenças
Em uma floresta preservada, espécies ocupam diferentes horários, abrigos e áreas. Morcegos, roedores, primatas, insetos e parasitas não estão necessariamente em contato permanente. Essa separação reduz as oportunidades para que vírus e outros microrganismos passem de uma espécie para outra.
A transformação da paisagem muda essa dinâmica. Estradas, pastos, cidades, barragens e áreas desmatadas fragmentam a mata e aproximam suas bordas de quintais e currais. Animais silvestres, pessoas e animais domésticos passam a ter mais oportunidades de contato e de exposição aos mesmos microrganismos.
É nesse contexto que pode ocorrer o chamado spillover, ou “transbordamento”, quando um vírus, bactéria ou parasita passa de uma espécie silvestre para novos hospedeiros, incluindo os humanos. Atividades como caça, comércio de animais silvestres, criação de rebanhos e frentes de desmatamento podem intensificar esse contato por meio de sangue, saliva, fezes, urina, água, alimentos e picadas de insetos.
A própria biodiversidade, por outro lado, pode atuar como uma barreira. No chamado “efeito de diluição”, uma floresta com grande variedade de espécies reúne hospedeiros que não necessariamente conseguem transmitir determinados patógenos. Enquanto alguns animais favorecem a circulação de microrganismos, outros funcionam como becos sem saída.
Animais e microrganismos sob vigilância
Para identificar riscos antes que doenças cheguem aos hospitais, pesquisadores também acompanham animais feridos ou desalojados por queimadas, derrubadas de árvores e novas estradas. A veterinária Alessandra Nava, da Fiocruz, busca nesses animais sinais de vírus e parasitas que possam futuramente alcançar os seres humanos.
Um levantamento da Fiocruz, realizado em 2025, identificou 1.025 microrganismos em 343 espécies de mamíferos silvestres no Brasil. Entre eles, 162 apresentaram potencial de transmissão para humanos.
A dimensão do desafio é ainda maior porque mamíferos e aves podem abrigar cerca de 1,6 milhão de vírus ainda desconhecidos, conforme estimativa publicada em 2018 pelo Global Virome Project. Desse total, até 827 mil poderiam, em teoria, passar de animais para pessoas.
Na Amazônia, onde vivem cerca de 28 milhões de habitantes e existe uma enorme diversidade de animais e microrganismos, a vigilância enfrenta obstáculos. “A vigilância para essas viroses emergentes na Amazônia é muito falha”, afirma Vasconcelos. “Nós não conhecemos nada [da diversidade viral], praticamente”, diz.
Estradas e ocupação ampliaram os riscos
A relação entre ocupação da Amazônia e doenças não é recente. O historiador Rômulo de Paula Andrade, da Fiocruz, aponta que a região foi historicamente tratada como uma fonte de riquezas a ser integrada ao País.
No “Discurso do Rio Amazonas”, em 1940, Getúlio Vargas defendeu que “o nomadismo dos seringueiros e a instabilidade econômica dos povoadores ribeirinhos devem dar lugar a núcleos de cultura agrária, onde o colono nacional, recebendo gratuitamente a terra desbravada, saneada e loteada, se fixe e estabeleça a família com saúde e conforto”.
A expansão dessa ocupação foi acompanhada por graves problemas sanitários. Na construção da ferrovia Madeira-Mamoré, entre 1907 e 1912, doenças como malária e febre amarela, somadas às condições de trabalho, mataram ao menos 30 mil pessoas. A contagem pode ter sido maior e a ferrovia ficou conhecida como “Ferrovia do Diabo”.
A construção da Belém-Brasília, nos anos 1950, voltou a enfrentar a malária como um dos principais desafios. Mais tarde, grandes obras ampliaram a transformação da floresta, como a usina de Tucuruí, onde a represa favoreceu enxames de mosquitos do gênero Mansonia, e a abertura da BR-319.
Com 885 km, a rodovia liga Porto Velho a Manaus desde 1976 e atravessa uma das áreas mais preservadas da Amazônia. Sua pavimentação divide opiniões. Para o biólogo Lucas Ferrante, da USP, a melhoria do acesso poderia facilitar grilagem, invasões e desmatamento. Defensores da obra afirmam que ela reduziria o isolamento terrestre do Amazonas e melhoraria a logística.
Carlos Nobre, também da USP, alerta para o efeito “espinha de peixe”, quando ramais secundários surgem a partir de uma estrada principal e facilitam novas invasões, garimpo e extração ilegal de madeira.
Em pesquisas realizadas ao longo da BR-319 e em áreas de mineração de potássio em Autazes, Lucas Ferrante e sua equipe analisaram 61 amostras de terra e encontraram micróbios raros ou até então desconhecidos. Alguns apresentaram características associadas à toxicidade ou à resistência aos antibióticos modernos.
Calor, seca e expansão de vetores
O desmatamento também altera o clima e pode ampliar outros riscos à saúde. Um estudo de 2021 estimou que mais de 11 milhões de pessoas poderão ficar expostas a calor extremo com risco à saúde na Amazônia brasileira até o fim do século.
No Xingu, a pesquisadora Sandra Hacon, da Fiocruz, relata mudanças no cotidiano das comunidades indígenas, que passaram a usar meias grossas e chinelos para evitar queimaduras no solo quente e guarda-chuvas como proteção contra o sol.
“Não está fácil para nós viver aqui no Xingu”, diz o líder e pesquisador indígena Ayakanukala Waura, do povo wauja, da aldeia Topepeweke, em Paranatinga (MT).
Pedro Vasconcelos afirma que calor e umidade podem acelerar o desenvolvimento de mosquitos e maruins, aumentar as picadas e reduzir o tempo necessário para a transmissão de vírus. A Organização Mundial da Saúde também relaciona mudanças climáticas, desmatamento e urbanização desordenada ao avanço recente do Oropouche.
A seca pode produzir outro efeito dentro da floresta. Com menos água disponível, animais tendem a se concentrar nos mesmos refúgios de umidade, aumentando o contato entre espécies e a circulação de microrganismos, segundo Lucas Ferrante.
Para os pesquisadores, a resposta não depende apenas de identificar novos vírus. A preservação da floresta também funciona como uma forma de reduzir encontros de risco entre espécies e limitar as condições que podem favorecer novas epidemias.
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