Moeda americana chegou a R$ 5,60 nesta segunda-feira (26), enquanto a Bolsa brasileira interrompeu as negociações após queda superior a 10% nos primeiros minutos do pregão
O dólar disparou e o Ibovespa registrou forte queda nesta segunda-feira (26), após a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno das eleições presidenciais de 2026. A reação do mercado financeiro levou a Bolsa brasileira a acionar o mecanismo conhecido como circuit breaker, que interrompe temporariamente as negociações para conter movimentos extremos de baixa.
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Por volta das 10h20, o dólar avançava 12,06%, cotado a R$ 5,5953, após atingir a máxima de R$ 5,6048. Já o Ibovespa, principal índice da Bolsa de Valores brasileira, teve os negócios suspensos por 30 minutos logo no início do pregão, depois de registrar queda superior a 10%.
O movimento contrasta com o desempenho da última sexta-feira (23), quando a moeda americana recuou 0,90%, fechando a R$ 4,9930, enquanto o Ibovespa subiu 0,47%, aos 205.083 pontos.
Por que o dólar subiu após a vitória de Lula?
O resultado das eleições presidenciais foi o principal fator de atenção dos investidores nesta segunda-feira. Lula venceu o segundo turno com 51,78% dos votos válidos, contra 48,22% do senador Flávio Bolsonaro (PL), considerando quase a totalidade das urnas apuradas.
A reação negativa de parte do mercado está relacionada à surpresa com o resultado eleitoral. Pesquisas divulgadas nas semanas anteriores apontavam vantagem de Flávio Bolsonaro, e a vitória de Lula levou investidores a reavaliar suas expectativas para a economia brasileira.
Entre os principais pontos de preocupação estão a política fiscal do próximo governo, a trajetória da dívida pública, o controle dos gastos e o cumprimento das metas fiscais. Esses fatores podem influenciar as expectativas para os juros, o câmbio e os investimentos no país.
Para Gabriel Mollo, analista da Daycoval Corretora, a condução da política fiscal será um dos principais pontos de atenção durante o quarto mandato de Lula.
Segundo o analista, a evolução da dívida pública, o controle das despesas e a credibilidade das metas fiscais serão determinantes para a confiança dos agentes econômicos.
Por outro lado, especialistas avaliam que o governo poderá adotar medidas para recuperar a confiança dos investidores.
Jason Vieira, economista-chefe da Lev DTVM, destacou a possibilidade de a equipe econômica apresentar uma proposta de emenda à Constituição (PEC) para revisar gastos obrigatórios e buscar o centro da meta fiscal.
O que é o circuit breaker e por que a Bolsa parou?
O circuit breaker é um mecanismo utilizado pela B3 para interromper temporariamente as negociações quando o mercado registra quedas acentuadas. A medida busca permitir que os investidores reavaliem suas decisões e reduzir o risco de movimentos desordenados de compra e venda.
Pelas regras da Bolsa brasileira, o mecanismo funciona em diferentes níveis:
- Queda superior a 10%: as negociações são interrompidas por 30 minutos.
- Queda de 15%: após a retomada dos negócios, uma nova interrupção pode ocorrer, desta vez por uma hora.
- Queda de 20%: um terceiro nível de paralisação pode ser acionado, conforme as regras operacionais da B3.
A interrupção registrada nesta segunda-feira ocorreu logo nos primeiros minutos do pregão, diante da intensidade da queda do Ibovespa.
Ações brasileiras também caem no exterior
A reação do mercado à vitória de Lula também atingiu os papéis brasileiros negociados fora do país.
O EWZ, fundo negociado em Nova York que acompanha ações brasileiras, registrava queda de 26,16% antes da abertura dos mercados nesta segunda-feira. Na sessão anterior, o fundo já havia recuado mais de 19%.
O desempenho indica que a incerteza sobre os rumos da política econômica brasileira também influenciou investidores internacionais.
Possível disputa judicial aumenta a incerteza
Além do resultado eleitoral, a possibilidade de questionamentos judiciais também entrou no radar dos investidores.
A decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Cristiano Zanin de prorrogar o horário de votação, das 17h às 19h, em razão de problemas no deslocamento de eleitores em diferentes cidades, pode gerar questionamentos na Justiça.
Após a derrota, Flávio Bolsonaro afirmou que não reconheceria o resultado e anunciou a intenção de pedir a anulação da eleição.
William Castro Alves, estrategista-chefe da Avenue, avaliou, em declaração à Reuters, que não é possível descartar uma eventual judicialização do resultado ou outros desdobramentos políticos. Segundo ele, esse ambiente de incerteza tende a afetar os preços dos ativos financeiros.
Quando foi a última vez que o circuit breaker foi acionado?
A última vez que a B3 havia acionado o circuit breaker antes do episódio desta segunda-feira foi durante a pandemia de Covid-19, em 2020.
Naquele período, os mercados globais enfrentaram fortes turbulências diante das incertezas sobre os impactos econômicos e financeiros da crise sanitária. Em março de 2020, o mecanismo foi acionado seis vezes, um episódio inédito na história da Bolsa brasileira até então.
Outros momentos marcantes de utilização do mecanismo incluem:
- 1997: durante a crise asiática, o Ibovespa registrou queda de 10,19%.
- 1999: a desvalorização do real provocou uma queda de 10,29% no índice.
- 2008: a crise financeira internacional, desencadeada pelo mercado imobiliário americano, levou a seis interrupções em menos de um mês.
- 2020: a pandemia de Covid-19 provocou seis acionamentos do mecanismo em março.
Outros episódios de forte desvalorização do Ibovespa, embora não necessariamente tenham provocado o acionamento do circuit breaker, também marcaram o mercado:
- 24 de abril de 2020: queda de 5,45%, após a saída de Sérgio Moro do Ministério da Justiça.
- 28 de outubro de 2020: recuo de 4,25%, em meio ao aumento dos casos de Covid-19 e à proximidade das eleições americanas.
- 22 de fevereiro de 2021: baixa de 4,87%, após a intervenção do governo Jair Bolsonaro na Petrobras.
- 5 de dezembro de 2025: queda de 4,31%, após o anúncio da pré-candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência da República em 2026.
Boletim Focus e juros futuros ficam no radar
Na agenda econômica brasileira, o Boletim Focus concentra a atenção dos investidores. O relatório reúne as expectativas do mercado para indicadores como inflação, crescimento econômico, câmbio e juros.
A edição divulgada nesta segunda-feira ainda não refletia a reação dos agentes financeiros ao resultado eleitoral de domingo (25), uma vez que as projeções foram coletadas até sexta-feira (23).
Também estão no radar os dados de confiança dos investidores e os números sobre investimento estrangeiro direto.
Os contratos de juros futuros, que indicam as expectativas do mercado para as taxas de juros nos próximos meses e anos, registravam forte alta nos vencimentos mais longos. O movimento reflete a revisão das perspectivas econômicas diante das incertezas sobre a condução da política fiscal.
Petróleo recua em meio às tensões entre Estados Unidos e Irã
No cenário internacional, os investidores acompanham os preços do petróleo e os esforços diplomáticos para reduzir as tensões relacionadas à guerra entre os Estados Unidos e o Irã.
Apesar das iniciativas para aliviar o conflito, permanecem as preocupações com possíveis interrupções no fornecimento global da commodity.
Por volta das 10h40, o barril do Brent, referência internacional, recuava 1,20%, cotado a US$ 115,32. Já o West Texas Intermediate (WTI), referência nos Estados Unidos, caía 1,74%, a US$ 101,47 por barril.
Decisões de juros nos Estados Unidos, Europa e Japão
Outra frente de atenção é a agenda dos principais bancos centrais do mundo.
Nos Estados Unidos, a expectativa está concentrada na próxima decisão do Federal Reserve (Fed), prevista para quarta-feira. Investidores acompanham a possibilidade de uma nova elevação dos juros americanos, que pode influenciar o fluxo internacional de capitais e o comportamento das moedas.
Na Europa, a expectativa predominante é de manutenção das taxas pelo Banco Central Europeu (BCE). O mesmo cenário é projetado para o Banco do Japão (BoJ).
As decisões podem afetar os mercados globais e contribuir para a volatilidade dos ativos financeiros ao longo da semana.
Bolsas internacionais apresentam resultados mistos
Enquanto a Bolsa brasileira enfrentava forte pressão, os principais índices americanos operavam em alta no início da manhã.
Por volta das 10h40, o Dow Jones avançava 0,38%, o S&P 500 subia 0,21% e o Nasdaq Composite registrava alta de 0,27%. Entre os fatores acompanhados pelos investidores estavam o pedido de abertura de capital (IPO) da Anthropic e a expectativa pela decisão do Fed.
Na Europa, os principais índices também operavam predominantemente em alta, antes da próxima reunião de política monetária do BCE.
No mesmo horário, o DAX, da Alemanha, subia 0,99%; o CAC-40, da França, avançava 0,82%; e o FTSE 100, do Reino Unido, registrava alta de 0,55%.
Já na Ásia, as bolsas encerraram o pregão com resultados mistos, em meio à cautela dos investidores diante de uma semana marcada por decisões de bancos centrais.
O índice SSEC, de Xangai, subiu 0,19%, enquanto o CSI300, que reúne grandes empresas chinesas, recuou 0,04%. No Japão, o Nikkei caiu 0,80%, e o Kospi, da Coreia do Sul, perdeu 1,46%. Em Hong Kong, o Hang Seng avançou 0,51%.
A combinação de incertezas políticas no Brasil, expectativas fiscais e decisões de política monetária no exterior mantém os mercados atentos aos próximos indicadores e aos sinais que serão apresentados pelo novo governo brasileiro.
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