O cenário de segurança pública na América Latina enfrenta um agravamento alarmante. Dados recentes indicam que o desaparecimento de mulheres cresceu de forma acentuada em diversos países da região, impulsionado por uma combinação de pobreza, violência estrutural e a expansão de redes de tráfico sexual. O fenômeno, que afeta desproporcionalmente adolescentes e grupos vulneráveis, revela falhas profundas na atuação estatal e na implementação de políticas públicas de proteção e busca imediata.
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A crise humanitária no México e o aumento das estatísticas
No México, embora o número absoluto de homens desaparecidos seja maior, o crescimento porcentual de vítimas femininas acendeu um alerta vermelho entre 2024 e 2025. Segundo a Rede Lupa, vinculada ao Instituto Mexicano de Direitos Humanos, todos os 32 estados mexicanos registraram alta nos casos. Em nove deles, o avanço superou os 20%.
O estado de Tabasco é um dos exemplos mais drásticos dessa escalada, com um salto de 236 para 1.761 ocorrências, representando um crescimento de 87%. O perfil das vítimas é jovem, com 20% dos casos concentrados na faixa etária entre 15 e 19 anos. Especialistas da Federação Internacional de Direitos Humanos apontam que, desde 2007, a dinâmica desses crimes mudou. Enquanto homens costumam ser capturados para trabalho forçado em atividades ilícitas, as mulheres são majoritariamente destinadas à exploração sexual comercial.
Conexão direta entre sumiços e o tráfico de pessoas
A relação entre o desaparecimento de mulheres e o tráfico humano é intrínseca em contextos de criminalidade organizada e fragilidade institucional. Marta Hurtado, porta-voz do Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos, destaca que estes não são eventos isolados, mas parte de padrões estruturais de violência de gênero.
No Peru, a situação é igualmente preocupante. Entre 2023 e 2025, o país contabilizou mais de 45 mil denúncias de pessoas desaparecidas, mas o sistema de segurança conseguiu localizar pouco mais de mil vítimas. Rossina Guerrero, diretora da Promsex, afirma que há uma subestimação crônica da conexão entre esses desaparecimentos e a exploração sexual. Dados do Observatório de Segurança Cidadã do Peru reforçam essa tese: cerca de 85% das vítimas de tráfico de pessoas no país são mulheres e, destas, mais de 70% foram aliciadas por meio de falsas promessas de emprego.
Vulnerabilidade social e os novos métodos de aliciamento
A violência doméstica e a falta de oportunidades econômicas empurram muitas jovens para situações de risco. De acordo com Juan Carlos Gutiérrez, diretor da organização IDHEAS, muitas fogem de abusos no lar apenas para caírem em armadilhas de grupos criminosos. Atualmente, o recrutamento não ocorre apenas fisicamente, mas também em ambientes digitais, como redes sociais e plataformas de videogame.
A subnotificação é outro obstáculo crítico. O Banco Interamericano de Desenvolvimento estima que, para cada vítima identificada, existam pelo menos 20 que permanecem invisíveis aos olhos das autoridades. Na América Central e no Caribe, a proporção de mulheres e meninas entre as vítimas de tráfico chega a 82%, evidenciando a seletividade de gênero dessas organizações criminosas.
A urgência de políticas públicas integradas
Para conter o avanço desse fenômeno, especialistas defendem uma abordagem que vá além da repressão policial. É necessário integrar dados entre diferentes órgãos do Estado para permitir buscas rápidas e eficazes. A proteção de mulheres migrantes, frequentemente sexualizadas e discriminadas, exige campanhas de conscientização em consulados e embaixadas para prevenir o aliciamento.
A superação dessa crise depende da erradicação da tolerância institucional e da normalização da violência. Sem uma estratégia coordenada que envolva educação, prevenção no ambiente familiar e investigação rigorosa das máfias transnacionais, a dor das famílias que buscam por suas filhas continuará sendo uma ferida aberta na estrutura social da América Latina.
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