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Transição energética ganha força após crise do petróleo e tensão no Oriente Médio

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A recente instabilidade no mercado internacional reforçou que a transição energética deixou de ser apenas uma pauta ambiental para se tornar também uma estratégia de segurança nacional. A escalada do conflito entre Estados Unidos e Irã, que afetou o Estreito de Ormuz e provocou forte alta no preço do petróleo, reacendeu o debate sobre a necessidade de diversificar as fontes de energia e reduzir a dependência global dos combustíveis fósseis.

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Entre o fim de fevereiro e meados de junho, período marcado pelos confrontos entre os dois países, a cotação do barril de petróleo ultrapassou os US$ 120, após permanecer anteriormente em torno de US$ 60, conforme dados da Energy Information Administration (EIA). Embora um acordo de paz tenha sido anunciado em 15 de junho, novos episódios de tensão indicam que o cenário permanece instável.

Segurança energética passa a liderar o debate

O Estreito de Ormuz é uma das principais rotas marítimas para o transporte mundial de petróleo. Qualquer interrupção em sua operação provoca impactos diretos na oferta global e nos preços da energia, afetando economias em diferentes continentes.

Durante o Energy Summit, realizado em junho no Rio de Janeiro, o professor de geopolítica do petróleo da UFRJ, Marcelo Simas, afirmou que a prioridade internacional mudou nos últimos anos.

“A agenda mudou, do ano passado para cá, de uma transição energética para segurança energética”, destacou.

Segundo ele, episódios como as sanções à Venezuela e os conflitos envolvendo o Irã reforçaram a preocupação dos países com o abastecimento energético. Ao mesmo tempo, Simas defende que o Brasil mantenha sua posição de destaque na produção de petróleo, setor no qual o país poderá alcançar cerca de 5,3 milhões de barris por dia até 2030, sem abandonar os investimentos em fontes renováveis.

Europa amplia investimentos em renováveis e energia nuclear

Os efeitos da guerra entre Rússia e Ucrânia já haviam acelerado mudanças na política energética europeia. Agora, a nova crise no Oriente Médio fortalece ainda mais esse movimento.

Maurício Tolmasquim, membro do conselho da AXIA Energia, ex-diretor da Petrobras e ex-presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), explicou que países europeus passaram a investir simultaneamente em energias renováveis e na retomada da energia nuclear como forma de reduzir a dependência dos combustíveis fósseis.

Segundo ele, o Brasil reúne condições privilegiadas para aproveitar essa transformação, graças à disponibilidade de recursos naturais. Ainda assim, ressalta que os combustíveis fósseis continuarão presentes na matriz energética mundial nas próximas décadas.

“O mundo está eletrificando e seguir por esse caminho é uma das maneiras de reduzir a dependência”, afirmou.

Para Navid Samandari, presidente do conselho de administração da BattMan Energy, crises como a atual demonstram a necessidade de planejamento de longo prazo. Ele defende políticas permanentes para o setor energético e acredita que a energia nuclear tradicional e as tecnologias de terceira geração terão papel importante nos próximos anos.

Organismos internacionais reforçam defesa da transição energética

A preocupação também ganhou espaço entre líderes internacionais.

Em março, o secretário executivo de mudanças climáticas da Organização das Nações Unidas (ONU), Simon Stiell, afirmou que o choque provocado pelo conflito representa um alerta sobre os riscos da dependência dos combustíveis fósseis.

“Se houve algum momento para acelerar essa transição energética, rompendo dependências que acorrentaram economias, este é o momento”, declarou.

Poucas semanas depois, a chanceler do Tesouro do Reino Unido, Rachel Reeves, defendeu que os países do G7 ampliem os investimentos em energias renováveis e nuclear para reduzir a exposição às oscilações do petróleo e do gás natural.

Na União Europeia, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, também reforçou a necessidade de acelerar a produção local de energia limpa. Segundo o bloco, somente desde o início do conflito com o Irã foram gastos cerca de 24 bilhões de euros adicionais com importação de combustíveis fósseis.

Brasil prepara política para fortalecer a transição energética

No Brasil, o processo de reorganização da matriz energética avança por meio da Política Nacional de Transição Energética, criada em 2024 pelo Conselho Nacional de Política Energética (CNPE).

Um dos principais instrumentos dessa estratégia é o Plano Nacional de Transição Energética (Plante), elaborado para orientar o setor pelos próximos 30 anos. O planejamento está estruturado em três pilares: segurança e resiliência energética, justiça energética, climática e ambiental e desenvolvimento de uma economia de baixo carbono.

Segundo Juliano Bueno de Araújo, diretor técnico do Instituto Internacional Arayara, o Brasil possui uma vantagem competitiva importante por contar com uma matriz diversificada. Dados do Balanço Energético Nacional de 2025 mostram que aproximadamente metade da produção nacional de energia já é proveniente de fontes renováveis. Ainda assim, ele avalia que a expansão dessas tecnologias enfrenta resistência do setor de combustíveis fósseis.

Durante o lançamento do plano, o diretor do Departamento de Energia do Itamaraty, João Marcos Paes Leme, afirmou que a atual conjuntura internacional evidencia que a transição energética está diretamente ligada aos conflitos geopolíticos e à segurança do abastecimento mundial.

Entre as medidas previstas está a criação de um fundo nacional para financiar a transição energética, anunciado durante a COP30, em Belém. A proposta prevê utilizar recursos provenientes da exploração de petróleo e da mineração, embora ainda não exista uma data definida para sua implementação.

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