A relação entre Brasil e China entra em uma nova etapa com o fortalecimento da cooperação financeira, em um momento de maior tensão comercial entre Brasília e Washington. Durante missão oficial a Pequim, realizada em junho de 2026, representantes do Ministério da Fazenda deram início ao processo que permitirá ao Brasil emitir títulos da dívida pública diretamente no mercado financeiro chinês, ampliando as alternativas de financiamento do país.
A iniciativa representa mais um passo na estratégia do governo brasileiro de diversificar suas fontes de recursos e fortalecer a presença do país nos mercados internacionais. A comitiva entregou às autoridades chinesas a chamada Carta de Apresentação da República, documento que formaliza o início do processo para futuras emissões de títulos públicos na China.
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Parceria econômica Brasil China ganha novo impulso
A aproximação entre os dois países ocorre após anos de expansão das relações comerciais. Desde 2009, a China ocupa a posição de principal parceiro comercial do Brasil, absorvendo grande parte das exportações nacionais, especialmente soja, petróleo e minério de ferro. Em sentido contrário, os produtos manufaturados chineses seguem entre os principais itens importados pelo mercado brasileiro.
Os investimentos chineses também registraram crescimento expressivo. Em 2025, o Brasil tornou-se o principal destino dos investimentos da China no mundo, com alta de 45% em relação ao ano anterior. Apesar desse avanço, os Estados Unidos continuam sendo a principal origem do investimento externo direto recebido pelo país.
A ampliação da cooperação financeira demonstra que a relação bilateral ultrapassa o comércio de mercadorias e passa a incluir mecanismos voltados ao financiamento e à integração dos sistemas financeiros.
Cenário internacional influencia estratégia brasileira
O fortalecimento dos laços entre Brasil e China acontece em meio à crescente disputa econômica entre Pequim e Washington pela liderança global.
Nos últimos anos, a presença chinesa na América Latina aumentou por meio da expansão dos investimentos e da consolidação da China como destino relevante para exportações de produtos primários da região.
Em resposta, os Estados Unidos reforçaram sua estratégia para a América Latina. Na Estratégia de Segurança Nacional divulgada em novembro de 2025, o governo de Donald Trump classificou a região como área estratégica para os interesses americanos.
No campo econômico, essa postura foi acompanhada pela adoção de tarifas comerciais mais elevadas para diversos países latino-americanos. Guiana, Guiana Equatorial, Nicarágua e Venezuela receberam tarifas superiores aos 10% aplicados à maior parte dos parceiros comerciais. O Brasil também passou a enfrentar sobretaxas de até 40%, justificadas por fatores como a condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro, a regulamentação das plataformas digitais e críticas ao sistema de pagamentos Pix.
Embora parte dessas medidas tenha sido posteriormente suspensa ou flexibilizada pela Suprema Corte dos Estados Unidos, novas tarifas de 25% já foram anunciadas e têm previsão de entrar em vigor em 15 de julho de 2026. As medidas decorrem de investigação comercial conduzida com base na Seção 301 da legislação americana.
Nesse contexto, os Estados Unidos permanecem como o segundo maior parceiro comercial brasileiro. No entanto, desde 2025, as exportações brasileiras para o mercado americano vêm apresentando retração, enquanto as vendas destinadas à China cresceram 21% em 2026 na comparação com o mesmo período do ano anterior.
Yuan amplia espaço nas operações financeiras brasileiras
A aproximação entre os dois países também tem refletido no uso do renminbi, conhecido internacionalmente como yuan, nas operações financeiras envolvendo empresas brasileiras.
Desde 2023, a moeda chinesa passou a ocupar a segunda posição entre os ativos das reservas internacionais do Banco Central, superando o euro, embora ainda permaneça distante da participação do dólar.
O avanço também aparece nas operações comerciais. Entre 2024 e 2025, o valor das importações brasileiras liquidadas em renminbi aumentou de US$ 1,80 bilhão para US$ 3,81 bilhões. Mesmo assim, essas operações representam apenas 1,36% do total das importações brasileiras.
Ao mesmo tempo, instituições financeiras ampliam a infraestrutura necessária para essas transações. O BOCOM BBM tornou-se o primeiro banco ligado diretamente ao sistema chinês de pagamentos internacionais, o CIPS, além de concluir a primeira operação de crédito em renminbi com uma empresa brasileira.
O Brasil também conta com uma filial do Banco Comercial da China e passou a receber operações da plataforma chinesa XTransfer, especializada em comércio exterior e voltada principalmente para pequenas e médias empresas.
Relação tende a se aprofundar
A ampliação da cooperação financeira demonstra que Brasil e China buscam fortalecer uma parceria que vai além do comércio tradicional. A emissão de títulos públicos no mercado chinês, o crescimento dos investimentos e o avanço do uso do renminbi apontam para uma integração econômica cada vez maior.
Ao mesmo tempo, o Brasil procura ampliar suas alternativas em um cenário internacional marcado por disputas comerciais e mudanças nas relações econômicas globais. A diversificação de parceiros aparece como uma estratégia para aumentar a resiliência da economia brasileira, enquanto o avanço da presença chinesa na região tende a manter a América Latina no centro da disputa geopolítica entre Pequim e Washington.
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