Pesquisadores investigam frutas nativas, compostos bioativos e novos processos para transformar a riqueza vegetal do país em alimentos, ingredientes e oportunidades econômicas para pequenos produtores.
A biodiversidade brasileira pode contribuir para o desenvolvimento de novos alimentos, ampliar o conhecimento sobre possíveis benefícios à saúde e gerar renda para pequenos produtores e comunidades. Essa é uma das propostas do Food Research Center, Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT FoRC), iniciado em setembro de 2025.
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O projeto reúne pesquisadores, empresas e comunidades para estudar de forma integrada a biodiversidade vegetal, a produção sustentável de alimentos, a biotecnologia e a saúde humana.
A proposta é acompanhar toda a cadeia, desde a identificação dos compostos existentes nas plantas e seus possíveis efeitos no organismo até o desenvolvimento de processos produtivos, novos alimentos e formas de ampliar a participação dos produtores nos benefícios econômicos.
Biodiversidade brasileira é estudada do alimento ao organismo
Uma das plataformas de pesquisa do INCT FoRC procura identificar compostos bioativos presentes nos vegetais e compreender como essas substâncias se comportam após o consumo.
Os pesquisadores analisam quais compostos estão presentes nos alimentos, como ocorre sua biossíntese nas plantas, de que maneira são absorvidos e metabolizados pelo organismo humano e quais respostas biológicas podem provocar.
Entre as frentes atualmente estudadas estão quatro frutas nativas: pitanga, cambuci, uvaia e araçá-amarelo. A produção desses frutos está principalmente relacionada a pequenos produtores.
Um dos desafios comerciais é a alta perecibilidade. As frutas precisam atingir a maturação ainda na planta e apresentam vida pós-colheita relativamente curta, o que limita a comercialização dos produtos in natura.
Pesquisas anteriores já identificaram compostos bioativos, especialmente compostos fenólicos, tanto na polpa quanto na casca dessas frutas. Os estudos atuais avançam também sobre as fibras alimentares presentes nessas diferentes partes dos frutos.
Pesquisadores analisam fibras e microbiota intestinal
O objetivo dos estudos não é apenas determinar a quantidade de fibras existentes nas frutas. Os pesquisadores também investigam características como solubilidade, composição molecular, monossacarídeos presentes e a forma como essas unidades estão ligadas nos polissacarídeos. Outra etapa busca compreender possíveis efeitos biológicos dessas fibras.
Em modelos de fermentação colônica realizados em laboratório, frações das fibras são colocadas em contato com a microbiota presente em amostras fecais de voluntários. Os pesquisadores avaliam, entre outros aspectos, a formação de ácidos graxos de cadeia curta e mudanças na abundância de diferentes bactérias. As análises incluem técnicas baseadas no gene 16S, método utilizado para estudar a composição de comunidades bacterianas.
As frações solúveis em água também são testadas em células de câncer colorretal para verificar respostas celulares que possam indicar potencial para estudos mais aprofundados.
Nesta etapa, os experimentos são realizados in vitro e não representam comprovação de benefício clínico em seres humanos. Eles servem para selecionar as frações consideradas mais promissoras para as próximas fases da pesquisa.
Estudos poderão avançar para testes em animais e humanos
Após a caracterização dos compostos e os experimentos em laboratório, as frações e frutas que apresentarem resultados considerados mais promissores poderão avançar para estudos in vivo. A previsão é utilizar principalmente camundongos em modelos experimentais relacionados à inflamação intestinal crônica e ao câncer colorretal.
Os resultados poderão servir posteriormente de base para o planejamento de estudos clínicos em seres humanos, envolvendo tanto o consumo das próprias frutas quanto ingredientes derivados delas, como farinhas e frações com maior concentração de fibras alimentares.
O avanço para essas etapas dependerá dos resultados obtidos nas fases anteriores e da avaliação de segurança e eficácia.
Pesquisa busca transformar descobertas em alimentos
Outra plataforma do INCT FoRC se dedica ao desenvolvimento de processos capazes de transformar frutas e subprodutos vegetais em novos alimentos e ingredientes. Os pesquisadores estudam métodos considerados mais limpos para a extração de compostos de interesse, além de processos que possam ser implantados em escala piloto.
Entre os objetivos estão desenvolver novos produtos e analisar fatores como digestibilidade, bioatividade, sustentabilidade e viabilidade econômica. A estratégia também busca aproveitar partes das matérias-primas que muitas vezes não são utilizadas comercialmente.
Folhas, cascas, sementes e resíduos podem conter óleos, fibras, aromas e outros compostos com potencial para utilização em alimentos, cosméticos ou bioinsumos. No caso das frutas nativas analisadas pelo projeto, algumas das possibilidades futuras incluem a produção de farinhas de frutas e ingredientes enriquecidos com fibras alimentares.
A transformação dessas descobertas em produtos comerciais, no entanto, dependerá da comprovação de segurança, eficácia e viabilidade de processamento, além da avaliação de custos e impactos ambientais.
Pequenos produtores integram estratégia de geração de renda
Uma terceira frente do projeto procura compreender como o conhecimento científico e as novas tecnologias podem chegar às regiões produtoras e ao mercado. As atividades incluem capacitação de pequenos produtores, mapeamento de cadeias produtivas, educação e avaliação de impactos sociais e ambientais.
Esse desafio é considerado especialmente relevante no caso da pitanga, do cambuci, da uvaia e do araçá-amarelo, cuja produção está fortemente ligada a pequenos produtores. Como a comercialização in natura é limitada pela rápida deterioração dos frutos, a ampliação do valor econômico dessas espécies depende de fatores como aumento da produção, regularidade da oferta, conservação, processamento e acesso aos mercados.
Uma das frentes do INCT FoRC pretende apoiar produtores para ampliar e tornar mais regular a produção dessas frutas, criando novas oportunidades de comercialização. A intenção é conectar o conhecimento sobre a composição e os possíveis efeitos biológicos dos alimentos ao desenvolvimento de ingredientes e às necessidades das cadeias produtivas.
Projeto prevê cinco anos de pesquisas e desenvolvimento
Ao longo de cinco anos, o INCT FoRC pretende caracterizar alimentos vegetais, desenvolver tecnologias, realizar estudos pré-clínicos e clínicos, mapear cadeias produtivas e formar novos pesquisadores. A proposta é integrar áreas que tradicionalmente podem avançar de maneira separada.
Um composto identificado como promissor, por exemplo, precisa passar por diferentes etapas antes de resultar em um alimento ou ingrediente disponível no mercado. São necessárias avaliações de segurança, processos sustentáveis de produção, capacidade de fabricação em escala e viabilidade comercial.
Ao mesmo tempo, o desenvolvimento de cadeias produtivas depende da conservação das espécies e da participação das comunidades e produtores envolvidos. A expectativa dos pesquisadores é que a biodiversidade brasileira possa contribuir não apenas para a preservação ambiental, mas também para dietas mais diversificadas, desenvolvimento científico, inovação e geração de oportunidades econômicas.
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