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Estudo de longo prazo na Amazônia descarta savanização, mas alerta para vulnerabilidade da floresta

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Pesquisa de 22 anos revela resiliência da floresta amazônica após queimadas, embora biodiversidade e estabilidade ainda sejam afetadas

Um estudo de longo prazo conduzido na região amazônica descartou a teoria da savanização (hipótese que previa a substituição da floresta por vegetação típica de savanas) ao demonstrar que áreas degradadas podem se regenerar naturalmente. A pesquisa, realizada ao longo de 22 anos em Querência, no Mato Grosso, traz evidências de que, apesar dos impactos das queimadas e secas, a floresta apresenta alta capacidade de recuperação, desde que condições ambientais adequadas sejam mantidas.

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A chamada savanização da Amazônia foi uma preocupação levantada por cientistas desde a década de 1990, especialmente em regiões sob intensa pressão do desmatamento e da expansão agrícola. No entanto, os resultados do estudo indicam que, ao contrário dessa previsão, as áreas afetadas pelo fogo tendem a ser retomadas por espécies florestais originais ao longo do tempo.

Segundo o pesquisador Leandro Maracahipes, da Universidade de Yale, apoiado pelo Instituto Serrapilheira, a floresta demonstrou resiliência significativa. “O que a gente está mostrando é que a floresta recupera, que ela é altamente resiliente e tem essa capacidade de retornar aos espaços degradados”, afirmou.

Savanização da Amazônia: recuperação depende de condições específicas

Apesar do cenário positivo, os cientistas alertam que a regeneração não ocorre de forma automática ou garantida. A interrupção dos incêndios é considerada fundamental para que a floresta possa se recompor. Além disso, a proximidade de áreas preservadas é essencial para fornecer sementes e garantir a dispersão por meio de animais e do vento.

“É preciso que haja uma fonte de dispersão próxima. Sem uma matriz de vegetação nativa, o processo de recuperação se torna mais lento e difícil”, explicou Maracahipes.

O estudo teve início em 2004, em uma área de 150 hectares, onde foram mapeadas as condições originais da vegetação, fauna e insetos. O espaço foi dividido em três partes iguais: duas delas foram submetidas a queimadas controladas, uma anualmente e outra a cada três anos até 2010, enquanto a terceira permaneceu intacta.

Queimadas causam perda de biodiversidade e empobrecimento do solo

Nos primeiros anos após os incêndios, os pesquisadores observaram uma queda significativa na biodiversidade. A riqueza de espécies diminuiu 20,3% nas áreas queimadas todos os anos e 46,2% nas regiões atingidas a cada três anos.

Em 2012, um novo evento extremo, uma tempestade de vento,agravou a situação ao causar a morte de cerca de 5% das árvores. O cenário inicial era de forte degradação, com maior presença de gramíneas, especialmente nas bordas da floresta.

Com o passar dos anos, no entanto, houve recuperação gradual. O fechamento do dossel,camada superior formada pelas copas das árvores, reduziu a presença de gramíneas para cerca de 10%, e o ambiente passou a se assemelhar novamente a uma floresta. Ainda assim, a regeneração foi mais rápida no interior das áreas do que nas bordas.

Floresta regenerada ainda é mais vulnerável

Apesar da recuperação estrutural, os pesquisadores destacam que a floresta regenerada não retorna ao seu estado original. A diversidade de espécies permanece menor, com perdas que variam entre 31,3% e 50,8%, dependendo da intensidade das queimadas.

Além disso, a nova composição florestal apresenta maior fragilidade. As espécies que predominam após a regeneração possuem características como casca mais fina e menor densidade da madeira, o que as torna mais suscetíveis a novos distúrbios, como incêndios e eventos climáticos extremos.

A vulnerabilidade também é ampliada pelas mudanças climáticas, que intensificam períodos de seca na região. Embora as árvores regeneradas ainda consigam acessar água, os cientistas apontam a necessidade de restaurar áreas degradadas em larga escala para manter esse equilíbrio hídrico.

“Arco do Desmatamento” dá lugar ao “Arco da Restauração”

Diante dos resultados, os pesquisadores destacam uma mudança de perspectiva sobre regiões historicamente afetadas pelo desmatamento, como o chamado “Arco do Desmatamento”. Agora, surge o conceito de “Arco da Restauração”, que enfatiza o potencial de recuperação da floresta amazônica.

A conclusão do estudo reforça que a Amazônia possui capacidade natural de regeneração, mas depende diretamente da redução das queimadas, da preservação de áreas vizinhas e de políticas ambientais eficazes para garantir sua resiliência no longo prazo.

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