Reservas estratégicas de terras raras colocam o país no radar de potências globais, enquanto governo e Congresso aceleram medidas para proteger ativos nacionais
O Brasil deve ocupar uma posição estratégica na crescente disputa tecnológica entre Estados Unidos e China por minerais críticos e terras raras, insumos considerados essenciais para setores como indústria militar, inteligência artificial, semicondutores, baterias, turbinas eólicas e veículos elétricos. Com grandes reservas desses recursos, o país passou a atrair investimentos bilionários de potências estrangeiras ao mesmo tempo em que busca avançar na regulamentação do setor para proteger ativos considerados estratégicos.
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As terras raras e os minerais críticos ganharam protagonismo global por serem fundamentais para a transição energética e para o desenvolvimento de tecnologias avançadas. No Brasil, o interesse internacional tem aumentado diante do potencial mineral do território nacional e da capacidade de fornecer matérias-primas para cadeias produtivas consideradas sensíveis do ponto de vista econômico e geopolítico.
Brasil possui uma das maiores reservas de minerais críticos do mundo
De acordo com dados do Serviço Geológico Brasileiro (SGB), o Brasil possui a segunda maior reserva conhecida de terras raras do planeta, atrás apenas da China. São cerca de 21 milhões de toneladas estimadas, o equivalente a aproximadamente 24% das reservas globais. A China lidera com cerca de 44 milhões de toneladas.
Além das terras raras, o Brasil também concentra reservas expressivas de outros minerais estratégicos. O país detém aproximadamente:
- 66,7% das reservas mundiais de nióbio
- 24,7% das reservas globais de terras raras
- 23,9% das reservas de grafite
- 16,7% das reservas de manganês
O território brasileiro também possui reservas relevantes de bauxita, lítio, níquel, silício, cobre e urânio, ampliando seu papel no mercado internacional de insumos estratégicos.
Estados Unidos ampliam investimentos bilionários em minerais críticos no Brasil
O avanço das reservas brasileiras no mercado global despertou forte interesse dos Estados Unidos. Segundo dados da S&P Global, os norte-americanos já destinaram ao menos US$ 600 milhões, cerca de R$ 3 bilhões, para projetos brasileiros ligados à exploração de minerais críticos.
Um dos principais movimentos recentes foi o acordo da empresa USA Rare Earth para adquirir o Grupo Serra Verde, considerado o maior produtor de terras raras do Brasil, em uma operação estimada em US$ 2,8 bilhões (R$ 13,9 bilhões).
A mina Pela Ema, localizada em Goiás e operada pela Serra Verde, é apontada como a única operação em escala comercial fora da Ásia capaz de produzir quatro elementos considerados estratégicos: neodímio (Nd), praseodímio (Pr), térbio (Tb) e disprósio (Dy), usados na fabricação de ímãs de alta tecnologia.
Segundo informações divulgadas pela S&P Global, a embaixada dos Estados Unidos no Brasil também teria mapeado mais de 50 projetos com potencial para transformar o país em um polo global de minerais estratégicos.
China acelera presença no setor mineral brasileiro
A China também intensificou sua presença no setor mineral brasileiro. Segundo relatório do Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC), os investimentos chineses em mineração no Brasil mais que triplicaram em 2025, alcançando US$ 1,76 bilhão (R$ 8,6 bilhões).
O Brasil se tornou o principal destino dos investimentos chineses no período, com operações voltadas principalmente para níquel, ouro e cobre.
Entre as empresas chinesas com atuação no país estão:
- CMOC
- Zijin Mining
- MMG, subsidiária da estatal China Minmetals
Em fevereiro de 2025, a MMG anunciou a compra das operações de níquel da Anglo American no Brasil por US$ 500 milhões.
O avanço da indústria de veículos elétricos ajuda a explicar o interesse chinês. Segundo dados do setor, carros elétricos demandam cerca de seis vezes mais minerais críticos do que veículos movidos a combustíveis fósseis. Empresas como BYD e GWM já instalaram fábricas no Brasil, aumentando a necessidade de cadeias locais de fornecimento.
Austrália também entra na corrida por terras raras brasileiras
Além de Estados Unidos e China, a Austrália também vem ampliando sua presença no setor mineral brasileiro.
Em abril, a empresa australiana Power Minerals anunciou a aquisição das operações da Mineração Terras Raras S.A., responsável pelo depósito de Morro do Ferro, localizado em Oliveira, interior de Minas Gerais.
O movimento reforça o interesse global pelas reservas brasileiras de minerais estratégicos.
Governo tenta acelerar regulação dos minerais críticos
Diante do avanço estrangeiro, o Brasil busca estruturar uma política nacional para evitar que o país permaneça apenas como exportador de matéria-prima.
O Projeto de Lei 2780/24, que trata da Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos, tramita no Congresso Nacional e prevê maior controle estatal sobre o setor.
Entre os principais pontos da proposta estão:
- criação do Conselho Especial de Minerais Críticos e Estratégicos (CMCE)
- definição periódica da lista de minerais estratégicos
- análise prévia de fusões e aquisições
- avaliação da entrada de capital estrangeiro
- incentivo ao beneficiamento mineral dentro do Brasil
A proposta busca estimular a industrialização nacional e ampliar o valor agregado da cadeia mineral brasileira.
Disputas judiciais colocam negócios bilionários sob questionamento
O avanço estrangeiro sobre ativos minerais brasileiros também tem provocado disputas judiciais.
Uma ação apresentada na 9ª Vara Federal Cível da Seção Judiciária de Goiás pede a suspensão imediata da compra da Serra Verde pela USA Rare Earth. O processo foi movido pela família proprietária da área onde está localizada a mina Pela Ema, em Minaçu (GO).
Os autores alegam possíveis violações relacionadas à soberania do subsolo brasileiro e questionam pendências judiciais envolvendo compensações pela exploração mineral.
O caso também chegou ao Supremo Tribunal Federal (STF). O partido Rede Sustentabilidade e a deputada federal Heloísa Helena ingressaram com uma Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF), pedindo que a Corte avalie se a operação fere dispositivos constitucionais relacionados à propriedade de recursos minerais da União.
Até o momento, o STF ainda não definiu uma data para analisar o caso.
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