A recente decisão do governo dos Estados Unidos de classificar as facções brasileiras Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como Organizações Terroristas Estrangeiras (FTO, na sigla em inglês) acendeu um alerta entre analistas políticos, juristas e entidades de segurança pública. A medida, anunciada na última quinta-feira (28/05), inclui os grupos em uma lista restrita de 94 organizações globais, ao lado de cartéis internacionais e grupos extremistas como Hamas e Al-Qaeda. Embora vista por setores políticos como um aceno estratégico, a decisão é criticada por especialistas que apontam riscos severos à soberania nacional, potenciais prejuízos à economia brasileira e entraves na cooperação policial bilateral.
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O secretário de Estado americano, Marco Rubio, manifestou-se publicamente em sua conta oficial na rede social X para justificar a inclusão das facções na lista de ameaças à segurança do país.
Primeiro Comando da Capital and Comando Vermelho are two of the most violent criminal organizations in Brazil. Their reach extends throughout our region and into our country.
Today, I designated these organizations as Foreign Terrorist Organizations and Specially Designated…
— Secretary Marco Rubio (@SecRubio) May 28, 2026
Os impactos econômicos e os riscos ao sistema financeiro nacional
Uma das principais preocupações técnicas envolve a estabilidade econômica e os desdobramentos sobre o mercado de capitais no Brasil. O promotor de Justiça Lincoln Gakiya, atuante na linha de frente do combate ao crime organizado, fez um alerta contundente sobre o alcance da medida. Segundo o integrante do Ministério Público, o mecanismo legal atrelado à designação dos EUA confere à Casa Branca a prerrogativa de aplicar sanções indiretas a praticamente todo o sistema financeiro brasileiro.
A preocupação central reside na possibilidade de o governo americano sancionar instituições financeiras nacionais que tenham comercializado papéis ou fundos de entidades financeiras investigadas por supostos vínculos de lavagem de dinheiro com as facções, como o Banco Master e a Reag. Como a distribuição desses ativos é amplamente difundida no mercado nacional, o impacto regulatório possui potencial para travar operações bancárias legítimas. Gakiya ponderou que, embora as ações das facções se assemelhem ao terrorismo pela violência e pelo domínio territorial, o propósito desses grupos não é político ou ideológico, mas estritamente comercial e financeiro.
Mudança de competência na inteligência pode travar investigações
No âmbito jurídico e operacional, especialistas apontam que a nova classificação pode produzir um efeito reverso e prejudicar o andamento de investigações em curso. Atualmente, o intercâmbio de informações ocorre de forma fluida entre a Polícia Federal brasileira e agências americanas como o FBI e a DEA (agência de repressão às drogas).
Com o enquadramento de terrorismo, a competência das investigações em solo americano tende a migrar para a Agência Central de Inteligência (CIA) ou para as Forças Armadas dos EUA. Essa mudança eleva o nível de sigilo das operações, transformando dados de inteligência e futuras evidências criminais em segredos de Estado inacessíveis para os processos judiciais conduzidos por magistrados e promotores brasileiros.
Reações institucionais e o debate sobre o narcoterrorismo
O debate sobre a rotulagem de “narcoterrorismo” ganhou tração no cenário nacional após operações policiais de grande escala no Rio de Janeiro, onde o uso de tecnologias como drones e explosivos por parte das facções foi duramente condenado por lideranças estaduais fluminenses e paulistas. Contudo, o governo federal brasileiro mantém posicionamento contrário à interferência externa, argumentando que a recém-sancionada Lei Antifacção já oferece instrumentos jurídicos robustos e penas mais severas do que a própria legislação de terrorismo para asfixiar financeiramente o crime organizado.
Em nota oficial, o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) lamentou que um tema complexo e com profundas implicações na autonomia e na economia do país tenha sido capturado pela polarização política. A entidade ressaltou que a solução para a retomada de territórios e a regulação de mercados informais, como Fintechs, Bets e Criptoativos, exige o fortalecimento das polícias locais e não medidas unilaterais estrangeiras.
O professor e analista de relações internacionais Oliver Stuenkel também utilizou as redes sociais para criticar a falta de profundidade e o tom maniqueísta com que o tema vem sendo tratado no debate público.
Hoje, a polarização emburrecedora do tipo “defensor de bandido vs. entreguista” domina o debate sobre a decisão dos EUA de designar o PCC e o CV como organizações terroristas. Nas próximas semanas, haverá espaço para uma discussão menos maniqueísta sobre como isso impactará a…
— Oliver Stuenkel 🇧🇷 (@OliverStuenkel) May 29, 2026
O cenário pós-anúncio exigirá do corpo diplomático e técnico do Brasil uma análise pragmática para mitigar os ruídos institucionais e assegurar que as polícias estaduais, que combatem o crime organizado cotidianamente, não percam os canais de cooperação internacional construídos ao longo de décadas.
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