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Conflitos no campo afetam mais de 116 mil pessoas no Amazonas em 2025, aponta CPT

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Levantamento da Comissão Pastoral da Terra revela que disputas por terra e água atingiram milhares de famílias no estado, com indígenas e posseiros entre os grupos mais vulneráveis

O Amazonas registrou 98 conflitos no campo em 2025, que afetaram 116.415 pessoas de 23.963 famílias, segundo relatório da Comissão Pastoral da Terra (CPT). Os dados foram divulgados durante o lançamento do relatório Conflitos no Campo Brasil. As disputas por terra, água e recursos naturais continuam entre os principais fatores relacionados à violência no meio rural. Apesar de o número de ocorrências ter caído 25,7% em comparação com 2024, quando foram registrados 132 conflitos, o impacto social permaneceu elevado no estado.

Os povos indígenas foram o grupo mais atingido, envolvidos em 42 conflitos. Na sequência aparecem os posseiros, com 31 ocorrências.

Segundo o levantamento, os fazendeiros foram apontados como os principais responsáveis pelas tensões, citados em 42 casos. Também aparecem empresários, com 18 ocorrências; o governo federal, com 10; e o governo estadual, com cinco. Madeireiros, mineradoras e garimpeiros também foram mencionados entre os envolvidos.

“Os dados que estão expostos em formato de estatística não são apenas números. São Mártires da Caminhada. Cada número representa alguém”, declarou Sara Negreiros Nascimento, integrante da CPT Prelazia de Itacoatiara.

Conflitos no campo concentram a maioria dos casos no Amazonas

Dos 98 conflitos registrados no estado, 89 tiveram como causa disputas por terra e atingiram 23.963 famílias.

Entre as principais formas de violência identificadas pela CPT estão ameaças de expulsão, registradas em 31 casos; ações de pistolagem; invasões de territórios; desmatamento para descaracterização de áreas; além de omissão e conivência de autoridades públicas, apontadas em 17 ocorrências.

Dois posseiros foram mortos em consequência dos conflitos nos municípios de Boca do Acre e Lábrea. Ao todo, a CPT contabilizou 36 vítimas de violência direta contra a pessoa no Amazonas, incluindo casos de agressão, ameaça e tentativa de assassinato.

A distribuição dos casos indica que a violência no campo está concentrada principalmente no Sul do Amazonas e na região do Alto Solimões.

Municípios com maior número de conflitos de terra

  • Boca do Acre: 38 conflitos;
  • Lábrea: 10;
  • Benjamin Constant: 5;
  • Manaus: 5;
  • São Paulo de Olivença: 5;
  • Jutaí: 4.

Conflitos por água atingiram mais famílias

O relatório da CPT também aponta uma redução no número de conflitos relacionados ao acesso à água, que passaram de 10, em 2024, para sete, em 2025.

Apesar da queda nas ocorrências, o número de famílias afetadas aumentou 165,9%, passando de 1.918 para 5.100.

De acordo com a Comissão Pastoral da Terra, os conflitos estão relacionados à poluição dos rios, à contaminação por minério, à pesca predatória e às restrições de acesso à água.

Trabalho escravo resultou no resgate de 25 trabalhadores

O levantamento registrou ainda dois casos de trabalho escravo rural no Amazonas em 2025. As operações resultaram no resgate de 25 trabalhadores nos municípios de Borba e Maués.

Segundo a CPT, os dois casos estavam relacionados à exploração de trabalhadores em garimpos ilegais de ouro.

Para a coordenadora nacional da Comissão Pastoral da Terra, Maria Petrolina Neto, a redução no número de conflitos não representa necessariamente uma melhora na situação da violência no campo.

“A gente percebe que houve uma redução das ocorrências, mas um aumento no número de assassinatos [no país]. Isso pode ser o retrato de uma falsa redução, na verdade fruto de um recuo das comunidades diante de tanta violência”, avaliou.

O arcebispo de Manaus, Dom Leonardo Steiner, também destacou a importância do relatório para registrar e dar visibilidade às violações ocorridas na Amazônia.

“Quando nós lemos esses documentos, nós não estamos lendo apenas papéis, estamos lendo vidas. Vidas que foram silenciadas, mas que tornamos audíveis e visíveis através desses relatórios”, pontuou o cardeal.

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