Estudo aponta que mais da metade das áreas preservadas afetadas pela estiagem de 2023 e 2024 pode levar mais de sete anos para recuperar a umidade e a biomassa, aumentando a preocupação com um novo período de seca na região.
O novo El Niño pode atingir a Amazônia antes que a floresta conclua a recuperação da seca histórica registrada entre 2023 e 2024. A possibilidade preocupa cientistas porque parte significativa do bioma ainda apresenta sinais dos impactos causados pelo último evento extremo, considerado um dos mais severos das últimas décadas.
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Um estudo publicado neste ano na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) estima que 53,7% das áreas preservadas atingidas pela estiagem podem precisar de mais de sete anos para recuperar os níveis anteriores de umidade e biomassa vegetal.
Esse período representa o maior tempo de recuperação observado na Amazônia nos últimos 30 anos. A conclusão foi obtida a partir da análise de imagens de satélite coletadas ao longo de três décadas, comparando indicadores como a umidade da copa das árvores e a quantidade de biomassa presente na floresta.
Os pesquisadores identificaram que a seca de 2023 e 2024 provocou uma das maiores perdas de umidade da vegetação desde o início das medições, em 1992, além de uma redução de biomassa superior à média histórica.
Fenômenos climáticos intensificaram a última grande seca
A estiagem foi agravada pela combinação de dois fatores climáticos. O primeiro foi o El Niño, responsável por reduzir as chuvas sobre a Amazônia durante a estação chuvosa. O segundo foi o aquecimento anormal das águas do Atlântico Norte, que intensificou a falta de chuva nos meses tradicionalmente mais secos da região.
Os cientistas também destacam que as mudanças climáticas associadas às emissões de gases de efeito estufa têm aumentado a frequência e a intensidade de eventos extremos, tornando os intervalos entre grandes secas cada vez menores.
Os impactos foram sentidos em diferentes partes da Amazônia. Em Manaus, o Rio Negro atingiu o menor nível registrado em mais de um século de medições. Já o Rio Solimões apresentou extensos bancos de areia, enquanto diversos igarapés chegaram a secar completamente.
Embora dados do MapBiomas indiquem que, em 2025, a superfície de água da Amazônia voltou a ficar acima da média histórica devido à influência da La Niña, os pesquisadores alertam que isso não significa que o ecossistema tenha se recuperado integralmente.
Recuperação da floresta depende de vários fatores
A recuperação da Amazônia vai além da recomposição do volume de água nos rios. O estudo destaca que também é necessário restabelecer processos essenciais para o funcionamento da floresta, como a evapotranspiração, a capacidade das plantas de realizar trocas de carbono com a atmosfera e a recomposição da biomassa vegetal.
Com a repetição mais frequente de eventos extremos, a vegetação passa a ter menos tempo para se regenerar antes da chegada de uma nova estiagem. Esse cenário pode resultar em perdas graduais de biomassa, redução da produtividade da floresta e diminuição da capacidade do bioma de reciclar água e regular o próprio clima.
Pesquisas anteriores já haviam mostrado que, após a seca de 2005, a morte de árvores fez com que a Amazônia deixasse temporariamente de absorver carbono e passasse a emitir mais gases de efeito estufa, efeito que permaneceu por vários anos.
Apesar desse quadro, os cientistas ressaltam que a floresta ainda possui elevada capacidade natural de regeneração. O maior risco ocorre quando os períodos de seca se somam ao desmatamento, à exploração seletiva de madeira e às queimadas.
Essas atividades tornam a floresta mais vulnerável aos incêndios, dificultam a infiltração da água no solo e reduzem o abastecimento dos lençóis freáticos que ajudam a manter a vegetação durante os períodos de estiagem. A conversão de áreas florestais para agricultura e pecuária também compromete significativamente a capacidade de recuperação do bioma.
O estudo aponta ainda que a porção sul da Amazônia, onde o avanço do desmatamento é mais intenso e há uma transição natural para o Cerrado, tende a enfrentar os maiores desafios para superar os efeitos das secas cada vez mais frequentes.
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